Clarice Falcão: “Eu faço músicas muito simples”

Lisboa-08/06/2016-Clarice Falcão , cantora Brasileira fotografada no Miradouro São Pedro de Alcântara.
(Paulo Spranger/Global Imagens)

O seu nome é Clarice Falcão. Tem 27 anos e é… atriz, música, compositora, cantora, “não uma grande intérprete”, feminista com um passado machista, empenhada politicamente, escritora e guionista. E ainda toca guitarra, cavaquinho – “Todos mal, né?” – e gaita-de-beiços. Estivemos à conversa com a mulher que ficou conhecida em Portugal pela sua participação na ‘Porta dos Fundos’ e que lembraremos sempre a cantar um dos mais épicos sketches da série, aquele em que uma mulher canta “Meu amor, eu já não amo mais você“. A letra e a melodia eram dela e faziam parte de um percurso musical já iniciado que deu origem a dois discos. Em outubro, Clarice vem apresentar o seu segundo disco, ‘Problema Meu’ numa digressão por Portugal e é por aí que tínhamos planeado começar a entrevista. Mas Clarice faz-nos uma declaração bombástica: “acabei de aprender a fazer tricot.”

É um novo talento que vai explorar?
Um novo talento que eu descobri. Não sabia que tinha esse talento. É um dom, mesmo, porque no primeiro dia já tinha feito um cachecol, quer dizer, me disseram que isso não é normal.

Não é nada normal. Eu ando há 30 anos a aprender e ainda não descobri como é que se faz.
[risos] Youtube é tudo o que há. Tem tudo para aprender.

Está em Lisboa para promover a tour que vai fazer em outubro, com concertos baseados no seu segundo álbum. O que é que este segundo disco conta e canta às pessoas?
Eu acho que ele é bem diferente do primeiro. O primeiro tinha um eu lírico, só um. Era sempre a mesma voz falando e sempre o mesmo assunto. Era quase uma história e isso se refletia também na sonoridade.

Era mais acústico.

Era mais acústico, minimalista, não é? E as músicas entre si são parecidas. Você vai ver, todas elas têm cordas, violão, acústico, quase nada de bateria, maioria das músicas pouca percussão, às vezes nem isso, valorizando a letra, e esse [novo disco] eu acho que é o oposto. Eu, intencionalmente, coloquei nele várias vozes. Acho que cada música fala sobre um assunto e fala de um ponto de vista diferente, cada música tem um género, desde a marchinha de carnaval até um brega, até rock, disco, folk também. Ele é mais cheio de coisas.

E tematicamente também é mais diverso.
E tematicamente é mais diverso. Acho que tem tipo, várias vozes. Vozes no sentido de… vários personagens contando de lugares diferentes, pontos de vista diferentes…

Como é que encaixa estas duas autorias que são tão diferentes?
A primeira música do segundo álbum, ‘É Irónico’, eu acho que fala um pouco sobre isso, que é, ela critica a ironia, mas de uma forma irónica. Os dois álbuns têm humor, estão fazendo graça de si mesmo, mas ao mesmo tempo há uma verdade ali. Não é humor só pela graça. Eu acho que todas aquelas coisas eu já senti, eu já vi pessoas sentindo de verdade, mas é observar a realidade com algum distanciamento, entendendo que a verdade, que o sentimento verdadeiro às vezes é também ridículo.

Como é que decidiu fazer um disco? Já era música, já tinha assumido que era música profissional?
Não. Eu fui fazendo as coisas de qualquer jeito, bem de acordo com o que a vida ia mandando. A primeira música que eu fiz foi para um curta – chamado ‘Laços’ – que eu fiz para um concurso do Youtube. Eu, minha mãe e o meu melhor amigo. E a trilha sonora tinha de ser original porque ia passar em Sundance. Aí eu falei “Ah, eu vou inventar!”. Eu já tocava, gostava muito de tocar violão e cantar, então “vou inventar uma música para essa curta.” Inventei. Chamava-se ‘Austrália’, era inglês ainda, ainda era adolescente, tinha 16 anos, e estava na minha fase de ouvir música estrangeira. Aí fiz algumas músicas em inglês, mas nunca senti que era um projeto que valesse a pena juntar e, paralelamente, comecei a escrever em português, para cinema, para televisão… E comecei a me apaixonar por brincar com palavras e pela Língua Portuguesa, que eu acho que é muito rica e foi quando, em algum momento, eu falei: “Dá para juntar isso daqui com isso daqui, e dá para fazer”. Aí quando comecei a escrever as músicas em português foi quando bateu uma coisa de “Poxa, isso é uma coisa, uma coisa diferente, que eu acho que eu posso trazer”, sabe? Até então eu fazia umas musiquinhas em inglês mas eu falava assim: “Isso não vale a pena botar isso no mundo porque disso já tem muito.”

