Carolina: “O Diogo Clemente tocou-me na ferida em muitas coisas”

Carolina

Filha de transmontanos imigrados na Alemanha, foi em Hamburgo que Carolina nasceu, a 12 de abril de 1984. Quando tinha apenas cinco meses os pais regressaram a Portugal e já não voltaram a sair.

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A fadista cresceu a ouvir o pai a cantarolar fado pela casa o tempo todo e acabou por se apaixonar por este estilo de música. Em 2014 foi a primeira fadista contratada pela Sony. Três anos depois lança o segundo álbum, a que deu o nome de EnCantado.

O trabalho foi produzido por Diogo Clemente, noivo de Carolina Deslandes que, por sua vez, é autora do primeiro single do CD, Falar de Amor. O facto de serem amigos e se conhecerem há vários anos ajudou-os a criarem um álbum “tão pessoal”.

A Carolina lançou o primeiro álbum em 2014. O que há de mais diferente entre esse primeiro álbum e este EnCantado?

Este é mais pessoal do que o primeiro, é intimo, bastante forte e muito mais maduro que o primeiro.

Ouvimos falar muito de amor neste CD. Faz questão de passar essa mensagem num momento em que vivemos num mundo com cada vez mais ódio e medo?

Sim, principalmente no último tema, que é o ‘Segue o Teu Destino’. Fala sobre o amor próprio, esquecer as coisas alheias e olharmos para dentro de nós. A resposta às nossas perguntas e àquilo que nos atormenta está para além dos deuses. Essencialmente é um disco que fala de desamor.

O fado é muitas vezes associado ao desamor de forma triste e a Carolina nem sempre lhe dá uma perspetiva triste.

Principalmente no single Falar de Amor. É um reconhecimento desse amor não correspondido apesar de ser quase perfeito. A letra diz-nos que é possível não guardar rancor e esperar que o outro sorria da mesma forma e seja feliz. É essa mensagem que quero passar.

Este álbum foi produzido pelo Diogo Clemente. O que trouxe ele para este EnCantado?

Conheço o Diogo há bastante tempo, tocava comigo no Clube de Fado e conhece-me muito bem não só a cantar mas também a nível de vida pessoal. É por isso que este álbum é tão pessoal e soa a verdade. O Diogo Clemente tocou-me na ferida em muitas coisas e soube bem criar o clima perfeito para que este disco fosse tão EnCantado para mim, pelo menos.

Carolina e Diogo Clemente
Diogo Clemente e Carolina. Fotografia retirada do Facebook de Carolina

Por que razão escolheram a música Falar de Amor para primeiro single?

Quem escreveu a letra foi a Carolina Deslandes. Quando ela me mostrou a música ainda não havia nenhuma ligada à criação do disco. Estava no Clube de Fado a cantar, a Carolina chegou lá com ela. Só alguém que me conhece bem e ao estado emocional em que me sentia saberia que esta música era perfeita para mim. Ela viu-me e disse: “Carolina, fiz uma música que te encaixa como uma luva, é a tua cara.” Não descansei enquanto ela não me mostrou a música, quando ouvi fiquei mesmo muito emocionada e disse-lhe que aquela música era minha e ia ser o single do meu disco.

O videoclip desta música está disponível no YouTube desde abril. Qual ter sido o feedback do público?

As pessoas falam do videoclip como algo leve, com transparência e ternura apesar de a letra ser um pouco negativa dentro do positivismo que tem. O vídeo torna a música ainda mais bonita, aconchega-a. Idealizei-o e o Daniel Gorjão, que também entra no vídeo, também me ajudou em algumas escolhas. A rosa branca tem um propósito, foi tudo pensado ao pormenor e como eu desejava.

De todos os fados deste álbum, qual é o mais especial?

Não consigo escolher, é muito difícil. Há dias em que gosto mais de uns, noutros gosto mais de outros. Mas gosto muito do Vou Querer Saber de Mim, do Diogo Clemente. Foi a música que mais me custou a cantar em estúdio, começava a chorar e não conseguia gravar mais. Tinha de sair da sala de estúdio e ficava ali bastante emocionada com esta música.

