Adeus princesa… até depois!

Meninas e princesas não são a mesma coisa, mas confundem-se vezes de mais. É com o intuito de combater estes estereótipos e as consequências que eles imprimem na vida de crianças e adolescentes que Lisiara Rocha acabou de criar a Escola de Desprincesamento, no Rio Grande do Sul, no Brasil. Tal como o nome indica, o objetivo é libertar as meninas das características e das expectativas criadas pelas princesas e pelas histórias de encantar.
Para esta educadora em sexualidade, terapeuta sexual na Saúde e Educação e coordenadora regional da Associação Brasileira do Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual (Abrasex) é preciso dizer adeus a mundos cor-de-rosa, a coroas e a vestidinhos rodados e etéreos, e levar as meninas a pôr termo a preconceitos de género nas brincadeiras, no padrão de beleza, no mito do amor romântico e chamar à atenção para a forma como todas estas ideias são caminho fácil para uma autoestima frágil e, em última análise, para a violência.
Uma ideia que a especialista, conta ao Delas.pt, quer alargar aos rapazes:

“Os meninos estão mais ligados aos super-heróis e estes também trazem várias ideias-feitas ligadas a características como ser forte, valente, não poder chorar, não poder demonstrar sentimentos, e isso causa dificuldades num homem quando chega à sua fase adulta”.

Lisiara Rocha declara guerra às princesas como fenómeno de imitação, mas também não quer que os príncipes sejam apenas os que vêm salvar as suas damas. Uma necessidade que se reveste de uma urgência maior quando, afirma a terapeuta, se está perante a educação e cultura vigentes na América Latina. “O número de violência contra mulheres e meninas nestes países é muito grande e precisamos de mudar esse quadro”. A informação – crê Lisiara Rocha – é a única forma de começar a mudar mentalidades e comportamentos.

Lisiara Rocha, criadora da Escola de Desprincesamento e educadora em sexualidade, terapeuta sexual na Saúde e Educação e coordenadora regional da Associação Brasileira do Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual [Fotografia: DR]
Lisiara Rocha, criadora da Escola de Desprincesamento e educadora em sexualidade, terapeuta sexual na Saúde e Educação e coordenadora regional da Associação Brasileira do Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual [Fotografia: DR]

Como surgiu a ideia? Há quanto tempo existem estes workshops?
A escola foi inspirada no projeto chileno e que existe por via da Oficina de Proteção dos Direitos da Infância [estruturas municipais e multidisciplinares], mas o tema surgiu originalmente em Espanha, em 2012, onde são realizadas oficinas para mulheres. Aqui no Brasil, um grupo de profissionais foi capacitado por chilenos para replicar o projeto e os primeiros trabalhos iniciaram-se no fim do ano passado. São iniciativas voltadas para meninas dos 9 a 15 anos. Nós, na Escola de Desprincesamento, queremos expandir essa faixa etária e incluir também os meninos, pois acreditamos que é necessário um equilíbrio para que a desigualdade de género deixe de existir.


Tipo de atividades para meninas


Que disciplinas estão incluídas no workshop? Porquê?
O foco principal das oficinas é desconstruir estereótipos e empoderar crianças e adolescentes. Assim, nas oficinas, trabalhamos com o que é ser menina e o que é ser princesa, quais as ; similaridades para que elas consigam ter a perceção de quão próximas meninas e princesas estão. Falamos sobre os estereótipos de género nas brincadeiras e nos jogos (a separação feita em torno do que é de menina e do que é de menino), o padrão de beleza e o quanto isso as afetas na autoimagem e autoaceitação.

Também falamos sobre o mito do amor romântico e as consequências que daí advêm para as mulheres, falamos sobre a importância do amor-próprio e como ele está ligado com prevenção à violência.

Estes são os eixos principais de trabalho. No final da oficina, abrimos um diálogo com as meninas para entender como percebiam o que era ser menina antes da oficina e como percebem isso após essa vivência.

E quais as reações?
Nesse momento, é incrível a forma como fica claro para elas o quanto elas são limitadas por vários fatores sócio-culturais.

Imagem das oficinas de Desprincesamento [Fotografia: DR]
Imagem das oficinas de Desprincesamento [Fotografia: DR]

E como seria a formação no caso dos rapazes?
Pensamos, no futuro, trabalhar com a desconstrução dos estereótipos machistas da nossa sociedade. Os meninos estão mais ligados aos super-heróis e estes também trazem várias ideias-feitas ligadas ; a características como ser forte, valente, não poder chorar, não poder demonstrar sentimentos, e isso causa dificuldades num homem quando chega à sua fase adulta. Traremos os príncipes também, mas com um olhar diferente, refletindo sobre o seu papel nas histórias, que no geral fica restrito a “salvar a princesa”.

