Brigitte Macron: porque é que a idade é uma pergunta?

Se Brigitte Trogneux Macron fosse da mesma idade ou mais nova que o recém-eleito presidente francês, também se questionava a sua preparação para o papel de primeira-dama?

Ela tem 63 anos e ele 39. Uma diferença etária de 24 anos que levou humoristas a tentar criar uma graça, pouco conseguida, juntando as palavras Barbie e menopausa. Também levou jornalistas e analistas, sobretudo de fora do território francês, a perguntarem-se se ela estaria preparada para o papel.

Ainda que a situação seja nova para França e até para o mundo, o contrário parece nunca ter suscitado preocupações da mesma natureza.

François Hollande, o ainda presidente francês tem 62 anos. A sua atual companheira, Isabel Gayet, tem 44, o que perfaz uma diferença de 18 anos. Ele ainda está no Eliseu e não foram colocadas reservas à missão da sua companheira. Recuando, Nicholas Sarkozy e Carla Bruni também gozavam de uma diferença etária considerável, mais curta é certo, de 13 anos. Ele com 62 e ela com 49.

As diferenças de idade entre presidentes e primeiras-damas francesas há muito que são amplas, mas nunca foram tão discutidas como agora

Contudo, se atravessarmos o Atlântico e olharmos para a presidência norte-americana, vemos um casal presidencial com uma diferença etária semelhante à de Macron e Brigitte, mas, como Melania é mais nova que o marido, as perguntas que se colocaram foram diferentes. É que se Donald Trump tem 70 anos e Melania tem 47, os 23 que os distanciam não geraram o mesmo tipo de inquietações.

Quais as razões para esta diferença de tratamento?

Raquel Vaz Pinto fala em “dois pesos e duas medidas”. Para a politóloga, “toda esta conversa da idade da futura primeira-dama francesa é, de facto, um sinal de como ainda falta muito em matéria de igualdade entre homens e mulheres. Se ela fosse mais nova do que ele, creio que a questão da idade não se colocava. Não se colocou em relação a Sarkozy e nem mesmo a Hollande, quando assistimos àqueles relatos de aventuras extraconjugais, a ir de vespa ter com a amante”.

Opinião distinta tem Miguel Guedes, antigo porta-voz da embaixada em França, entre 2004 e 2011, e atualmente responsável pela empresa GMT Consulting. “O que me parece é que no essencial tem a ver com a novidade. Quando é o contrário, tal não se tem falado da mesma forma. O que chama a atenção é o facto de ser uma coisa menos frequente, e tratando-se de algo bastante explorado pelos adversários”.

Miguel Guedes, a residir entre Lisboa e Paris, descarta, por isso, a questão do preconceito, sustentado, não só a questão da “curiosidade”, mas também acreditando que “daqui a um mês isso já não será assunto”.

Uma polémica que indicia ou “dois pesos e duas medidas” ou uma “curiosidade” que passará ao fim de um mês

O consultor recorda até que “se o eleitorado estivesse muito perturbado com as insinuações, a verdade é que, mais uma vez, os franceses mostraram que esse lado pessoal das figuras políticas lhes interessa muito pouco”. Algo que considera “louvável e um exemplo muito interessante para outros países, sobretudo para os anglo-saxónicos”, cuja imprensa tem prática distinta.

A politóloga recorda que, para lá da questão da idade da primeira-dama, a pergunta coloca-se sobretudo a Emmanuel Macron: 39 anos e, desde domingo, 7 de maio, o mais jovem presidente da República Francesa.

“Justamente por ela ser mais velha do que o próximo presidente, também traz consigo uma experiência, uma maior aprendizagem da vida que também pode ser útil a um governante tão novo. Porque, recorde-se, uma das questões que é muito levantada é a falta de experiência política por via da sua idade, 39 anos”.

