Lemos ‘A Gorda’ e adorámos! Saiba por que razão tem de ler este livro

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Isabela Figueiredo, a autora de ‘A Gorda’ nasceu em Lourenço Marques (hoje Maputo), antes da independência das Colónias portuguesas em África. Maria Luísa, a personagem principal deste romance acabado de publicar pela Caminho também. Há mais coisas em comum entre ambas, muitas mesmo. São ambas professoras, escrevem, foram jornalistas, têm um blogue. E há, claro, a questão do peso: foram ambas gordas.

A semelhança entre vida e a literatura é assumida logo numa das epígrafes do texto. Citando Henry David Thoreau, um autor norte-americano do século XIX, sobre a importância de se escrever sobre o que se conhece, “teria preferido que falasse das suas experiências mais pessoais”. Somos assim imediatamente iluminados acerca da natureza deste romance.

O que é inesperado e em ‘A Gorda’ e surpreendente até ao fim é o retrato interior de, pelo menos, uma geração. Mas dá para arriscar e dizer que ‘A Gorda’ é o retrato do País – do Portugal que recebeu os ‘retornados’ e os tratou mal (Maria Luísa sente esse preconceito na pele), do Portugal dos anos 80 cheio de contradições, com sede de futuro e parado no passado, do Portugal novo-rico dos anos 90 até chegar a crise e aí há crítica aos políticos contemporâneos, à pobreza imposta à classe média, ao trabalho incessante dos professores transformados em funcionários da burocracia.


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Em ‘A Gorda’ os tempos misturam-se como se costumam ligar na memória. O romance começa no fim quando a personagem principal já não é gorda, já fez a gastrectomia que a pôs a sopas e caldos e a fez emagrecer, mas as marcas do passado enquanto gorda ainda estão todas inscritas na autonarrativa de Maria Luísa.

Maria Luísa sofre nas mãos de uma melhor amiga, durante a adolescência, por ser gorda e e sofre às mãos do namorado, já quando faz a segunda licenciatura, por ser gorda. Ela acaba por se libertar da amizade que lhe faz mal, mas do amor não, ficando até ao fim do livro (hoje) à espera desse amado David que a renegou duas vezes – uma por causa das expectativas sociais, outra por causa de um casamento sem amor – mas que lhe escreve uma carta prometendo regressar à casa onde “foderam” tantas vezes.

Não há mariquices neste livro. A linguagem é crua muitas vezes, é vernacular e a personagem principal, apesar da sua tendência para a vitimização por causa do peso, é uma mulher forte física e psicologicamente, descarada algumas vezes. Não lhe faltam casos nem amores furtivos, nem a estima da família – primeiro o pai, alvo de amores precoces e recíprocos, depois a mãe cada vez mais repositório admiração e atenção.

É tão realista a descrição dos cuidados de Maria Luísa tem para com a mãe à medida que esta envelhece e dos sentimentos que tem sobre esse bebé exigente em que se transforma cada velho: há a vontade de se libertar, há a falta de paciência, há o amor desesperado de quem não quer ver a mãe morrer, há a atenção constante e o cansaço. Há verdade nestas linhas e nas outras. E há humor, sagaz, cirúrgico, consciente que torna todo o livro numa delícia para a leitora.

Fundamentalmente, qualquer mulher, provavelmente cada homem, se consegue relacionar com partes ou mesmo com o todo desta história. A recuperação de cenários como os bairros de barracas à porta dos bairros suburbanos, dos objetos do quotidiano como o passe L123 ou as motas Casal, de momentos históricos na vida doméstica como a instalação do telefone nos anos 80 ou a entrada para a faculdade do filho único das classes operárias fazem de ‘A Gorda’ um romance de época do pós-Colonialismo, cheio daquilo que o País é.

 

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‘A Gorda’, de Isabela Figueiredo, Caminho, €13,41.

 

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