Como evitar que os seus filhos entrem em jogos sexuais

“Juego del Muelle”. A expressão já não é estranha em Espanha e está longe de deixar descansados pais, médicos e até as autoridades. Tudo porque se trata de um jogo sexual com base num esquema de roleta ou de carrossel em que rapazes e raparigas, geralmente menores, estão despidos da cintura para baixo e no qual elas vão trocando de parceiro a cada 30 segundos, sem recurso a qualquer método preventivo. No final deste jogo polémico e que tem alarmado as autoridades espanholas, ganha o rapaz que mais tempo conseguir manter as práticas sexuais sem ejacular. Tudo isto é filmado e, depois, divulgado na internet.

Por cá, a PSP diz desconhecer a existência destas práticas. “Até ao momento não registamos ou temos conhecimento formal de qualquer ocorrência/situação semelhante à descrita. Os atos descritos, sendo consensuais e entre maiores de idade, não se constituem como crime”, afirma fonte oficial da Polícia de Segurança Pública. Contudo, é importante estar atento e evitar que os menores adolescentes corram riscos. Mas como evitar ou detetar este tipo de práticas ?

“É importante que os pais estejam atentos, sim, mas que não esperem que os filhos deem sinais. Devem ser eles proativos e encontrar um modo dos seus filhos poderem falar sobre o tema”, afirma Sílvia Baptista ao Delas.pt. Para a especialista e pós-graduada em Sexologia, “nem todos os adolescentes são iguais e nem todos os pais têm os mesmos recursos. Cada família deve encontrar a sua forma de comunicar”.

Sílvia Baptista, séxologa (Orlando Almeida / Global Imagens)

Sílvia Baptista, pós-graduada em Sexologia
(Orlando Almeida / Global Imagens)

Tudo começa com as ferramentas para uma educação sexual saudável. “A prevenção que existe é educação para sexualidade. Não apenas o lado biológico, físico e teóricos da sexualidade, mas o lado da ligação, da relação que temos com a nossa sexualidade. Só partindo dela, da nossa, poderemos viver o sexo de uma forma serena, também com o outro”, vinca.

Também as escolas – no entender da especialista – podem ter uma palavra a dizer nesta matéria: “Devem incentivar o debate sobre a sexualidade, biológica e psicologicamente falando. O sexo existe enquanto em ligação com o outro (embora nem sempre numa relação com ele) e essa ligação é frequentemente esquecida, sobretudo quando se trata do sexo como um conjunto de mecanismos biológicos do corpo”, sustenta Sílvia Baptista. Os especialistas em Psicologia, como a polícia espanholas parecem alertar para riscos semelhantes e que decorrem de uma deficiente educação sexual quer em casa, quer na escola.

“Os riscos são bastantes e com grau de gravidade assinalável”

Problemas de disfunção erétil, aumento de doenças sexualmente transmissíveis, gravidezes indesejadas e, não menos importante, problemas psicológicos. Este é o cardápio de problemas que este tipo de práticas pode acarretar. “São bastantes e com um grau de gravidade assinalável”, afirma Baptista, que diz desconhecer, para já, a existência destas práticas em Portugal. E especifica:

“No caso dos rapazes, existe um risco enorme de desenvolverem problemas de disfunção erétil devido à imposição de terem uma ereção a todo o custo”.

E vai mais longe: “Já existem bastantes casos assinalados em Inglaterra de adolescentes que, devido ao elevado consumo de pornografia sem uma adequada educação e informação sexual, mostram dificuldades nesse campo. Neste caso, o mecanismo é o mesmo, o da obrigatoriedade de estar excitado pelo estímulo do jogo, como se isso fosse um botão que se liga e desliga.” No caso das raparigas, Sílvia Baptista fala em “vaginismo”, sobretudo se a excitação do jogo não levar a uma lubrificação”. A par disto, há ainda o risco de “criar feridas na parte interior da vagina, dependendo da forma como a penetração é feita, o que, mudando de parceiro a cada 30 segundos, esse perigo exista”.

Há, depois, os riscos comuns em que incorrem as raparigas e os rapazes: “o perigo das doenças sexualmente transmissíveis, sobretudo HIV, e gravidezes indesejadas, já que não é suposto os rapazes usarem preservativo. Isto do ponto de vista físico.” Já psicologicamente, e “tendo em conta que esta é uma prática feita por menores, logo, com pouca bagagem emocional e informação para lidar com jogos sexuais, diria que as consequências são imensas”. Entre elas, enumera a especialista, estão a ideia de que “o sexo é uma coisa descartável, que qualquer pessoa serve e quaisquer minutos fazem a coisa”.

