Caster Semenya: um desafio à norma do atletismo feminino

2016 Rio Olympics - Athletics - Final - Women's 800m Final - Olympic Stadium - Rio de Janeiro, Brazil - 20/08/2016. First placed Caster Semenya (RSA) of South Africa stands with Lynsey Sharp (GBR) of Britain and Melissa Bishop (CAN) of Canada. REUTERS/David Gray  FOR EDITORIAL USE ONLY. NOT FOR SALE FOR MARKETING OR ADVERTISING CAMPAIGNS.   - RTX2MDIQ

A fotografia acima fica na memória dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que terminaram este fim de semana, como um momento de anti-desportivismo. De um lado, abraçadas, as atletas Melissa Bishop, do Canada, e Lynsey Sharp, do Reino Unido. A tentar cumprimentá-las, do outro, a sul-africana Caster Semenya, a atleta que sofre de hiperandrogenismo feminino, um distúrbio endócrino que provoca um aumento dos níveis de testosterona para um patamar superior aos de uma mulher comum. A condição de Caster foi o rastilho para o debate – uma mulher com hiperandrogenismo deve, ou não, competir nas provas femininas?

Caster Semenya, de 25 anos, despertou atenções em 2009. Nos mundiais de atletismo em Berlim, com apenas 18 anos, a atleta sul-africana arrancou a sua participação na prova de 800 metros femininos e cruzou a meta 1m55,45 segundos depois. O tempo conseguido acabou por ser remetido para segundo plano, em prol da discussão em torno da sua aparência física. “Olhem só para ela”, disse na altura a russa Maria Savinova. “Ela é um homem”, foi mais longe a italiana Elisa Cusma.

As suspeitas de doping acompanharam o inicio da carreira de Caster. Na véspera de se ter tornado campeã do mundo dos 800 metros, a sul africana foi sujeita a uma verificação de género, que também serviu para dissipar as dúvidas de doping, por parte da Federação Desportiva Internacional de Atletismo (cuja sigla em inglês é IAAF). As suspeitas de doping foram afastadas, mas as dúvidas quanto ao seu género permaneceram. Na sequência dos mesmos testes, o governo sul-africano acusou a organização de preconceito em relação à atleta.

Estávamos em 2009 e, nos onze meses seguintes, Caster enfrentou um processo de suspensão das provas oficias. Durante o mesmo período, foi sujeita a uma série de novos testes com o objetivo de esclarecer o seu género sexual e avaliar o seu nível de hiperandrogenismo. Apesar de a informação nunca ter sido confirmada pela IAAF, a imprensa internacional noticiou na altura que a atleta sul-africana tinha os níveis de testosterona três vezes superiores ao valor médio feminino. Os resultados dos exames permanecem confidenciais até à data desta publicação.

Tentando resguardar-se da polémica em que a sua condição física se tornara, Caster Semenya revelou as suas humildes origens através de uma série de entrevistas e reportagens a órgãos de comunicação internacional, nunca deixando de sublinhar que só queria ser “respeitada”.

Dorcas Semenya (C), mother of South Africa's teenage 800 metres world champion Caster Semenya, displays the front page of a local newspaper at Ga-mmasehlong village outside Polokwane in the Northern province,August 21,2009. South Africa's ruling party leapt on Thursday to the defence of the world champion runner undergoing a gender verification test, saying she was the country's "golden girl" and a role model for young athletes. International Association of Athletics Federations (IAAF) General Secretary Pierre Weiss said an investigation into Semenya's gender was under way in South Africa and Berlin. Reuters/Siphiwe Sibeko (SOUTH AFRICA SPORT POLITICS IMAGES OF THE DAY) - RTR26YYB
Dorcas Semenya, mãe de Caster, exibe um jornal local de Polokwane (África do Sul) em que se pode ler – “Prova que não és um rapaz”. Os sul-africanos nunca deixaram de apoiar Caster. (Reuters)

Em 2010, acabou por ser autorizada a competir oficialmente. No entanto, IAAF aprovou em 2011 um regulamento a determinar que “uma mulher com hiperandrogenismo é elegível para competições femininas em atletismo desde que tenha níveis de androgénio inferiores ao patamar masculino”. Segundo a ‘Sports Illustrated’, num artigo sobre Caster Semenya, a média dos valores de testosterona varia entre 0,5 a 3 nmol/L (nano moles por litro) no caso das mulheres e de 10 a 30 nmol/L, no caso dos homens.

Caso os níveis de androgénio se revelassem próximos dos valores masculinos, as atletas eram confrontadas com três alternativas: terapia de supressão hormonal; remoção dos testículos (nos casos intersexuais) – estas duas com o objetivo de reduzir os níveis de testosterona – ou abandono definitivo da competição. Sabe-se que a última hipótese nunca chegou a sê-lo para Caster. Contudo, permanece a dúvida se a atleta foi, ou não, sujeita a algum processo médico para reduzir os efeitos do seu hiperandrogenismo. A dar força às teorias que “sim, foi” está a sua quebra de rendimento entre 2011 e 2015.

O ano que antecedeu os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foi determinante para Caster Semenya ter hoje uma medalha de ouro olímpico dos 800 metros. Na sequência das queixas apresentadas pela atleta indiana, Dutee Chand, também ela com hiperandrogenismo, a IAAF suspendeu o regulamento que estabelecia um limite máximo para os níveis de testosterona no feminino. Caster regressou à sua melhor forma física e voltou a tocar na glória, para revolta de boa parte das suas colegas de prova.

2016 Rio Olympics - Athletics - Final - Women's 800m Final - Olympic Stadium - Rio de Janeiro, Brazil - 20/08/2016. Caster Semenya (RSA) of South Africa celebrates winning the gold medal. REUTERS/Dominic Ebenbichler FOR EDITORIAL USE ONLY. NOT FOR SALE FOR MARKETING OR ADVERTISING CAMPAIGNS. - RTX2MDKN
Caster Samenya é campeã olímpica dos 800 metros, cruzando a meta aos 1m55:28 segundos. (Reuters)

Logo após o final dos 800 metros olímpicos, Lynsey Sharp desabafou à BBC a sua frustração face à presença e vitória de Semenya na prova: “Tentei evitar este assunto o ano todo. Isto está fora do nosso controlo e estamos dependentes da forma como as pessoas lá no topo vão resolver isto. Tudo o que podemos fazer é dar o nosso melhor”.

Já Semenya realçou o seu feito e perante as questões dos jornalistas sobre a polémica com a IAAF respondeu: “Isto é sobre amar-nos uns aos outros. Não tem a ver com discriminar pessoas. Não tem a ver com o aspeto das pessoas, a forma como elas falam, como elas correrem ou se são musculadas. É sobre o desporto. Quando sais do teu apartamento, pensas no teu desempenho, não estás a pensar no aspeto do teu adversário”.

O debate está longe de estar resolvido. Se, por um lado, uma parte significativa das atletas reclama por justiça competitiva, já que nunca conseguirão atingir o mesmo nível de desempenho físico de Caster, por outro, a própria, apela ao respeito e legitimidade de, na sua já comprovava condição feminina, participar nas provas de atletismo para mulheres.

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