Barbara Minetto: “Quando as empresas que precisam de um gestor polivalente penso que uma mãe seria a melhor escolha”

Lisboa, 17/03/2016 - Barbara Minetto é a diretora de marketing da firma de design italiana Magis.
(Paulo Alexandrino / Global Imagens)

Barbara Minetto está no Salão do Móvel de Milão por estes dias, a apresentar as novidades da Magis, uma das empresas mais inovadoras no que toca ao design italiano. Aos 45 anos é a responsável pelo Marketing e Comunicação da empresa que, apesar de continuar com uma estrutura familiar, tem pontos de venda e representantes pelo mundo inteiro. É por causa deles que viaja grande parte do ano. E foi numa dessas viagens que a encontrámos e conversámos. Tinha vindo a Lisboa, justamente para desenvolver mais o mercado luso. Aproveitámos a deixa e falámos com ela de tudo – arquitetura e design, maternidade e poder, família e trabalho.

Por que razão está em Portugal? Está sempre em viagem?
A semana passada estive em Xangai, na China. A China está a mudar muito em por isso sim, estou sempre em viagem. No passado tínhamos muitos problemas com as cópias mas agora o mercado chinês começa a perceber a importância dos originais. Creio que em alguns anos o mercado será completamente diferente.

Como é que se explica o valor de uma peça original por oposição ao da cópia?
É uma questão cultural. Falamos muito. Mas primeiro é preciso ajudar as pessoas a aprenderem sobre design. O que é importante, em primeiro lugar, é assinalar que o design nasceu em Itália. Portanto, quando se é italiano é mais fácil entender a importância desse passado em cada peça, do que quando se nasceu noutros países. Creio que as gerações mais novas, com uma boa educação, e muito focadas na qualidade, e com ambição terão um papel importante na mudança de mentalidades.

E em Portugal o mercado da contrafação é significativo? Como se explica por que razão se deve ter uma cadeira com desenho Bouroullec original e não uma cópia?
Não é fácil. Como não é em nenhum lugar. Normalmente marcamos as nossas peças com a expressão Made in Italy e claro com o logótipo da Magis. O processo é longo e tem de ser forte. É preciso mostrar que se investe muito. É preciso mostrar o que se fez no passado, como o processo de fabrico agora e o que pretendemos fazer no futuro. O design é um processo demorado, desde a ideia até o produto sair para a rua. É muito trabalho, para pensar um projeto, discussões com os designers e engenheiros, investimentos nos moldes em que fazemos as peças.

Qual é a diferença entre nos sentarmos numa cadeira de design original e numa cadeira?
Uma cadeira é uma cadeira, na verdade nem precisamos de cadeiras, podemos sentar-nos em pedras. Se pensarmos, não precisamos de cadeiras. Nós na Magis produzimos cadeiras desde o princípio e a ideia é sempre produzirmos cadeiras diferentes das outras. O que nós fazemos, na verdade, é uma escultura para utilizar todos os dias.

O bom design faz diferença no dia a dia das pessoas?
O que é importante é o ambiente. Hoje estamos aqui no Apartamento num espaço bonito, a luz é excelente, e sentimo-nos bem. O que é que é importante para a vida de todos os dias? Não é significativo se vivemos num castelo ou num apartamento pequeno. A dimensão não é importante, o importante é a sensação que o espaço nos dá. Não é preciso comprar 20 cadeiras. Mas se comprarmos duas cheias de qualidade faz toda a diferença. Poucas peças mas boas peças fazem toda a diferença num espaço. A ideia, no fim do dia, é que nos sintamos melhor. Trabalhar num escritório bonito faz-nos sentir melhor. Nem sequer precisamos de comprar peças demasiado caras. Não é um problema de dinheiro, é uma questão de escolhermos as peças certas para cada espaço.

Em Portugal temos um problema de má arquitetura mesmo para as famílias de classe média. A decoração consegue colmatar as falhas de uma arquitetura menos feliz?
Sim, sem dúvida. É verdade que temos, e não só em Portugal, um problema de má construção que acaba por ser um problema social. Mas se tivermos a possibilidade de mudar alguma coisa, pintar uma parede ou escolher poucas mas boas peças, o ambiente melhora. E a decoração de um espaço é como uma viagem, podemos começar num lado e acabar no outro. Ou como um curso, a decoração e o design servem para melhorarmos a nossa condição.