“Com adolescentes, e não tendo eles outra fonte de educação sexual, a noção de o sexo é uma coisa que se faz sem ligação ao outro pode ser algo que os fará ter problemas no futuro, sobretudo com a sua intimidade e com a intimidade numa relação”, ressalva a sexóloga.

Para a PSP, é em casa que este tipo de situações pode ser evitado ou acautelado. “Este tipo de situações caem necessariamente no plano da educação sexual, o que, salvo os casos acima mencionados, as coloca fora do âmbito da intervenção da instituição policial”, sublinha fonte oficial.

O alarme que chega de Madrid

Este tipo de prática tem vindo a tornar-se bastante comum em Madrid, Espanha, e as primeiras consequências já se começaram a fazer sentir. Há quatro adolescentes que ficaram grávidas, de acordo com a notícia divulgada pelo jornal espanhol El Mundo. Apesar de ser difícil apurar o que se passou, até porque as raparigas não o confessam, a verdade é que a ginecologista do Hospital La Paz, Pilar Lafuente, relata um aumento de casos de adolescentes a chegar à especialidade:

“De dois a três casos por ano, passamos a ter 10 menores num trimestre. Uma barbaridade”, afirmou a médica ao jornal, lembrando também o aumento da incidência de doenças sexualmente transmissíveis.

Um drama que também é confirmado pela chefe de serviço de pediatria do Hospital Universitário Severo Ochoa de Leganés: “O jogo do Muelle é muito perigoso, sobretudo para as raparigas, que estão totalmente indefesas. Mesmo que um rapaz coloque preservativo, são elas que vão rodando e entram em contacto com as secreções de outras. E, claro, logo surgem o HIV, a Hepatite C, a Sífilis, as gnorreias e o Vírus do Papiloma Humano (HPV)”, alerta María Luz García. Uma realidade para a qual se deve olhar com muita atenção porque – prossegue – “os adolescentes são cada vez mais precoces e chegam cada vez mais cedo ao consumo de álcool, drogas e ao sexo. Aborrecem-se rápido e procuram outras formas alternativas de se divertirem sexualmente”, alerta.

Uma prática que chegou da Colômbia

Desde 2014 que os relatos da prática deste tipo de jogos se fazem ouvir em Espanha, denotando agora um aumento. Este tipo de roleta sexual entre menores foi criado em Medellín e nasceu entre os adolescentes colombianos há cerca de três anos. Foi até a gravidez de uma menor que começou por denunciar esta diversão sexual. Já naquela data, a polícia espanhola referia ter conhecimento deste tipo de ocorrências, podendo fazer muito pouco uma vez que não havia denúncias registadas por se tratar de uma prática em que as relações eram, por um lado, entre menores e, por outro, consentidas.

“Em tese só estaríamos perante crimes se algum dos envolvidos(as) o estivesse contra sua vontade ou se essas práticas envolvessem menores”, avança a PSP ao delas.pt.

A Internet é o inimigo?

“Não me parece”, responde Sílvia Baptista, embora admita que possam ampliar. “Acho que este tipo de práticas decorre, sobretudo, da falta de educação sexual, primeiro em casa e depois nas escolas, e do facto de o sexo estar disponível em qualquer ligação à Net”, considera.

“Fala-se muito sobre o sexo feito – as posições, as formas de agradar aos parceiros – mas, na verdade, comunica-se pouco a esse nível. O sexo puxa à galhofa, à piada, estamos rodeados de estímulos sexuais por onde quer que nos viremos. Porém, há poucas conversas verdadeiramente informadas sobre o tema”, lamenta Sílvia Baptista.

Um assunto onde progenitores e filhos têm medo de tocar. “Os pais têm dificuldade em falar com os filhos, porque também ninguém falou com eles, e os miúdos crescem entre a sua própria descoberta sexual (que é normal e saudável) e os comportamentos de risco (como estes jogos). Falta aqui qualquer coisa de permeio, que é a conversa, a informação, a desmistificação do que é natural mas, em certas idades, é, muitas vezes, inconsciente, como estes jogos provam”, considera a sexóloga.


 

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