Cate Blanchett: “A proximidade dos políticos com os grupos de Media não é questionada”

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Nos meses que antecederam as filmagens de ‘Verdade’, a versão viciante de James Vanderbilt que analisa quase de forma forense e minuto-a-minuto o que aconteceu a uma equipa de jornalistas televisivos quando puseram no ar uma reportagem controversa sobre o Presidente Bush, Cate Blachett passou algum tempo com Mary Mapes, a antiga produtora de televisão que a atriz interpreta no ecrã.

‘Verdade’, que estreia em Portugal a 7 de abril, examina como o que era uma reportagem importante e legítima, que questionava a folha de serviço militar de um Presidente, foi enterrada sob uma avalancha de acusações e dedos apontados que acabou por se tornar numa história muito maior sobre os próprios jornalistas e os seus métodos. Falámos com Cate Blanchett sobre a sua interpretação mas também, claro, sobre as questões que se colocam aos jornalistas e aos atores de hoje.

Pode dar-nos o contexto do filme?

Bem, na corrida para a segunda eleição de George Bush Jr. para a Casa Branca havia um ponto de interrogação sobre o serviço militar que tinha prestado e a Mary, que vivia e trabalhava no Texas, seguiu a pista e fez um artigo que foi para o ar no programa ’60 minutos’. Foi rapidamente para o ar e o filme segue a forma como a peça foi feita e as consequências na relação de Mary e Dan com o grupo de televisão CBS.
É uma história sobre Bush ou sobre o processo de construção de uma reportagem e o que aconteceu quando ela foi para o ar?
É uma adaptação livre do livro de memórias de Mary Mapes. Da mesma forma que ‘Os homens do Presidente’ não era sobre Nixon, ‘Verdade’ não é sobre George Bush. É muito mais sobre a interseção entre a América corporativa, o sistema político e os Media.
E é também sobre o processo de construção de uma reportagem a partir das pistas e creio que a única razão para voltar atrás no tempo, por mais recente que o ano de 2004 possa parecer, é se o assunto tem relevância ou interesse hoje e eu creio que ainda há muitas questões acerca da forma como recebemos as notícias que ainda não foram realmente feitas. Creio que ainda não processámos na realidade a diferença entre factos e opiniões, portanto, parece-me um filme bastante relevante, pertinente.

Conte-nos mais sobre Mary Mapes. Encontrou-se com ela muitas vezes. Como foi o processo de trabalho e o que é que esses encontros representaram para si?
Bem, o filme não é uma biografia da Mary Mapes ou do Dan Rather mas fiquei muito contente porque a Mary se quis encontrar comigo algumas vezes em Nova Iorque e depois disso fizemos muitas chamadas via Skype. Mas não é uma bio e o guião é rápido como um comboio por causa da velocidade da história real: a peça foi para o ar rapidamente e depois o seguimento subsequente foi só tentar iludir as balas de uma metralhadora. Passaram-se todas as fronteiras porque obviamente na corrida para a segunda eleição de Bush esta história era muito controversa, porque se o que se dizia fosse verdade, que ele tinha fugido ao serviço militar e ido para a Força Aérea do Texas, isso quereria dizer que Bush tinha que ir para a prisão militar. E quando se tem um cadastro criminal não se pode ser Presidente dos Estados Unidos. Portanto, claramente, eu tinha muitas questões para fazer a Mary – algumas tolas, inconsequentes também. [Risos]

Tais como?

Como ‘o que traz na sua carteira? É organizada ou desorganizada?’ Mas também tinha questões sobre a forma como se constrói uma reportagem. Seguramente, na América o programa ’60 Minutos’ era visto como um estandarte do jornalismo de investigação em televisão portanto a fasquia era muito elevada e eu queria saber a versão da Mary sobre como era trabalhar numa organização assim, particularmente, porque ela era uma verdadeira outsider – ela vivia e trabalhava no Texas e não na Costa Leste onde o ’60 Minutos’ tinha a sua redação. Mas como há tantos políticos americanos que vêm do Texas era muito interessante falar com ela sobre a interseção entre o Texas e a política americana.cate blanchett 3

Robert Redford interpreta Dan Rather e o Dan e a Mary tiveram uma relação profissional muito interessante. Como foi trabalhar com Robert e como é o retrato que ele faz de Dan Rather?

Eu tenho uma grande admiração pelo Mr Redford e não sabia como tratá-lo – Bob, Robert? Mas ele disse-me ‘chama-me Bob’ e foi o que fiz. E ele teve um impacto tão grande na cultura cinematográfica internacional, também, mas especificamente na americana. É muito empenhado e curioso e tão desarmante pela sua capacidade de interpretar naturalmente as personagens. Nós passávamos sem interrupções de uma cena para a outra e não era possível dar pela diferença entre uma conversa ou as falas do guião, porque ele faz tudo sem esforço, sem se notar. E foi ótimo e maravilhoso que ele estivesse preparado para dar uma espécie de cunho pessoal iconográfico ao papel. Porque na cultura das notícias americana, Dan Rather está ao mesmo nível que Walter Cronkite, é um ícone e acaba por representar a integridade que as pessoas procuram no jornalismo. Ele é um grande ícone e não consigo imaginar ninguém, além do Bob, a fazer esta personagem.

