David Bowie, o influenciador da moda

Bowie no vídeo 'Lazarus'

Morreu hoje, às 6 da manhã vítima de cancro, rodeado pela família. Na última sexta-feira, David Bowie lançou o novo disco no dia do seu 69º aniversário, mostrando mais uma vez a sua capacidade de mudança trabalhando com músico novos, reinventando-se, olhando para o futuro. Um dos artistas mais inimitáveis no mundo da música foi tão original que se tornou uma referência e uma inspiração para criadores de moda ao longo de mais 40 anos de carreira. O camaleão vai continuar a estar na moda.


Conheça a vida e a obra de David Bowie.


Estávamos em 2013 e pela primeira vez o Victoria & Albert Museum, uma das instituições mais influentes no mundo das artes e do design, realizava uma mostra tão extensa em torno de um só homem – eram trezentos objetos reunidos e organizados para a exposição ‘David Bowie is’ e a tarefa seria impossível não fosse esse homem tão múltiplo em talentos, identidades e tempos. Ao título da exposição – David Bowie é, em português – não faltava nenhum complemento. David Bowie é, ainda podemos dizer que é apesar da morte, o todo o que está exposto e só David Bowie pode ser este todo cuja multiplicidade é uma unidade. Para ver estavam letras de músicas escritas à mão, filmes, fotografias, vídeo clips, instrumentos e obras de arte, muito material privado do artista. E estavam também fatos desenhados para as bandas, indumentária de concertos e peças de moda, no total de 60 figurinos assinados por Bowie, por Alexander McQueen, Kansai Yamamoto e outros grandes nomes da moda internacional. Se há área em que é impossível discordar dos curadores quando dizem que a influência de Bowie nas artes é enorme, e nos dois sentidos, é esta mesma, a moda.

O designer de moda Dries van Noten já tinha assumido esta fonte de inspiração permanente que é David Bowie, quando após o desfile na semana de moda de Nova Iorque, em que usou um remix do tema ‘Golden Years’ como música de fundo, declarou ao Financial Times:

“O período do Thin White Duke é um dos meus preferidos. Creio que o que era avant-garde nos anos 1970 faz parte da psique de hoje.”

Lucas Ossendrijver, o designer da men’s wear da Lanvin, é citado no mesmo artigo sobre a influência de Bowie na moda de 2012, afirmando que as referências à personagem do cantor britânico não foram intencionais. Mas o facto foi incontestado: em 2012 coleções inteiras recriavam uma persona de Bowie.

Quando cantor fez 65 anos chegaram às lojas de moda as propostas dos designers com looks totais ou parciais à Bowie. As calças de cintura alta com pinças e machos amplos, as cinturas marcadas, as camisas brancas, marcaram as criações do referido Dries van Noten. A Lanvin colocou o chapéu de gangster ligeiramente desproporcionado para completar o aspeto dandy dos seus coordenados, apresentados em modelos de extrema magreza. A androginia já tinha sido evidente na coleção de Tod Lynn para outono-inverno de 2011.

Este era o Bowie dos anos 1970, nascido na digressão de Young Americans, assumido inteiramente enquanto personagem, alter ego, heterónimo criativo a partir de 1976 com o álbum Station to Station. É o Thin White Duke, uma personagem que encarna o imaginário lírico e decadente ultrarromântico, com conteúdo e figurino a condizer. Duke veste-se sempre de forma irrepreensível com camisa branca, calças de cintura subida e casacos cintados, para cantar canções de amor que já não sente. Deste período é também o filme The Man who Fell to Earth, em que Bowie interpreta a personagem principal, um extraterrestre que usa um chapéu sobredimensionado para esconder as feições. E é este mesmo Bowie que, a julgar pelas últimas semanas de moda de Nova Iorque, Londres, Paris e Milão, continuará a ditar a moda nas coleções primavera-verão de 2013. Em Jonathan Saunders é mais uma vez Duke que reaparece, mesmo se os estampados dos jerseys remetem para Ziggy Stardust, desta vez numa versão arrumadinha. Sarah Burton para a Alexander McQueen mostrou uma colecção inspirada nas cores e nos brilhos de Ziggy Stardust, Jean-Paul Gaultier reutilizou o jumpsuit muito ao estilo da persona mais colorida de Bowie numa coleção cheia de referências aos ícones da pop, a Preen foi ao encontro do filme The Hunger, de 1983, em que Bowie contracena com Catherine Deneuve.