Lisboa-08/06/2016-Clarice Falcão , cantora Brasileira fotografada no Miradouro São Pedro de Alcântara. (Paulo Spranger/Global Imagens)

 

Era preciso ter um corpo coerente musicalmente e tematicamente, também?

É, tematicamente também, eu fui até fazendo um projeto que era bem coeso, mas eu acho que, principalmente, é uma coisa de você sentir que o seu trabalho é, ter alguma originalidade, mesmo que seja ruim. Sem julgamento de valor, sabe? Mas, que tipo “Poxa, eu nunca vi isso.” Pode até existir em algum lugar, mas eu nunca vi. Até então, tudo o que eu fazia era, talvez, mimetizando coisas que eu gostava e óbvio que continua sendo de alguma forma, porque sempre é, né? Um trabalho sempre é você buscar referência, mas foi quando eu consegui botar um pouco de mim. E aí virou um trabalho original.

Há nessa responsabilidade de fazer uma coisa que ainda não existe, um peso enorme de tornar a música intencional, da mesma forma que a arte deve ser?
Pois é, eu acho que na hora de fazer tudo vale. Na minha experiência, eu faço as maiores burrices do mundo e as maiores besteiras, está tudo guardado. Na hora de lançar é diferente, mas por isso eu não boto um peso de fazer uma coisa que ninguém nunca tenha visto. Eu fico querendo fazer uma coisa que eu nunca tenha visto e acho que isso diminui um pouco o peso.

E há músicas que funcionam melhor passado algum tempo, do que funcionam logo a seguir a serem escritas?
Eu acho que sim. Na verdade, a maioria das vezes quanto mais tempo vai passando, mais eu vou achando péssimo.

Como é que é o seu processo de criação de música? Ou seja, grava para ouvir ou compõe na pauta e escreve a letra em baixo, como é que faz?
É meio junto, assim, porque eu acho que não sou uma, quer dizer, eu acho não, é um facto que eu não sou uma grande intérprete, então é muito difícil que vá lançar um CD “Clarice canta Pixinguinha” sabe? [risos] Eu não vou fazer isso porque não tenho manha, eu não sou uma GRANDE intérprete, uma GRANDE instrumentista. Acho que…

O seu trabalho é de autor.
Exatamente. É mais de composição e eu gosto até de interpretar as minhas próprias músicas porque eu acho que elas não precisam também de uma grande voz, porque elas estão mais contando uma história. Eu faço tudo junto. Eu penso no que vai ser mais ou menos a ideia e aí eu vou pensando qual o melhor jeito de contar essa música melodicamente. E aí, às vezes começa de um jeito e termina de outro. Eu volto e refaço tudo.

E as melodias surgem para as letras, tudo ao mesmo tempo?
Surgem para as letras. Porque, uma coisa que às vezes me incomoda é quando você vê que a letra foi colocada a fórceps, forçosamente numa melodia. Então às vezes as pessoas mudam as tónicas, sabe? Aí em vez de falar assim “Eu vou perder”, a pessoa fala assim “Eu vou PER-der”. E isso me incomoda um pouco porque eu tento fazer a música o mais oral possível.