Nasceu na Alemanha. Como surge o fado na sua vida?

Vim para Portugal com cinco meses. Os meus pais sempre cantaram fado em casa e o meu avô tocava concertina. O meu pai cantarolava imenso, foi algo que sempre me habituei a ouvir. Às vezes até me chateava porque estava constantemente a cantar. Eu dizia: “Oh pai, por favor, já chega, para lá um bocadinho.” Ainda hoje, quando lhe telefono ou ele me liga, em vez de perguntar como estou ou se está tudo bem começa a cantar uma música minha ou um fado qualquer que começou a ouvir e gostou. Foi sempre assim esta ligação com o fado.

Então ele deve estar muito orgulhoso deste seu percurso.

Sim, principalmente da música Coração com Coração, que foi ele que me ensinou.

É de Trás-Os-Montes. Foi lá que começou a investir na formação musical?

Só no Porto, fui para lá com 10 anos e comecei a cantar num coro. Cinco anos depois entrei no conservatório e estudei canto durante outros cinco anos. Mas canto não tem nada a ver com fado, é lírico. A certa altura a minha professora de canto dizia-me: “Por favor abre os olhos porque isto não é fado.” Eu cantava de olhos fechados e ela não gostava. Já estava entranhado porque, a par das aulas de canto e da faculdade, ainda conseguia ir cantar uns fadinhos à noite.

Como veio parar a Lisboa?

Surgiu a possibilidade de fazer de Amália no musical do Filipe La Féria, no Porto e quando estava prestes a começar o segundo ano da faculdade, no início de setembro, o Filipe ligou-me a convidar para fazer de Beatriz Costa, no musical Canção de Lisboa, aqui em Lisboa. Isto aconteceu num sábado, cheguei ao pé da minha mãe e disse-lhe: “Segunda-feira vou viver para Lisboa.” Ela aceitou, apesar de ter sido difícil.

Deu vida a Amália e Beatriz Costa. Dois papéis de grande responsabilidade. Como lidou com isto na altura?

Muito bem, no teatro as emoções são diferentes todos os dias, estamos sempre a descobrir. O teatro musical é uma paixão também, principalmente porque tive a possibilidade de cantar fado nos dois.

Carolina
Carolina a dar vida a Amália, no musical de Filipe La Féria

Vê-se a fazer mais musicais no futuro?

Não sei, neste momento estou dedicada a este EnCantado a idealizar os concertos. Orgulho-me imenso deste disco porque todo ele foi muito bem pensado, as músicas foram escolhidas a dedo, amo-o mesmo.

Quer ser conhecida apenas por Carolina, sem qualquer apelido. Por que fez questão de que fosse assim?

O meu nome é Alina Rodrigues e as pessoas nunca percebiam muito bem. Então a minha mãe contou-me que, quando nasci, ela gostava que me chamasse Carolina, mas como havia aquela moda de os bebés terem o mesmo nome das madrinhas, eu fiquei com o mesmo nome da minha madrinha. A minha mãe também tem o nome da madrinha dela. Quando comecei a fazer espetáculos e a cantar em casas de fado, as pessoas vinham perguntar-me o nome e nunca percebiam à primeira. Então escolhi Carolina que a minha mãe queria tanto.

Foi a primeira fadista contratada pela Sony. Na altura, que significado teve este contrato para si?

Foi ótimo, não estava à espera. Havia o desejo de poder editar o disco com uma grande editora, mas quando o Paulo Junqueiro foi ao Clube de Fado e falou comigo fiquei completamente em êxtase, muito feliz. Estou contente por trabalhar com a Sony Music.

Encantado
‘EnCantado’, o segundo álbum de Carolina

Qual é a sua maior referência no fado?

A Amália Rodrigues.

E da atualidade?

Adoro o Camané e o Ricardo Ribeiro. Dentro do fado, gosto bastante das vozes masculinas. Entre as vozes femininas gosto da Ana Moura e da Carminho.

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