Lisboa, 17/03/2016 - Barbara Minetto é a diretora de marketing da firma de design italiana Magis. (Paulo Alexandrino / Global Imagens)
Barbara Minetto da empresa italiana Magis. (Paulo Alexandrino / Global Imagens)

A Magis pode mobilar um apartamento inteiro?
Sim. Nós mostramos o nosso mobiliário no Apartamento, em Lisboa, e podemos ver como todos as peças se podem utilizar, como se podem combinar e sem termos demasiadas preocupações sobre se uma peça é só para a sala, só para a cozinha. Não, como vemos aqui podemos colocá-las em diferentes situações.

A Magis é uma empresa que trabalha sobretudo o plástico em molde. Mas recentemente a pedra e o ferro entraram para a lista de matérias que usam na produção de mobiliário. Porquê?
A Magis é uma empresa industrial, e trabalhávamos sempre com moldes pela necessidade de produzirmos em grandes quantidades. O ferro tem uma forma de trabalho mais próxima do artesanal. Mas quando tivemos esta ideia de trabalhar o ferro, pensámos que os irmãos Bouroullec tinham as características certas para fazer um belíssimo trabalho com este material. No final, conseguimos fazer uma coleção muito boa. É uma coleção que é como um passpartout. Podemos usar estas peças num restaurante, num ambiente muito bom, numa casa grande, mas também num apartamento pequeno porque é muito simples. Este ano, no Saloni del Mobile, em Milão, vamos apresentar alguns acessórios, como candelabros, uma escultura e vamos fazer uma ótima feira com esta coleção.

A Magis trabalha sempre desta forma, convidando os designers para um projeto?
Sim. 100% das vezes temos a ideia e tentamos descobrir o material certo e às vezes descobrimos a tecnologia. Ou temos apenas a ideia para produzir uma coisa específica. Normalmente, temos uma relação já longa com os designers e sugerimos os materiais ou a tecnologia ou as ideias e discutimos. Discutimos muito, temos alguns designers estratégicos. Tentamos encontrar o designer certo para cada ideia. A Magis é eclética, trabalhamos tanto com os Bouroullec que são muito simples e, ao mesmo tempo, trabalhamos com Marc Newson, Philippe Starck que são mais inventivos, na aparência dos projetos.

Portugal é importante para a Magis?
É um mercado marginal, mas importante porque temos crescido muito nos últimos tempos. E é uma boa forma de vermos como funciona um mercado relativamente novo, isto é, com uma dinâmica nova.

A Magis é uma empresa internacionalmente conhecida mas mantém uma estrutura familiar.
Sim, trabalho com o meu sogro que fundou a Magis e com o meu marido.

Essa situação tem prós e contras?
Não, só tem prós. Eu tenho uma família ótima. Quando os meus filhos tinham, talvez, duas semanas, eu comecei a deixá-los com a minha mãe. A avó trata dos meus filhos de uma forma fantástica, provavelmente de uma forma muito melhor do que eu, mas temos as regras iguais em todas as casas. Na casa da minha sogra também. Nunca tive baby sitter, tenho muita sorte de contar com a família. E o sistema nunca muda, independentemente da casa onde estão, iam sempre deitar-se às 20h30, por exemplo. Isto é muito importante. Agora, eu não gostaria de ficar em casa, sendo apenas mãe. Ficaria deprimida. Nunca deixei os meus filhos com alguém em quem eu não confio inteiramente, mas esta situação para mim é excelente. Tenho dois filhos que adoro, mas pude sempre fazer a minha profissional. Eu passo muito tempo com eles durante o fim de semana, sobretudo, e acho que eles também são felizes e equilibrados. E são felizes porque veem a mãe feliz.

A maternidade deu-lhe mais capacidades em termos de organização, gestão do tempo?
Sem dúvida. Quando vejo anúncios de empresas que precisam de um gestor polivalente penso imediatamente que uma mãe seria a melhor escolha. Uma mãe tem que fazer imensas coisas, mesmo quando tem ajuda em casa. É um excelente treino.

Que conselho daria a uma jovem mulher que esteja agora a começar a vida profissional?
Que seja independente. Que estude, que seja independente, para fazer o que entender. E posso dar um aviso para que saiba que não é fácil. Ainda não é fácil para uma mulher ser líder e ser independente. Eu tenho uma filha e ela é ótima, inteligente, muito interessada, estudou muito. Mas ela tem sorte porque vem da nossa família, nem todas as famílias apoiam os projetos dos filhos independentemente do género. A casa de partida não é a mesma para toda a gente. É importante nunca esquecer o ponto em que começámos.

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