Bolota: da má memória ao brilhante futuro

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Em tempos de guerra e carestia a bolota substituía na alimentação o cereal que escasseava. Em tempos de bonança dava-se ao gado. Hoje em dia, mais que novidade resgatada do passado, a bolota é uma bomba de saúde.

Quando Alfredo Sendim, proprietário da Herdade do Freixo do Meio, em 1995 tomou consciência da quantidade de quercus que o seu montado tinha, e do eventual desperdício de alimento potencial que ficava no chão, resolveu dar-lhes bom uso:

“A bolota é um dos alimentos mais equilibrados para o ser humano que a natureza nos oferece”, diz-nos. “Já foi o nosso principal alimento, há seis séculos. Sendo extremamente equilibrada e promotora de saúde, a bolota de qualquer Quercus [carvalhos, sobreiros, azinheiras, freixos] tem um equilíbrio extraordinário entre proteína, hidratos de carbono e gordura. Esta ultima é idêntica ao azeite. Os seus hidratos de carbono não têm glúten e são de cadeia longa, o que promove um bom índice glicémico. É fortemente antioxidante, prébiotica e anti-inflamatória, através do ácido cloragénico.”


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A Herdade do Freixo do Meio pediu a participação do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto para ser estudado o efeito deste ácido, abundante na bolota, sobre as doenças neurológicas degenerativas. O ácido cloragénico tem um enorme efeito no combate aos radicais livres, o que torna a bolota, no mínimo, interessante do ponto de vista clínico e com potencial para futura aplicação em doenças como o Alzheimer.

Estas e outras conclusões foram apresentadas ao público no “Symposium: A Bolota, o futuro de um alimento com passado” que a Herdade efetuou em março passado. O objetivo deste foi divulgar o conhecimento e as práticas atuais em torno da valorização deste recurso essencial, pelo que foram apresentados resultados de uma investigação aplicada sobre as características nutricionais e funcionais da bolota, o potencial económico da fileira, os aspetos tecnológicos, bem como os aspetos histórico-sociológicos.

A bolota substitui diretamente a farinha de cereais, a batata e a amêndoa, por exemplo. Diz-nos o engenheiro Alfredo Sendim que neste symposium “foram saboreados pão, bolos, bolachas, pastéis de nata, bombons, filhoses, doçaria regional, sopa, croquetes, hambúrgueres, enchidos, pratos confecionados, café, licor, aguardente, cerveja, Gin, gelado, iogurte, …” todos realizados com a bolota como base de trabalho.

Perante tão longa lista de predicados perguntámos ao engenheiro que razões haveria para que a bolota não fosse já um produto de uso comum. Respondeu-nos, diplomaticamente “erro humano, desconhecimento”. As razões na realidade podem ser mais profundas: erro humano e desconhecimento serão certamente as razões que podemos apontar a uma geração mais jovem. Para todas as outras, será certamente a memória de tempos difíceis, quando a bolota era o último recurso. Jennifer Paterson, a morena das Two Fat Ladies, aponta a mesma razão para o facto de muitos ingleses de mais idade não gostarem de coelho. Quando se comia determinada coisa em tempos de pobreza, quando melhoramos a condição de vida a primeira coisa que fazemos é deixar de comer essa mesma coisa que nos traz lembranças da fome.

Alfredo Sendim defende mesmo a o uso da bolota como motor económico para a região, uma vez que “tem um potencial superior ao da cortiça”.

Se não estiver nos seus planos dar por agora um salto ao Alentejo, pode conhecer os derivados de bolota do Freixo do Meio, e toda a sua restante oferta biológica, na loja da Herdade no Mercado da Ribeira, em Lisboa.

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