Há uma marca muito forte da oralidade e do discurso normal, mas ao mesmo tempo, há muitos recursos da poesia como as aliterações, obviamente a rima também.
Eu gosto muito de olhar para a cara da pessoa quando estou tocando e ver ela entendendo o que eu estou dizendo, sabe? E tem gente que faz músicas muito rebuscadas que eu amo como ouvinte, mas gosto muito de ver o olho da pessoa entendendo o que eu estou falando. Eu faço músicas muito simples, muito sem rebuscados e etc., mas acho que a coisa da aliteração, da metáfora, da rima e da métrica é muito divertida. Então eu tento juntar, porque acho que é um jogo, é muito divertido fazer uma música. Porque quando você vai fazer um texto, você está ali solto, quando você vai fazer uma música, tem regra, é jogo.

Ter esses limites é interessante?
Eu acho isso muito interessante, exatamente. Porque as soluções que você dá muitas vezes fogem da sua zona de conforto, do que você faria normalmente, então você se força a sair de você mesmo. E você descobre outros pedaços, assim, outros pedaços de você – é meio cafona isso que eu estou falando, mas sinto um pouco isso – que na hora de resolver um problema, na hora da pressão mesmo, é que você fala “Pô e se eu fizesse isso? Não, isso é doido.” Aí você faz e fala assim “Não, funcionou!” e então vai descobrindo outras coisas. É por isso que eu gosto tanto de compor.

E é tudo ao mesmo tempo? Viola, acorde, dedilhado? Escreve a letra… é isso?
É, é tudo meio no caos. Às vezes ando um pouco com a letra e penso, como é que eu vou botar essa melodia aqui? Ou às vezes, eu penso “o refrão podia ser tã nã nã nã” e aí arraso. Eu vou brincando e tentando rimar por dentro, tentando…

A Clarice é muito influenciada pela música que ouve?
Sim. Acho que sim. É muito difícil não ser, não é? Eu acho que de sonoridade nem tanto, mas eu acho que o meu jeito tem muito de algumas coisas. Quando era pequena, minha mãe me botava para escutar Sérgio Sampaio, que tem essa coisa bem-humorada, me botava muito para escutar o próprio Chico [Buarque], que vai para um outro lado mais rebuscado mesmo… Mas eu sou muito fã dele. Ele tem uma coisa de senso de humor, de olhar as coisas de um outro jeito. Toda a música do Chico tem uma voltinha, sabe? Nunca é simplesmente “Ah, eu te amo, e é isso aí!” Sempre tem uma virada. Tem também um cara lá no Brasil chamado Luiz Tatit, que fazia parte do Grupo Rumo, e que tem umas músicas engraçadas. É muito lindo, muito emocionante e ao mesmo tempo muito doido.


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E meu pai sempre compôs, não é? Nesse CD tem uma música dele, e eu acho que também tem uma influência todos esses artistas que, em algum momento, eu ouvi e pensei “Eita! Pode ser assim.” A música não precisa ser de um jeito específico. Pode ser assim, pode ser brincando, pode ser simples…

Neste segundo álbum, tem muita observação dos, da sociedade, porque é que passou de dentro para fora?

Pois é, é uma boa pergunta. Quando você faz uma história olhada de uma personagem só e, ainda mais de um personagem do ‘Monomania’, do primeiro álbum, é muito obsessivo. Essa personagem vê pouco em volta, foi bem construída como um exagero do exagero de todos nós apaixonados, mas é um extremo, extremo, extremo. Aquela personagem é pequenininha e ela está olhando para esse cara, ou essa mulher ou o que for. Os tamanhos estão muito estabelecidos, ele é o grande, ela é o pequeno e ela está olhando uma coisa só. A partir de um momento que começo a ter uma visão muito mais geral do que está acontecendo em volta, faço uma música de uma mulher que diz “Não, espera aí, eu não sou sua, não”. Já estou olhando de outro jeito. O autor não é mais uma pessoa obsessiva e como muda o olhar, eu acho que começa a ver mais ao redor. Não foi uma coisa intencional, acho que a coisa social e a coisa política, de certa forma, aparecem junto.

Este álbum é lançado em 2016 que é um ano muito agitado politicamente e socialmente no Brasil e tem inclusive essa música e outras bastante mais feministas. Não surge por acaso, há também uma influência do contexto?

A primeira coisa é que eu sou muito feminista, sou feminista, e o primeiro álbum era muito subserviente. Então, para começar eu tinha uma dívida a pagar, só para dizer “Não, isso é uma personagem, é uma história” …

Tinha vergonha do ‘Monomania’, depois de ter lançado?

