Conceição Queiroz: “Cada passo que dou é a pensar na minha mãe”

Tem uma carreira no jornalismo que já ultrapassa as duas décadas, mas ainda hoje a jornalista e pivô da TVI Conceição Queiroz recorda a mãe, que morreu há quase 15 anos, a cada movimento que faz, por mais pequeno que seja. Como autografar um dos exemplares do seu mais recente livro, ‘A Vida Privada das Elites do Estado Novo’, apresentado esta quinta-feira, em Lisboa. Já com uma dezena de galardões na estante, entre eles prémios da Unesco e da AMI, Conceição Queiroz decidiu afastar a sua tese de mestrado da prateleira e tornou parte da nossa história mais acessível ao público, ao transformá-la no seu quarto livro. Ao Delas.pt, a jornalista revela ainda que o percurso académico ainda não está encerrado, seguindo-se o doutoramento em Literatura Portuguesa.

Qual é a motivação para continuar a estudar depois de conquistar mais de uma dezena de prémios?
Gosto genuinamente de estudar. As últimas palavras da minha mãe antes de morrer foram: “O maior e melhor investimento que podes fazer é em ti mesma, na tua formação.” Acho que tenho feito jus a isso. Onde quer que ela esteja, penso que está muito orgulhosa. Cada passo que dou é a pensar na minha mãe, cada livro que escrevo é dedicado a ela, cada prémio que vem, cada grande reportagem, é tudo pela minha mãe.

Os prémios são um orgulho ou uma responsabilidade?
O prémio significa valorizar os bastidores. Dá muito trabalho fazer uma boa reportagem. Os prémios vêm compensar todo o esforço do trabalho. É uma grande responsabilidade, fazem-me querer fazer ainda melhor, mas também são um grande orgulho, pois são resultado de muito trabalho.

Estas distinções tornam a Conceição numa referência?
Não sei se sou uma referência no jornalismo…

Que diferenças existem entre a Conceição desempregada, que fez um telefonema para a redação da TVI a partir da estação de Entrecampos, e a Conceição jornalista que assina o seu quarto livro?
A minha vida mudou radicalmente a partir daquele telefonema. É inacreditável. Vi-me numa linguagem completamente diferente, vinha da rádio. Nunca pensei trabalhar em televisão, nunca esteve nos meus planos. É um registo completamente diferente. Eu adaptei-me. Trabalhar em televisão é cortar palavras, ser mais objetiva, descodificar. Para quem cresceu sem televisão, de repente ver-se nela foi uma grande descoberta.

Descobriu o pequeno ecrã ao mesmo tempo que se descobria a si própria na televisão?
Foi um processo de construção e uma descoberta própria. Como é o meio, como me devo movimentar, como me devo proteger. A exposição é diferente de quando se trabalha na imprensa ou na rádio, eu andava na rua e as pessoas não falavam comigo. É estranho as pessoas conhecerem-me e tratarem-me por Queiroz [risos]. Também me conhecem pela voz. Às vezes estou de costas no supermercado e as pessoas interpelam-me.

Quais são os segredos para se vingar numa profissão tão competitiva?
Fiz um grande investimento nesta profissão, emocional, pessoal… A todos os níveis. Não perdi uma única oportunidade. Entrei para o entretenimento e passei para a informação quando a Manuela [Moura Guedes] me deu a oportunidade de fazer uma reportagem-teste. Eu chateava-a muitas vezes para ter uma oportunidade na informação, até que ela, a certa altura, se cansou de ser abordada por mim, quase todos dias, e deixou-me então fazer a reportagem. As coisas correram bem.

Sendo um meio competitivo por si só, sente que há igualdade de género nas oportunidades na TV?
Não tenho nada a apontar em relação à igualdade de oportunidades de género, não me parece que haja problemas a esse nível no jornalismo. Há menos oportunidades para todos agora. O meio está mais fechado e o crescimento do mundo digital é avassalador. Nunca pensei que chegássemos ao ponto em que chegámos, da informação ao minuto.

Tem-se registado uma luta crescente por parte das mulheres em relação à igualdade de oportunidades nas diferentes áreas de trabalho. Que leitura faz dessas reivindicações?
A nível global há imensas diferenças ainda. O homem continua a sobressair em várias áreas, sobretudo no salário e na liderança de grandes empresas. Essa desigualdade não faz sentido e deve ser combatida. Mas eu não sou a favor das cotas, acho que as pessoas devem ser valorizadas pelas suas qualidades e capacidades e é isso tem de ser incutido a quem decide. Há que lutar contra as cotas. Quando se quer escolher alguém, não interessa se é chinês, indiano, negro, branco, gay. Eu não quero saber, quero que seja um bom profissional. Também não tem de ser mulher. Não se deve contratar uma mulher só porque se tem 10 homens e há que encaixar uma mulher só por ser mulher. Se for boa e se fizer a diferença entre os homens é óbvio que, para mim, estará em primeiro plano. Eu nunca me senti discriminada por ser mulher, nunca senti que tivesse menos oportunidade por ser mulher, muito pelo contrário.

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