Quantas crianças e adolescentes já receberam formação?
A escola iniciou suas atividades este mês, e já tivemos uma turma de 14 meninas.

Finalistas da Oficina []Fotografia: DR]
Finalistas da Oficina []Fotografia: DR]

É um trabalho que já existe na América Latina. Porquê esta pré-disposição?
O trabalho tem sido replicado em diversos países da América Latina devido à sua urgência.

O número de violência contra mulheres e meninas nestes países é muito grande e precisamos de mudar esse quadro.

Acreditamos que a melhor forma de alterar essa realidade é com prevenção e informação, principalmente para essa nova geração, para que seu futuro seja diferente da realidade que observamos hoje.

E há disciplinas mais físicas, de defesa pessoal?
No Brasil, nas oficinas da Escola de Desprincesamento fizemos uma adaptação. Não fazemos aulas de defesa pessoal no sentido das artes marciais.

Falamos em defesa com o propósito de trabalhar com a prevenção, com a violência e com o assédio, e com o objetivo de elas saberem que atitudes devem tomar para se defenderem nesses casos.

Quem têm de procurar, com quem têm de conversar, para onde devem ligar, onde pedir ajuda. É nesse sentido que trabalhamos a defesa, e sempre aliada à prevenção.

Que reações tem recebido? O que dizem os críticos?
Existem sempre as opiniões à favor e as contra. O nome Desprincesamento é um nome forte e causa uma certa estranheza, principalmente no Brasil onde o prefixo “des” nos remete para um sentido de contrariedade e de negação, o que não condiz exatamente com o conceito do desprincesamento.

Desprincesar é dizer às meninas que elas têm mil possibilidades de ser, que não precisam de ficar limitadas ao que lhes dizem, que têm o poder de escolha e que podem ser tanto uma princesa, quanto uma bombeira, uma astronauta, desde que esta escolha seja dela!

Qual a duração dos workshops?
As oficinas com as meninas têm a duração de 15 horas.

Quanto custa a oficina e quem são os profissionais que dão as aulas?
Fizemos um valor promocional de lançamento para estas primeiras oficinas, agora vamos rever os valores para fechar um montante correto. Quanto a quem ministra as aulas, atualmente sou eu, que sou Educadora em Sexualidade, Terapia Sexual na Saúde e Educação, Coordenadora Regional da Associação Brasileira do Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual (Abrasex), mas abriremos os módulos a outros profissionais de áreas diversas. O importante é que estes estejam capacitados para trabalhar com esta temática.

Há parcerias com escolas ou as inscrições estão a ser feitas individualmente?
Hoje as inscrições são feitas individualmente, pois, como disse anteriormente, estamos a iniciar as atividades no Brasil. Mas sabemos que há muito trabalho a ser feito e muita parceria a ser realizada futuramente, e as escolas estão no nosso projeto para parcerias.

Que tipo de preparação deviam ter os pais? Muitas vezes, é através da roupa, dos brinquedos e da educação que se perpetuam estes estereótipos.
Na escola, o nosso primeiro encontro é com os pais. Precisamos de lhes esclarecer a importância do tema e o motivo de ele ser tão necessário para o desenvolvimento das meninas.

Agora, o que percebemos já neste início de atividade é que precisamos de fazer um trabalho mais profundo com os pais, justamente para que eles deixem de reproduzir esses estereótipos em casa.

E de quem é a culpa na criação destes estereótipos? A educação? As histórias de encantar? A Disney?
Aí entramos numa conversa muito mais profunda e muito mais longa, onde passaríamos horas e horas. Os estereótipos são formados por vários fatores sócio-culturais, tempo histórico, enfim uma soma de diversas questões.

O que podemos dizer é que Disney é uma marca muito forte e que ela contribui, assim como a publicidade e as novelas por exemplo, para ditar normas e padrões sociais.


Estudo sobre os filmes da Disney indica que as mulheres falam menos do que os homens


O que precisamos é de ficar atentos e olhar com uma visão crítica e reflexiva sobre o que nos é transmitido e o que reproduziremos à nossas crianças e adolescentes.

Imagem de destaque: Shutterstock

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