“Cresci sem ver corpos como o meu na TV”

Actress Lena Dunham arrives for the 2016 CFDA Fashion Awards in Manhattan, New York, U.S., June 6, 2016.  REUTERS/Andrew Kelly  - RTSGB8S

Estão zero graus em Nova Iorque e, no 15.o andar da torre da HBO, grandes janelas enquadram a cidade – o Empire State Building ao fundo, a neve a cair sobre Bryant Park e sobre os homens e mulheres que se divertem na pista de gelo –, quando Lena Dunham entra na sala, de blusão com capucho, um casaco Patagonia e duas longas tranças com madeixas louras. “São extensões. Só porque sou uma feminista não quer dizer que não possa colar o cabelo que uma outra mulher decidiu vender”, explica, de imediato. “É o meu direito. Se a Arianna Grande o pode fazer, também eu posso.” Lena está aqui, na sede do canal que acolheu Girls nos últimos seis anos, para falar com um grupo de jornalistas sobre a última temporada do programa que começou a escrever com 23 anos. Uma conversa dispersa, a várias vozes, sobre feminismo e imagem corporal, sobre o momento político dos Estados Unidos, sobre violência sexual, e sobre como, apesar de todo o seu sucesso, ainda há dias que chega ao trabalho e se sente uma impostora.

Porque é que, à sexta temporada, é hora de acabar?

Acho que tínhamos contado a história que queríamos contar, da vida na casa dos 20. O próximo passo seria estes personagens prosseguirem para as suas vidas profissionais, casamentos, crianças, e não era a nossa história. É bom terminar quando ainda temos paixão por aquilo que estamos a fazer.

Quando o programa começou a ter sucesso, foi ficando mais constrangida pela forma como se expunha?

Não. Provavelmente, deveria ter acontecido, mas não tenho controlo sobre os meus impulsos. Escrevo o que escrevo, digo o que digo, e essa é uma das razões porque, publicamente, muitas vezes parece que não aprendo as lições. Sou, para o melhor e para o pior, muito comprometida com a minha verdadeira voz.

Toda a crítica que tem recebido desde o início do programa teve um impacto em si?

Sim, ninguém gosta de ser criticado. Mesmo que não me importe que um tipo no midwest diga que sou gorda ou que um republicano diga que sou estúpida, isto é literalmente científico: não podes ter tanta energia negativa dirigida a ti sem que isso tenha um efeito na tua vida emocional. Sou pública em relação a isso porque há muitos adolescentes que são alvo de bullying todos os dias e isso conduz ao seu suicídio. Eu tenho muitos recursos, um professor de ioga, um psiquiatra, um terapeuta de cristais, tomo muito bem conta de mim, e, mesmo assim, magoa-me. Então o que acontece com uma adolescente na Flórida quando toda a sua turma se vira contra ela no Twitter ou partilha fotografias manipuladas dela? A internet pode ser um sítio incrivelmente perigoso. Francamente, não me interessa o que acontece com as celebridades, mas com as outras pessoas.

Qual foi a importância do seu programa mostrar corpos de uma forma crua, diferentes da imagem a que estávamos habituados?

Eu cresci sem ver corpos como o meu na televisão. No secundário era muito autoconsciente do meu corpo e lembro-me de o meu pai me dizer: “Sabes, nos anos 1800, um corpo como o teu seria considerado muito bonito, significava que eras bem alimentada, rica e fértil.” E eu dizia: “Muito obrigado, pai, mas não quero ser bonita em 1800, quero ser bonita agora.” Os programas de que eu gostava eram Ally McBeal, Felicity, Popular, programas que mostravam mulheres complexas, mas todas elas pareciam um pau. Queria ver alguém que me representasse. E mesmo a Jemima [Kirke], a Zosia [Mamet] e a Allison [Williams], que não têm peso a mais, não têm o corpo obsessivamente treinado das estrelas de televisão.


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Enquanto gravava esta última temporada, estava a fazer campanha por Hillary Clinton. Isso passou para o programa?

