Cozinhar com ervas daninhas? São daninhas só no nome

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Se pensarmos bem, todas as plantas que comemos foram silvestres no passado. O leque que a humanidade foi selecionando para o prato foi deixando de fora outras que por vezes, pelo seu caráter bravio e sabor talvez menos grato, foram assim chamadas e tratadas como daninhas.

Em tempos de guerra e de depressão económica era normal, na ausência dos vegetais cultivados, usarem-se estas ervas esquecidas e antes enjeitadas como alimento de recurso. Hoje, entram de novo na panela pela mão da cozinha de autor, que numa busca constante por novos sabores as vai buscar a tempos históricos de má memória, e às campinas onde nunca se esgotam e onde todos nós podemos também ir colhê-las.

A estrela primeira desta renovada mesa é a que mais amedronta e a de que toda a gente foge, a urtiga. Mas é riquíssima em vitaminas e minerais, especialmente em zinco, relevante para uma boa saúde do cabelo e das unhas. E, entre outros predicados, era dantes usada nos meios rurais como um remédio eficiente contra as anemias, aumentando a quantidade de glóbulos vermelhos do sangue. A única dificuldade em cozinhá-la é mesmo e apenas manuseá-la, mas tal contorna-se facilmente usando luvas.urt

Luís Pontes, autor do blog outrascomidas.blogspot.pt, oferece-nos uma receita passo a passo de um esparregado de urtigas e conselhos práticos de como lidar com esta erva que não se entrega facilmente à nossa gula.

No mesmo blog o autor apresenta uma deliciosa receita de outra planta silvestre muitas vezes esquecida, a beldroega. Em função da maior ou menor carestia de qualquer época, a beldroega foi sempre alimento, ora de gente ora de gado, especialmente suíno. Ligeiramente ácida e salgada, pode ser usada crua, em saladas, ou cozinhada em sopas, onde casa às mil maravilhas com açordas, como se faz quase desde sempre em certas regiões de França e no nosso Alentejo, com todo um sabor que agora é revitalizado por muitos chefs da moda. Muito rica em vitamina C, é um trunfo quando não se dispõe de citrinos, tornando-se assim muito eficaz arma contra todas as maleitas que a carência daqueles acarreta.bel

Pode apanhá-las, quiçá, mesmo na sua rua antes de passar a brigada de extermínio da câmara municipal. Mas esta colheita estará cheia do lixo que a cidade larga; vá passear no campo e apanhe-as lá, ou compre-as embaladas por €2,20/350gr em quintadoarneiro.pt.

O mundo das silvestres comestíveis não se esgota com as urtigas e as beldroegas: Clara Cannucciari, nascida em 1915 e desaparecida em 2013, teve um programa online chamado Great Depression Cooking, tornado mais tarde livro, o Clara’s Kitchen. Aí ensinava a quem queria ouvir (e foram e são muitos os milhares) como a sua mãe contornou a miséria dos anos consecutivos a 1929 cozinhando também com daninhas, elementos inesperados numa cozinha que permitiram à sua família contornar aqueles anos amargos à mesa, sem perder nem para o palato nem para a saúde, enquanto se esperava por melhores dias. Hoje, sabendo nós como as coisas estão, não custa nada ir ver as propostas de Clara no youtube, onde a anciã relembra, por exemplo, como é fácil esticar um almoço usando flores e folhas de dente-de-leão (flor de todo o lado) numa bela salada.

Em Portugal, recomendamos a leitura dos ensaios e livros da investigadora Maria Elvira Ferreira, do I.S.A., que em várias publicações é paladina do uso destas e doutras silvestres, que têm tudo para serem uma moda verdadeiramente útil, saborosa e saudável.

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