Quando interpreta uma personagem baseada numa pessoa real sente maior responsabilidade?
Este filme não é uma biografia e mesmo quando se interpreta uma personagem viva como protagonista central de um filme, continuamos dentro do filme. A vida dessa pessoa não vai ser totalmente contada porque só temos uma quantidade reduzida de tempo e há sempre coisas que são omitidas. Mas sim, quando temos a pessoa que vamos interpretar à nossa frente, é verdade que sentimos um enorme peso da responsabilidade para a representarmos de uma forma tridimensional. Toda a gente tem falhas e a Mary será a primeira pessoa a dizer isso sobre ela própria. Eu tenho falhas. Temos todos. Portanto o meu trabalho é tentar encontrar o que faz as pessoas únicas e tentar colocar isso no comboio expresso que é este filme. Aquilo que me fez querer entrar neste filme foi tentar saber quem era a Mary, quem era a Mary naquela altura particular, mas porque o filme era um comboio em andamento. De certa forma a personagem foi a última estação de entrada para mim. Mas eu li as memórias de Mary e pesquisei sobre ela na Internet, como agora se faz, vi bastantes entrevistas com ela, quando ela estava numa espécie de fechamento emocional logo a seguir ao escândalo. E depois conheci-a. E eu não estava a acreditar nesta mulher fortíssima, nesta massa de energia. Ela é incrivelmente inteligente, empenhada e interessante, eu achei estes extremos muito interessantes.

Deixe-me fazer de advogado do diabo: porque é que nos devemos importar com os acontecimentos do filme ‘Verdade’ agora que se passaram mais de dez anos sobre eles?
A única razão para re-examinar uma coisa que acontece no passado é que ele tenha relevância contemporânea. É uma peça muito específica da História dos Media na América e não foi suficientemente examinada. Penso que a proximidade dos nossos políticos com os grupos de Media e com as grandes empresas não é questionada com frequência – afinal quem é que tem o quê? Que acordos se fazem nos bastidores? E o filme é também sobre essa questão da construção de uma reportagem que eu creio que, 11 anos depois daquela peça ter ido para o ar, tenha mudado imenso. E a forma como consumimos e disseminamos a informação mudou imenso. Naquela altura não havia Twitter. E creio que a Mary e o Dan se encontraram em águas desconhecidas na sua relação com o grupo de imprensa ao qual tinham entregado as suas carreiras e dado também a sua lealdade. E também foi naquela altura que a Internet começou a emergir com todas aquelas opiniões que nós tomamos como se fossem factos.cate blanchett 2

A Mary ficou amarga com o que se passou?
Ela não é amarga. Acho que ela alternou entre a raiva e o desespero por causa da rapidez com que a verdade se perdeu no meio da confusão. Os jornalistas não são advogados. O trabalho deles é fazer perguntas e creio que ela sentiu que algumas das perguntas se estavam a perder. Não é amarga porque avançou na vida mas claro que tem a ferida da reputação ter sido enlameada e a carreira destruída e ver aquilo que pensava existir – a solidariedade dos colegas de profissão – evaporada. A ferida ainda está aberta. Acho que a ferida ainda esta aberta na CBS.
Os meios de comunicação mudaram muito desde que começou a sua carreira, com o Facebook e o Istagram. Acha que a profissão é agora mais difícil para as jovens atrizes?
Acho que na indústria do cinema sempre houve gente focada nos resultados, não no processo. Ainda há muitas pessoas interessadas no processo. E quando demasiadas pessoas que dirigem organizações supostamente criativas estão interessadas no dinheiro mais do que no conteúdo ou no impacto, essas pessoas dizem ‘ não queremos esta pessoa no elenco porque não tem suficiente número de seguidores no Instagram’. Sei que quando eu comecei havia a noção de que se uma atriz usasse um certo tipo de vestido teria mais atenção dos fotógrafos e portanto teria mais possibilidades de ser escolhida para um elenco. Penso que é uma cruz antiga, que afeta mais as atrizes do que os atores. Mas acho que agora há mais maneiras de construir um filme e as pessoas estão a gerar os seus próprios trabalhos e mostram-nos em festivais onde também encontram uma plataforma para as audiências. Portanto, acho que há um antídoto para essa atitude e eu não estou desesperada. Mas sim, hoje é tudo muito diferente do que era quando eu comecei.

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