Não, porque eu acho que é uma história. É o que eu falei, não acho que o eu lírico seja, necessariamente, uma mulher, tanto que o meu maior público é de homens homossexuais. Não há nenhuma vergonha por questões de feminismo, mas eu queria ter um trabalho de personagens mais empoderados e mais por cima ou não, até para variar. Eu achava que essa fórmula já tinha fechado no ‘Monomania’. Eu tenho muito orgulho nesse trabalho, gosto muito dele, mas assim que o acabei já sabia que não ia continuar fazendo a mesma música de novo. Tanto que não sabia se eu ia fazer um próximo álbum. E esse álbum foi escrito muito espaçadamente nesses três anos, na verdade, dois anos porque eu gravei em abril do ano passado, o álbum.

Foi lançado em fevereiro só, deste ano.
É, demorou muito, porque eu demorei para escolher nome, estava com medo de lançar também, mas eu gravei em abril. Acho que teve uma coisa de influência do contexto sim, de eu crescer sempre com mulheres muito fortes em volta e lendo muita literatura feminina, escrita por mulheres e lendo muito Dorothy Parker, Simone de Beauvoir.

E o contexto político e o que se está a passar no Brasil?

Eu acho que como a gente começou a dar nomes mesmo aos bois e essa palavra FEMINISMO começou a ser usada, e usada, e usada e usada, eu acho que entra num, no, entra em todo o mundo, na cabeça de todo o mundo. Seja negativamente para algumas pessoas que criaram ódio irracional disso e para pessoas que já tinham isso em algum lugar, mas continuavam reproduzindo. Eu reproduzi muito, muitas das atitudes machistas durante a minha vida e acho que muitas mulheres sentem isso, olhando agora para trás.

Por exemplo?

Por exemplo, o próprio álbum tem uma música – a terceira música que é a ‘Deve ter sido eu’ – que é uma moça que diz: “Eu já não amo mais você, mas eu ainda odeio essa menina”. Aí eu fiquei pensando se eu botava, se eu não botava, porque de alguma forma é um pensamento que eu acho que é antissororidade, anti-amizade feminina. Mas resolvi botar por dois motivos: o primeiro é que eu acho que a fragilidade não se esconde, e eu acho que essa música é uma fragilidade, é um sentimento que é feio, mas faz parte da arte também mostrar a parte feia de você e, segundo, porque eu acho que, mais para o final do CD, tem ‘Vagabunda’ que equilibra.

Esta história conta, na verdade, um relacionamento que acaba…
E aí o cara está com outra e você fica com raiva da outra, que coitada, não tem culpa nenhuma. Eu acho que eu botei, eu acho que, pelo menos eu fiz o possível para deixar claro que essa menina está errada. Tanto que eu cito a ‘Atração Fatal’, que é um filme de uma maluca, vilã. Esse tipo de sentimento, que é um sentimento que, às vezes, você sabe que racionalmente que ele é errado, que ele é contraproducente, que ele não leva a nada e que é uma injustiça, mas que você em algum lugar você sente quando você termina um namoro e a menina não sei quê… Na verdade, o babaca é ele.

Há esses pequenos e comuns erros das mulheres machistas, mas depois há coisas graves a acontecer no Brasil. O momento político que se vive no país faz com que haja um recrudescimento de crimes contra as mulheres?
Eu acho que sim. Mas eu acho que tem um pouco disso, então eu não sei o que veio primeiro, mas eu sei que está tendo uma iluminação das pessoas se tocarem, do seu racismo, do seu machismo, da sua homofobia, sabe? E eu acho que em resposta a isso, ou o contrário, eu não sei exatamente, tem tido uma coisa de fascismo, de um pensamento retrógrada, de retrocesso mesmo e que está vindo com muita raiva. É muito assustador ver, e ao mesmo tempo é muito bonito que isso daqui está, que esse lado está acontecendo também.