Enquanto gravava, estava a pensar muito [na eleição] porque falei na Convenção Democrata e nos fim-de-semana participava em eventos de campanha. Acho que o que passou para programa é que muito é esperado das mulheres: têm de ser dóceis mas fortes, engraçadas mas cativantes, poderosas mas não isoladoras, honestas mas não choramingas. Colocámos todas estas expectativas na Hillary Clinton, multiplicadas por mil, porque ela era uma candidata presidencial. E essas expectativas irreais, e a misoginia internalizada que mesmo muitas mulheres têm, contribuiu para que o candidato presidencial mais qualificado de sempre perdesse a eleição. Acho que esse leque de expectativas irreais e esmagadoras que colocamos sobre as mulheres é um tema que sempre cobrimos em Girls.

Chegou a considerar alterar a última temporada, ou prolongar a série, por causa do resultado da eleição?

Há outras maneiras de resistir. Sabia que era tempo de acabar. Não acho que mais uma temporada de nós a desancar no Donald Trump fosse ajudar a causa. Ninguém precisa de mais raparigas millenial, brancas, e zangadas a dizer quão terrível é Donald Trump. Isso está resolvido.

Como se pode lutar?

Acho que há, agora, o despertar de uma organização que mostra que é importante protestar, ligar para os teus representantes, envolver-se em organizações locais, fazer doações. Nunca foi tão importante estar presente – com o teu dinheiro, com o teu corpo, com o teu tempo, com a tua voz – como agora. Muitas pessoas tiveram críticas válidas à Marcha das Mulheres, mas foi o maior protesto global a que já assistimos. E só aconteceu porque cada uma daquelas pessoas decidiu tirar tempo do seu trabalho e das suas vidas para mostrar que queriam dizer “não”. E isso assusta muitas pessoas. Mesmo que agora não vejamos o resultado, o governo está avisado e sabe que não tem apoio; entende que a maioria não os apoia e que estão em desvantagem na luta contra mulheres e contra os aliados da igualdade em todas as suas formas.

Nesta última temporada vemos as personagens a tornarem-se mulheres? O que significa passar de rapariga para mulher?

Não sei se alguma vez graduas totalmente para mulher. Mesmo a minha avó, que morreu este ano aos 96 anos, acho que às vezes sentia ter 17 anos e às vezes sentia que era tão velha como o tempo. Isso é uma das coisas melhores de ser humanos – o quão fluidos somos.

Porque decidiu escrever o terceiro episódio [sobre uma experiência de abuso sexual entre um escritor e as suas fãs]?

Já escrevi sobre as minhas experiências com agressão sexual e sobre misoginia na indústria. Mas queria escrever algo com base nas histórias de jovens que me contam constantemente sobre as suas carreiras e os desafios que enfrentam, sobre relações que achavam que eram de mentoria e como [o resultado] as fez questionar a elas próprias. Não queria dar uma resposta, criar uma resolução moral, só queria fazer as perguntas. Todos sabemos que violação é errado. Mas nem todos entendemos como é que as pessoas abusam das suas posições de poder para conseguirem aquilo que querem de outras pessoas e quão dramático e destrutivo isso pode ser.

Falou algumas vezes do síndrome de impostora, em que acha que alguém a qualquer momento vai descobrir que é uma fraude. Esse sentimento melhora?

Depende do dia. Há dias em que chego ao trabalho e digo: “Sou a chefe. Estou em controlo disto tudo.” Noutros dias é: “Não consigo. Como é que acabei aqui? Alguém pode vir fazer isto por mim? Quero ir para casa.” Acho que isto não é limitado a mulheres, muita gente tem este sentimento de que calçou os sapatos de um adulto. Mas é especialmente grave se vens de um grupo historicamente marginalizado ou oprimido. É muito difícil sentires-te dono do teu próprio poder e isso é algo que tenho de continuar a trabalhar.

Como seriam as personagens de Girls em 10 anos?

Não posso responder a isso, porque daqui a 10 anos vamos estar a fazer um filme.


Girls estreia em todo o mundo a 12 de fevereiro. Em Portugal para na madrugada de domingo para segunda-feira, às 3h00 no TVSéries.

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