Parabéns Frida Kahlo, pela obra e pela luta pela condição feminina

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón. Este é o nome completo da mulher pique se tornou conhecida para o mundo como Frida Kahlo, a pintora mexicana que, para lá da sua obra, deixou muito mais de herança do que apenas o seus quadros, também eles inspiradores para a moda, para a decoração e para a evolução da condição feminina.

A recuperação da tradição pré-hispânica em todo o seu esplendor, a assunção das fragilidades e do que uma mulher consegue suportar, a alegria na tristeza, a desconstrução da vida sexual e conjugal subjugada e a toda uma outra forma de viver a vida e o amor.

São múltiplos os planos de influência que a pintora mexicana, que nasceu a 6 de julho de 1907 nos arredores da capital do México, Coyoacàn, e que é descrita como “filha da revolução”, deixou. Viria a morrer a 13 de julho de 1954, vítima de uma broncopneumonia.

Pelo meio, uma vida de tantas alegrias como de tragédias, sempre espelhadas e transpostas para a arte. O acidente de autocarro, as mais de três dezenas de cirurgias a que foi submetida nessa sequência, a vida amarrada a uma cama, os abortos, tudo dores que passaram para a tela.

Casou duas vezes com Diego Rivera, muralista e propagandista político de esquerda, numa relação onde não faltaram amantes de parte e parte e até traições: Diego chegou mesmo a envolver-se com a irmã da pintora, ditando assim o fim do primeiro casamento.

Uma legitimação que começou a ser evidente há 30 anos

Olhando para os escritos da pintora – que ficaram retidos durante um longo período por decisão do casal -, muito se percebe o quanto seguia à frente do seu tempo. Ana Mesquita, ex-jornalista, designer e artista plástica sempre teve Frida debaixo de olho. Este ano, a 8 de março, dia da Mulher, inaugurava uma exposição que reunia a pintora mexicana e a cantora luso brasileira Carmen Miranda, mostrando as influências e os legados de ambas. Uma mostra que, para já, vai até Almodôvar, mas pode até vir a saltar o oceano Atlântico.

“Estas duas mulheres mandaram nas vidas delas, mandaram a sério. A Frida Kahlo teve uma gramática muito própria, foi buscar um pouco do folclore, as reminiscências da revolução cultural mexicana… Era uma mulher com uma abertura para o mundo especial. Ela vive na dor permanente e, em cada bocadinho, procura a cor, o sol, o amor.

[Fotografia: Facebook]

Ana Mesquita. “Ela fica totalmente legitimada nos últimos 30 anos, é uma mulher que era, e agora percebe-se, muito à frente no seu tempo. Todas as histórias que ela viveu à data seriam vistas com moralismos”, recorda a designer.

A primeira a mostrar as dores das mulheres

“Não te demores onde não podes amar.” Esta é uma frase de Kahlo que Mesquita defende que deveria vir inscrita no Cartão de Cidadão de cada um. “Esse é o grande ensinamento da vida da pintora, que fez tudo por amor, inclusivamente a sua obra. Ela soube transformar a dor em algo tão belo que nem surrealista era, porque nunca se entendeu com os defensores desta corrente”, justifica a ex-jornalista. Recorde-se que a pintora chegou a comparecer à inauguração da sua derradeira exposição sua na cama, por ordem médica.

Porém, mesmo não tendo sido a primeira artista a imprimir na tela as dores do corpo e da mente, foi a primeira mulher a fazer isso em nome de todo o sexo feminino.

“Apesar de Caravaggio (1571 – 1610) já pintar as fragilidades, Frida é a primeira a denunciar as que são femininas, as dores das mulheres: os divórcios, as separações, as traições, os abortos. A Frida é a primeira mulher a mostrar o que o coração de uma mulher pode suportar”, refere. “Quando Paula Rêgo nos chega, grande parte deste caminho já estava feito”, afirma Mesquita.

A condição feminina, a emancipação e a bissexualidade

“Até a primeira metade do século XX, as mulheres eram subjugadas à condição masculina. Não tinham uma condição delas. Só depois da segunda metade, após a década de 60, com a emancipação sexual e a chegada da pílula, é que se dá essa mudança. Mas tanto Frida como Carmen Miranda emanciparam-se”.

Para lá de uma vida ativa no mundo da política e dos direitos das mulheres e que abriu caminho para as que se lhes seguiram, como conta a autora e investigadora mexicana Luz Martinez, Kahlo sempre pugnou pela liberdade sexual. “Para os homens que tiveram próximos dela, isso foi uma evidência. E só mais tarde é que damos conta de tudo isso em cartas escritas à cantora Chavela Vargas e à pintora Georgia O’Keeffe – uma carta em que se assume muito declaradamente”, recorda Ana Mesquita.

Estes e outros aspetos que não escaparam ao olhar atento do cinema, do documentário e da literatura, artes em que Frida é, há décadas, abundantemente retratada.