Lisboa-08/06/2016-Clarice Falcão , cantora Brasileira fotografada no Miradouro São Pedro de Alcântara. (Paulo Spranger/Global Imagens)

Como é que vê o futuro, o que é que acha que vai acontecer em breve e…
Se não, se esse Governo continuar, se ele resistir a tudo o que está acontecendo e se resistir eu não sei como é que vai ser. É só realmente pela media, a media no Brasil é toda cheia de conchavo e muito retrógrada, mas porque todo o dia sai um áudio de alguém falando de não sei quem de que não sei o quê da Lava Jato, que roubou não sei quanto… Assim, todo o mundo envolvido nesse Governo atual já foi citado em algum lugar como tendo feito alguma merda, então eu não sei como é que está ali ainda. Agora, o Governo da Dilma já era. Na minha opinião, já era lento e já tinha vários pontos que eu discordava, sabe? É… na coisa ambiental, nessa coisa do incentivo excessivo ao consumo, algumas coisas. Índio, sabe?… Apesar de eu admirar a Dilma. Acho a Dilma uma pessoa admirável mesmo. Eu estive com ela, cantei agora no Mulheres pela Democracia e ela falou e foi lindo. Ela é uma mulher de uma força absurda. Mas já era um Governo que estava caminhando a passos lentos. Agora, em uma semana, parece que a gente está a caminhar a passos rápidos na direção contrária. É uma eficiência de retroceder que é absurda.
Como é que se vive na rua? Vocês sentem essa oposição entre dois campos ou isso é mais ténue no vosso lidar no dia-a-dia.?
Está violento, prinicipalmente desde dos protestos de 2013. [Há] Uma polaridade muito absurda, eu vi incontáveis amizades terminando por Facebook assim, publicamente, de pessoas se seguindo que eram muito amigas. E a verdade é que eu gostaria de falar que “Ah, mas o meu lado é menos agressivo”, eu até acho que é um pouco, mas também acho que tanto faz. Quando teve, porque teve o golpe, né? – na minha cabeça, foi golpe – depois teve o primeiro vazamento de áudios que demonstrava claramente como o golpe foi arquitetado e para quê e tudo o mais. E aí quando saiu isso deu muita vontade de falar “Está vendo?! Seus burros!”,. Dá muita vontade e isso é muito agressivo. Na verdade, eu fiz um pouco isso depois fiquei meio “tenho que chamar eles para junto…” Mas na realidade não adianta, porque o outro lado continua no outro lado e continua dizendo “Sim, mas, que bom, saiu. Sim, mas…” Então está uma divisão social. Eu tenho a sorte ou tenho, enfim, meus amigos todos, próximos, do mesmo lado. A gente vive numa mini bolha. Mas está bem complicado.

Estamos a assistir a uma ponte aérea entre Portugal e Brasil de intelectualidade. O que é que os artistas brasileiros estão à procura em Portugal? Tem a ver com estas condicionantes políticas e com uma espécie de preparação para o futuro ou tem a ver com “bom, falamos a mesma língua, portanto, vamos…”
É, eu acho que um pouco de tudo, assim. Eu sempre quis vir e queria muito ter vindo com a outra tournée aqui. Não rolou, acabei a tournée antes de vir, e queria muito ter vindo. Eu acho Portugal incrível, as pessoas incríveis, gostei muito. E eu acho que nessa hora é muito importante a gente sair, porque lá é muito difícil você conseguir um espaço para falar, inclusive sobre isso, ainda mais com essa baixa do jornalismo, né? Que também tem tido aqui, infelizmente, de jornais fechando e tararau. O que a gente tem lá é a Globo e a linha editorial da Globo, ela não dá muito espaço para nada, então, o que o povo escuta é um lado da história só. Aí tem gente que é engajado, que vai procurar saber e óbvio que tem sites também, de Esquerda, que também são completamente manipuladores. Mas o facto é que a Direita tem uma media manipuladora e monopolizadora, a Esquerda só tem na media algumas medias monopolizadoras, mas que tem quantas visualizações? Então é assim, você que está no Facebook, está vendo todo o mundo falando, você tem uma ideia do que está acontecendo. Você que não está, escuta o jornal nacional.

