Subir

Carruagens de comboio só para mulheres. O que é que disse?

A minha avó nasceu em 1920. Com 13 anos começou a viajar de comboio sozinha ou com a irmã mais nova um ano, numa viagem que durava quase um dia, para ligar Aveiro a Lisboa. A minha bisavó vestiu-se até à morte como o fim do século XIX mandava, de saias compridas, mas a minha avó passava uma hora a pentear-se à garçone.

Pelas histórias que me contou, posso dizer que a minha avó nunca teve medo de viajar de comboio sozinha, nunca se sentiu ameaçada por ser mulher, jovem, ter as saias relativamente curtas. Em 1933 as saias tinham acabado de subir: usavam-se a meio da canela. A minha avó era uma mulher bonita e tinha umas belas pernas.

Depois passámos nós a viajar com ela de comboio, entre Lisboa e Fornos de Algodres. Eram viagens demoradas nos anos 80. Os comboios da Beira Alta ainda traziam, no regresso, mulheres vestidas de preto, galinhas e traziam homens, inclusive magalas na recruta (até Abrantes). Extraordinário. Traziam homens e mulheres misturados em 1980. Traziam homens e mulheres misturados em 1930. E nenhuma de nós se sentiu ameaçada. Nunca.

Estamos agora em 2016 e parece que andámos para trás. A Alemanha é o primeiro país da União Europeia a consentir a criação de um serviço de transporte que discrimina pessoas em função do sexo. Os comboios que percorrem os 80 quilómetros entre Leipzign e Chemnitz, da companhia Mitteldeutsche Regiobahn, passam a contar com uma carruagem de uso exclusivo feminino e rapazes até aos 10 anos.

Há carruagens só para mulheres em vários países da Ásia. No Reino Unido, a última foi retirada de circulação em 1977. Por cá, neste país machista (?), não há memória de segregação sexual em transportes. É isto que estamos a deixar fazer na Alemanha. Como na violência doméstica, é a potencial vítima que tem de se mudar. A prevenção trata de nos mandar afastar um braço de pessoa que não conhecemos ou não estarmos no mesmo espaço com homens. São medidas estúpidas, mais nada.

Os homens são bons na sua maioria. Os homens não são todos tarados prontos para insultar ou violar a primeira mulher que veem. Não podemos aceitar que os tabelem a todos por uma medida tão baixa como a de agressor sexual em potência. Nem a nós como vítimas quase certas.

Podemos apostar na vigilância, no policiamento, nas campanhas de prevenção? Se nos fecham em carruagens de comboio para podermos viajar em segurança, a seguir o que é que nos propõem? Saias até aos pés? Lenços na cabeça? Burka?

Carla Macedo, editora executiva do Delas.pt