Nos EUA, a idade de Hillary Clinton gerou mais falatório do que a de Trump. E ela é um ano mais nova

“É um não-assunto do ponto de vista concreto, mas é um assunto porque há dois pesos e duas medidas”. Contudo, como afirma a politóloga, “se fosse ao contrário, ninguém colocaria essa questão.”

Quanto à comparação com os Estados Unidos da América, mais do que falar de Melania e Donald Trump, Helena Vaz Pinto lembra o que se passou com a candidata democrata. “Durante a campanha presidencial, a idade de Hillary Clinton, sendo apenas um ano mais nova do que Trump, era um assunto para ela, mas nunca foi para ele”.

Que novo papel de primeira-dama defende Macron?

Desde o tempo da campanha para as presidenciais que o líder do movimento centrista e independente En Marche! defende a definição de um novo papel para o lugar de primeira-dama. De acordo com o jornal Libération, o novo presidente quer pôr fim “a uma forma de hipocrisia”.

Na verdade, Macron pretende estabelecer “o estatuto de primeira-dama ou primeiro cavalheiro”, sonha “definir as especificações do cargo” e veio defender que “seja constituído um trabalho nesta matéria”. Isto porque, sustentou, “é preciso que a pessoa que viva connosco possa ter um papel e seja reconhecido pelo mesmo”.

Cabe a Brigitte Macron escolher o que pretende para a gestão do seu lugar. “A ter um papel oficial, tudo vai depender de como ela olha para ele. Ela terá sempre o papel que teve ao estar sempre ao meu lado. Ela acompanhou-me sempre porque é o meu equilíbrio de vida, é assim que funcionamos. Ela nunca foi remunerada pela República e não será”, garantiu Macron, então candidato, numa entrevista ao canal RTL, que teve lugar em março.

[Fotografia: Pool New/Reuters]

E acrescentou posteriormente: “ela terá uma existência, uma voz e um olhar”.

A imprensa tem já dado conta que o caminho de Brigitte poderá ser trilhado na pasta da Educação, uma familiaridade reconhecida uma vez que ela foi professora. É possível, avançam os especialistas na matéria, que a nova primeira-dama venha a dedicar-se aos temas dos alunos com necessidades especiais, em particular aos autistas.

Atualmente, contextualiza o Libération, não há nenhum texto oficial que mencione o cônjuge do Chefe de Estado, ainda que todas as primeiras-damas tenham tido direito de um secretariado, de um gabinete e segurança próprios.

Quem é Brigitte?

Reconhecida pelo seu bom gosto e sempre ao lado do marido, Brigitte Trogneux é oriunda de uma família de chocolateiros – atualmente especialistas em macaroons – abandonou a sua carreira de professora quando Macron assumiu a pasta de ministro da Economia, no executivo socialista de Manuel Valls (nomeado por François Hollande).

O romance começou quando Emmanuel, aos 17 anos, ainda estudava no liceu jesuíta de Amiens e se cruza com a professora de teatro e drama. Casar-se-iam anos depois, e após o divórcio de Brigitte, que já era mãe de três filhos: Sébastien (1975), Laurence (1977) e Tiphaine (1984). Atualmente, a ex-professora tem sete netos.

Divorciou-se do primeiro marido, André Louis Auzière, em janeiro de 2006 e, ano e meio depois, formalizava oficialmente a relação com Macron. E se a diferença de idades é grande e leva a tanto questionamento, ninguém o lamenta mais do que a própria Brigitte. Mas por outras razões.

Um romance que vem desde os tempos de liceu: Macron como aluno, Brigitte como professora

No livro Emmanuel Macron a caminho do Eliseu, da autoria de Nicolas Prissette, era citada uma ironia que a própria companheira de Macron fazia sobre a eleição: “Ele deve chegar lá em 2017 porque em 2022 o seu problema será o que eu direi”.

Com isto, a ex-professora fazia contas e lembrava que, em 2022, já com 68 anos, poderia configurar um problema ou uma desvantagem para o marido, uma vez a desempenhar funções presidenciais.

Imagem de destaque: Christian Hartmann/Reuters

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