O legado a que a moda recorre quase todos os anos

Frida sempre se apresentou de tons vivos e de formas de vestuário que recuperavam a tradição mexicana. Uma atitude e uma escolha que se mostravam também nas joias que usava, na forma como se penteava – os entrançados – e até na sua característica monocelha.

Em finais de março deste ano, o estilista Nuno Baltazar apresentou uma coleção primavera/verão 2017, no âmbito do Portugal Fashion, que fazia apologia ao universo mexicano e, em particular, a este casal de artistas.

“Frida Kahlo sempre fez parte do meu imaginário e a ideia surgiu agora porque, de alguma forma, o seu universo veio mais à tona no meu momento pessoal. Gosto de retratar histórias de mulheres fortes e ela foi realmente uma delas da cultura visual e mundial”, começa por explicar o criador.

[Fotografia: Facebook]

“Ela foi capaz de, perante uma enfermidade tão grande e problemas de saúde tão graves, se superar, de expôr a sua fragilidade, o seu estado débil, que é bem patente no seu trabalho e na sua obra, mas recorrendo a um sentido de humor quase irónico, porque depois é cheio de cores e de simbologia, o que me interessa particularmente”, prossegue.

Numa coleção que diz estar a receber uma “muito boa aceitação por parte do público”, Nuno Baltazar conta que não foi “buscar tanto as cores dos quadros dela, mas dos ambientes que ela retratava”.

Quanto às formas, a resposta é evidente: “Ela vestia-se muitas vezes de homem, bastante antes de Yves Saint Laurent ter desenvolvido os smokings para mulheres [há cerca de 50 anos] e retratava-se muitas vezes assim”, justifica o designer de moda.

Tudo isto, sem esconder o lado feminino. “Também no seu guarda-roupa havia peças que promoviam a exultação das formas típicas de vestuário mexicano, formas muito quadradas – sobretudo nas partes de cima, com o recurso a folhos – e depois as saias muito rodadas e com grande multiplicidade de mistura de padrões e de cores”.

Nuno Baltazar é só o mais recente exemplo de como a moda importou esta simbologia para as passerelles. O italiano Valentino também o fez em 2015 e somam-se exemplos de estilistas que seguiram a mesma linha de inspiração. Gaultier, em 1998, já o tinha feito também.

“É incrível como ao longo dos anos têm sido a múltiplas as criações que têm por base a artista como inspiração. Há grandes editoriais de revistas de moda e de maquilhagem que recorrem a esta inspiração”, contextualiza, já para não faltar no que deixou à decoração, com os padrões florais e de aves.

“Na decoração, sempre houve um certo fascínio pelo lado vegetal da pintora, a maneira como ela interpretava esse universo: as cores das flores, por exemplo. As coleções de papéis de parede, de tecidos para sofás, há muita coisa inspirada nela”, explica a artista plástica Ana Mesquita.

Os entrançados e a monocelha

Baltazar é, neste capítulo, cuidadoso. Afinal, trata-se de elementos característicos de múltiplas sociedades tradicionais. Admite, porém, que “de vez em quando há artistas que têm imagens tão fortes que parece que tudo começou nelas” e como ela “se autoretratou tanto, isso acabou por ser icónico”. É aqui que o criador inclui a sobrancelha contínua e os penteados. “As tranças eram uma coisa normal e as mexicanas sempre tiveram cabelos muito compridos. Ora, como o México é quente, as tranças mostram a forma como as mulheres resolveram a questão do calor.

Kahlo e a revolução à mesa

Muito para lá dos cavaletes e dos pincéis, a pintora mexicana gostava de promover festas na célebre Casa Azul – onde viveu com Diego Rivera e que albergou inúmeras personalidades da esquerda – e ficou para a história como uma anfitriã irrepreensível. É Luz Martinez quem revela isso mesmo e na sequência de ter escrito, em 2014, um livro de gastronomia inspirado na artista: À Mesa com Frida Kahlo.

“Em termos de gastronomia, ela recuperou os pratos tradicionais das culturas pré-hispânicas e da convergência destes com a herança espanhola”, conta a autora, dando como exemplos a recuperação de beber chocolate ao pequeno-almoço e jantar ou de preparar cirúrgicas e demoradas refeições tradicionais.

“O que mais gostava de fazer era mole poblano – um prato tradicional com 29 ingredientes como carne de peru, quatro tipos de malaguetas secas, nozes, sésamo, pevides de abóbora, canela, pão seco, banana, chocolate, tortilha de milho tostada e outros – e era tão delicado que demorava um dia ou dois para confecionar. Ela oferecia este grande manjar em comemorações muito especiais e acontecimentos importantes”, conta a investigadora mexicana a viver em Portugal.

“Ela é uma das grandes pintoras do século XX, mas a sua própria imagem e respeito que tinha pelas culturas pré-colombianas ultrapassaram o tempo e a história. Ela é a referência mundial da nossa cultura e que vai desde a joalharia, aos penteados, à moda, influências que têm transcendido gerações inteiras. É uma herança cultural quase permanente”, sintetiza Martinez.

Imagem de destaque: Montagem Pinterest

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