Bruxelas: “Há um silêncio na rua cortado pelos som dos helicópteros”

Bruxelas: "Há um silêncio na rua cortado pelos som dos helicópteros" (REUTERS)

As ruas de Bruxelas estão sem gente, mas policiadas. O céu da cidade está a ser sobrevoado por helicópteros. E é este o som predominante. Nos canais belgas ouvem-se as recomendações à população depois de a cidade ter acordado ao som de três explosões – no aeroporto e no metro, que serve, em grande parte, as instituições europeias -, na manhã desta terça-feira, 22 de março. É com estas pinceladas gerais que Cláudia Oliveira, de 43 anos, descreve o estado da capital belga depois deste novo ataque.

A assessora de imprensa da delegação do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu, e que vive em Bruxelas desde outubro de 2009, ainda não tinha saído de casa quando, entre notícias e chamadas perdidas, tomou conhecimento da primeira explosão, deflagrada pelas 8h00 da manhã (7h00 em Lisboa), na zona do ‘check-in’ para um voo para os Estados Unidos da América, no aeroporto de Zaventem. “A primeira coisa que faço de manhã é ver as as notícias. E, hoje, entre esse momento, apercebi-me que tinha inúmeras chamadas perdidas. Tinha chamadas da Marisa Matias [eurodeputada do BE] a avisar-me das explosões do aeroporto”, explica Cláudia.

Os primeiros momentos serviram para perceber se todos estavam bem. Numa manhã em que as comunicações também começaram a falhar, dada a sobrecarga de redes, era importante “telefonar à família a dizer que estava bem”, apesar dos acontecimentos. “Nos primeiros momentos fiquei um pouco atónita, a tentar perceber o que tinha sido tudo isto. A seguir foi tentar acompanhar as notícias, as redes sociais e todas as fontes de informação disponíveis”. Por essa altura, chegavam ecos de uma nova explosão, na estação de metro de Maelbeek, “que é mesmo ao lado do Parlamento Europeu, é a estação que serve algumas das direções gerais”, explica Cláudia.

“Quando consegui sair de casa, entre chamadas, mensagens, as ruas já estavam sem pessoas. Havia apenas os carros do exército, as ambulâncias e, agora, temos a cidade a ser sobrevoada por helicópteros”, conta Cláudia Oliveira, assessora do BE no Parlamento Europeu

Por viver a cerca de 10 minutos a pé do Parlamento Europeu, local onde trabalha, Cláudia não costuma andar de metro. E hoje de manhã, apesar dos acontecimentos, saiu de casa a pé e juntou-se à equipa que trabalha com Marisa Matias, na casa da eurodeputada. Um percurso não muito longo e que lhe permitiu ver que, “nos primeiros momentos, havia gente a passar na rua, muito depressa, um pouco em pânico. Sempre agarrados aos telefones. Quando consegui sair de casa, entre chamadas, mensagens, as ruas já estavam sem pessoas. Havia apenas os carros do exército, as ambulâncias e, agora, temos a cidade a ser sobrevoada por helicópteros”, conta Cláudia. Não viu feridos, nem sequer passou pela zona do metro que foi atingida. “Os feridos estão a ser levados para um hotel e não passei por eles. Sei apenas que há uma portuguesa ferida, mas não sei quem é”. Mas nas agências e canais informativos internacionais sobram relatos de pessoas que retratam o estado de caos e de feridos.

No ar, conta a assessora, “há uma consternação geral em relação ao que está a acontecer. Há algum pânico, aliás é esse o objetivo do terror. A Bélgica é um estado securitário, já o era antes, e desde o atentado ao Charlie Hebdo [janeiro de 2015] que há tropas armadas nas ruas e esta realidade reveste-se já de alguma normalidade”, explica Cláudia. Ainda assim, o relato do crescendo de segurança musculada tem sido visível.

“Houve um espetáculo que conduziu a esta resposta”
E agora, como estavam os ânimos da cidade depois de ter sido capturado, na sexta-feira, Salah Abdeslam, o principal suspeito dos atentados em Paris? “Acho que há um bocadinho de tudo e houve quem reagisse com alguma preocupação ao que aconteceu e houve quem achasse que os belgas se tinham comportado como heróis, como que derrotando o inimigo e creio que foi um pouco esse espetáculo que conduziu a esta resposta”, antecipa Cláudia, que vinca que “está mais do que provado que não é deste modo que se combate o terrorismo. Houve um aumento da segurança musculada e isso não teve nenhum efeito prático no combate ao problema”.

“Houve quem reagisse [à detenção do principal suspeito dos atentados de novembro em Paris, Salah Abdeslam] com alguma preocupação ao que aconteceu e houve quem achasse que os belgas se tinham comportado como heróis, como que derrotando o inimigo e creio que foi um pouco esse espetáculo que conduziu a esta resposta”, considera Cláudia Oliveira

Nos canais belgas há – conta a assessora – “alguma análise sobre quem culpar, há o ódio contra o Islão e ouvem-se pedidos e recomendações”. ” Nos campos universitários estão a pedir que as pessoas não compareçam nas aulas, pedem aos pais para não irem buscar as criança à escola, estão a pedir sangue 0-, o dador universal, as lojas estão fechadas e para quem não tiver comida em casa será problemático, os transportes públicos estão suspensos”, elenca. Isto já para não falar no espaço aéreo, que está fechado desde manhã.

“Tudo o que eram sessões, eventos que são organizados pelos deputados, conferências, debates, exposições no Parlamento Europeu, tudo isso foi cancelado. Amanhã, estará fechado”, antecipa a assessora.

Até ao momento foram registadas 26 vítimas e 160 feridos, dos quais 10 em estado muito grave. As primeiras explosões detonaram às 8h00 locais (7h00 em Lisboa). As restantes aconteceram no metro, no eixo situado no quarteirão onde estão situadas as instituições europeias, tendo provocado efeitos ao longo de três estações.

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