Alix Christie: “Nós sabemos que o digital vai mudar a natureza humana”

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Tipógrafa desde os 16 anos, Alix Christie escreveu O Aprendiz de Gutenberg, um romance histórico que chega agora a Portugal e que é uma declaração de amor aos livros. Vive em Londres mas é americana e um dia quer que a badana dos seus romances históricos diga: Alix Christie passa metade do ano na Califórnia, onde ainda tem a sua pesada máquina de tipografia. É tipógrafa por herança do avô, jornalista por inspiração da mãe, poliglota por amor às viagens e publicou o seu primeiro livro, O Aprendiz de Gutenberg, porque desde criança sente que é escritora.

O livro chegou sexta-feira às livrarias e lá dentro a história vai até ao tempo em que nasceu o primeiro livro impresso. De Steve Jobs a Gutenberg, da Bíblia a Silicon Valley, Alix Christie gosta tanto da era digital em que vivemos como do revivalismo que nos leva de volta ao amor pelo que é artesanal. Ao Delas.pt fala sobre isso e muito mais.

O que a levou até um romance histórico sobre tipografia?

Eu sou tipógrafa e o meu avô também era. Desde os 16 anos que ia para a tipografia com ele. Vim para a Europa mas ainda tenho uma máquina na Califórnia. Mudo-me muitas vezes e aquilo é uma máquina muito pesada. O interesse histórico veio com um artigo do New York Times falava sobre a forma como Gutenberg tinha desenvolvido os seus caracteres de metal, que não seriam tão avançados inicialmente quanto se pensava. Quando me mudei para a Alemanha achei que era uma boa altura para investigar e foi quando descobri o livro sobre Peter Schoeffer, que é o tal aprendiz e afinal também foi muito importante.

Então porque é que só recordamos Gutenberg como o homem que fez o primeiro livro?

Ninguém consegue ter a certeza de quem é que fez o quê. O que temos a certeza é que houve uma grande disputa em tribunal entre eles e que, depois de fazerem a Bíblia, Peter Schoeffer foi muito prolífico, imprimiu muitos livros e ficou muito famoso porque teve a primeira grande tipografia. A partir daí foi divertido tentar montar o puzzle.

Viu o papel que a ficção podia ter?

Gosto desta tendência, cada vez mais comum, para pegar em figuras reais e imaginar o que as levou a fazer isto ou aquilo. Neste caso foi ainda melhor porque senti que eles estavam a viver na Idade Média o que vivemos agora com a era digital.

É uma transição equiparável?

Eles também não tinham como saber o impacto que a invenção da imprensa viria a ter. Ao mesmo tempo, devem ter suspeitado, tal como nós sabemos que o digital vai mudar a natureza humana mas não sabemos até que ponto vai chegar. Peter Schoeffer era um escriba e, de repente, teve de se adaptar a uma tecnologia que ameaçava a sua profissão. É fácil identificarmo-nos com isso num tempo em que nos dizem que o digital pode acabar com os jornais e os e-books com os livros. Acho que é por isso que o livro tem tido tanto sucesso. No fundo, os humanos não mudam assim tanto. Até a forma como eles se juntaram para aquele empreendimento que foi fazer a Bíblia tem muito a ver com a forma como hoje surgem as startups. E nós sabemos que um projeto daquela dimensão não pode ter sido executado por uma só pessoa.

Tal como as grandes descobertas tecnológicas?

Sim, é como Silicon Valley, de onde venho. É tudo feito em parceria mas talvez precisemos de nos agarrar a um nome, como aconteceu com Steve Jobs. Conheço muitos deles e os gurus da tecnologia são parecidos aos grandes mestres tipógrafos.

Nos feitios, na criatividade?

Para alguém se dedicar a algo que é tão diferente daquilo que existe, é preciso ter uma carapaça forte e ligar pouco ao que os outros pensam. É preciso suportar muitas críticas, trabalhar durante muito tempo, persistir. Steve Jobs era assim. Por isso não é difícil de aceitar que Gutenberg fosse como parecem mostrar os processos em tribunal: um homem difícil, muito ardiloso a defender o que lhe interessava e com uma língua afiada que lhe trazia vários confrontos.

É tipógrafa e escreve em publicações online – o artesanal e o digital convivem pacificamente?

Penso muito nisso. Porque será que existe esta necessidade de escolher? Todos usamos aparelhos tecnológicos, smartphones e tablets, mas gostamos de livros. Acho que o discurso de Silicon Valley é que é muito evangélico, o que não é digital tem de ir para o lixo ou acabar. Aquilo que me atrai na Idade Média, além de arrastar os meus filhos para ver igrejas, é o lado tátil. A maioria das pessoas gosta disso, de mobília bem feita, do que é artesanal. É uma moda. Já ninguém tem a mesma paciência para os produtos feitos em massa e que não prestam. Há cada vez mais gente nova a querer aprender a fazer livros manualmente, adoro isso.

Acha que vamos começar a ter mais mulheres tipógrafas?

É verdade que é uma actividade com mais homens. Segui este caminho porque fui a única neta a mostrar interesse e o meu avô puxou-me. Talvez porque não sou muito artística, não sei desenhar, e a tipografia permitia-me criar coisas bonitas, já para não falar da relação com as palavras. Acho que sempre fui escritora. Mas agora a tipografia deixou de ser um processo industrial e agora é mais uma arte manual. Isso está mesmo a voltar, as pessoas andam a fazer papel, roupa, carpintaria…

E no entanto aqui estamos numa entrevista para um site.

É irónico, não é? Já me perguntaram se seria pecado ler este livro em formato digital. Eu não me importo, há lugar para tudo. Mas este é um livro sobre livros, sobre o primeiro livro, é suposto que seja bonito e pelo menos eu sou do tipo de leitor que também aprecia o objeto.

O Aprendiz de Gutenberg, Saída de Emergência, €15,98.
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