E o jornal nacional de agora passa só coisas bonitinhas.
É, exatamente. E tudo o que acontece, por exemplo, com o Temer, eu nem sei direito, porque nesse momento estava vindo direto de João Pessoa para cá, mas ele se tornou inelegível pelos próximos nove, oito anos, e ele é o nosso Presidente. Mas isso ninguém noticiou, não saiu no jornal nacional. Então é muito complicado, então acho que tem isso também, de você se sentir como artista mesmo e tem o facto de com o que está acontecendo ser difícil fazer arte. É difícil você viajar com um show quando as pessoas não sabem o que está acontecendo com o próprio país. Então é um alívio vir para cá. Me contaram um pouco do que está acontecendo na política daqui e há um respiro… Óbvio, imagino que deva ter problemas, não acho que é o paraíso, mas comparado com o que está acontecendo lá, é um respiro.

E para esse espetáculo de outubro que vem fazer, vai estar em quantas salas? Já está fechado ou ainda não?
Não, a gente ainda está fechando. Eu sei que já tem confirmado Porto e Lisboa, mas a nossa intenção é viajar o país mesmo, vai ser a segunda quinzena inteira.

E o que é que espera destes concertos?
Ai meu Deus! Eu não tenho a menor ideia e por isso mesmo eu estou muito empolgada. Porque eu já fiz o Brasil, não cheguei a fazer todas as capitais, mas fiz algumas e também cidades de interior. Já tenho uma ideia mais ou menos de como é lá, de como é a receção e tal. Aqui vai ser um desafio novo, vai ser muito doido, estou muito ansiosa.

Eu imagino que, quando entra em palco, as pessoas estejam à espera ainda assim da Clarice da ‘Porta dos Fundos’ que nos faz escangalhar a rir. Isso aconteceu-lhe lá, na digressão? Como é que se lida com isso, com essa expectativa do público e depois com a Clarice música?
Pois é, na primeira tournée foi meio uma transição. Ela tinha muita música. Tinha cello [violoncelo], rabeca, cordas e sanfona, mas tinha um texto. Era muito costurada com texto, com textos engraçados, então, de alguma forma, quem ia esperando uma coisa de comédia, acho que não saía satisfeito, mas também não saía enfurecido. E aí acho que, com isso, as pessoas começaram se acostumando. E nessa tournée eu falo bem menos, é bem mais música, até para poder caber mais repertório dentro do show. Aqui, como eu não fiz a primeira, não tenho a menor ideia.

Vai juntar as duas ou vai ser mesmo só o álbum, a tournée de apresentação deste?
Vai ser a tournée desse álbum, mas mesmo essa tem algumas, várias músicas do anterior.

Mesmo assim o seu trabalho tem alguma ligação àquilo que fazia no Porta dos Fundos ou não?
Não.

A Clarice agora é música, ou seja, já me disse há pouco, neste momento é música, mas como é que sente? Isto é, tem uma coisa que quer fazer mais do que as outras ou é uma artista num sentido mais lato e vai experimentar vários suportes?
Eu acho que é meio. Eu sinto essa coisa de projeto, de profissão e tal, muito como essa coisa de se apaixonar, sabe? Você está apaixonado por uma pessoa agora e você não sabe se você vai ficar apaixonado por ela para sempre. Mas agora você está muito apaixonado e tem uma hora que meio que vai ficando chato e vai entrando na rotina e você fala que vai ficar solta um tempo, ver o que está acontecendo, namorando um pouquinho aqui, um pouquinho ali e se apaixona de novo por outra coisa. Então, quando fiz o ‘Monomania’ eu me apaixonei por aquele projeto e depois comecei a fazer tournée. Em algum momento comecei a achar que estava fazendo isso meio mecanicamente, então falei, “vou dar um tempo de música, vou fazer uma outra coisa”. Aí fiquei um pouco fazendo coisas de atriz, escrevendo um pouco e aí depois tive vontade de fazer o ‘Problema Meu’. Me apaixonei e tal, e eu sinto isso assim. Às vezes dá saudade de uma coisa que você fez e aí você volta a fazer, é meio isso assim. É difícil dizer o que eu sou por causa disso. Nesse momento, estou muito empolgada com esse show, muito empolgada com esse CD. Estou muito feliz, mas vou ter saudade de atuar…
Portanto, provavelmente, depois volta a atuar?
Voltarei!

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