Este encantamento que a moda demonstra por David Bowie não foi exclusivo desse ano. Rouland Mouret já tinha desenvolvido a coleção para a primavera de 2011 da Mr em torno de Bowie, ainda que de um outro Bowie, aquele major Jack Celliers do filme Merry Christmas Mr. Lawrence, de 1983. E se até agora falámos apenas dos looks pensados para os homens, foi nas criações para as senhoras que começaram a aparecer os primeiros sintomas desta onda mais recente de inspiração em Bowie. A revista online Style assinalou no princípio de 2011 essa influência, demonstrando a presença do Camaleão nos mais diversos desfiles de moda. A Givenchy, sob a direção criativa de Riccardo Tisci, apresentou para a primavera de 2010 um casaco copiado do período glam. Ao mesmo tempo, os jumpsuits e os cabelos vermelhos de Ziggy Stardust foram recriados por Jean-Paul Gaultier, enquanto Chloé fazia desfilar em Paris calças de cintura muito alta em tecidos muito fluidos, como David Bowie usava em 1970.

David Bucley, biógrafo e autor de livros como ‘The Complete Guide to the Music of David Bowie e Strange Fascination: David Bowie – The Definitive Story’ afirma:

A sua influência foi única na cultura popular – ele entrou e alterou mais vidas do que qualquer outra figura comparável.”

E de tal forma o fez que o que foi visto como estranho, desadequado e incompreensível há cinquenta anos faz hoje parte da cultura mainstream e concretizou-se em 2012 plenamente na indústria da moda. Mas o processo de aceitação e assimilação de Bowie foi difícil.

O primeiro tema bem-sucedido de David Bowie é de 1969. Oportunamente lançado poucos dias antes da chegada do primeiro homem à Lua, Space Oddity faz a banda sonora de toda a transmissão da BBC, sobre a viagem da Apollo 11. Poucos dias depois o single atinge o top 5 do Reino Unido e o aspeto de David Bowie começa a impressionar, sobretudo pela sua androginia, ainda que a sua imagem não seja muito elaborada e se confine ao imaginário hippie. Quando, em 1972, surge Ziggy Stardust a personagem está perfeitamente construída, previamente estudada e as aparições de Bowie são sempre performativas, histriónicas, ao ponto de se tornarem o epicentro do movimento glam-rock. As maquilhagens excessivas, o cabelo laranja, o uso de purpurinas e tecidos brilhantes, o aspeto andrógino e, claro, a performance constante fazem deste David Bowie «o Jesus Cristo do glam», como explica o fotógrafo Mick Rock, no documentário Walk on the Wildside. Mas o glam-rock, nessa altura, era a contracultura e não faz a moda. No último novembro foi este David Bowie que Inês Castel-Branco interpretou para um editorial de moda da revista portuguesa LuxWoman.

Inês Castel-Branco para a revista LuxWoman em novembro de 2015
Inês Castel-Branco para a revista LuxWoman em novembro de 2015

A aparência cedo provoca incómodo na opinião pública dos anos 1970. David Bowie vai duas vezes ao Russell Harty TV Show, em 1973 e 1975, um famoso talk show britânico, e o tema de abertura é invariavelmente a sua imagem. Na segunda presença no programa, que assinala o regresso de Bowie à Inglaterra natal, a entrevista é crispada. Quando o apresentador pergunta: “Mas não planeou o seu guarda-roupa? A sua imagem?” Bowie responde incomodado: “Sei que canções vou tocar e isso é a parte importante.” Mas será mesmo só canções?

No ano anterior, no Dick Cavett Show da televisão nova-iorquina ABC, já tinha desvalorizado a questão da imagem dizendo que se inspirava no público para criar os seus próprios figurinos. E no entanto, apesar dos suspensórios, do fato completo e da gravata lhe darem um aparente aspeto convencional, uma bengala, os enchumaços nos ombros, os cabelos louros acobreados e a maquilhagem reforçam o aspeto dramático da interpretação que faz dele mesmo. Na verdade esta forma de estar é já um prelúdio do duque de postura negligée que está para nascer.

Imparável, inconformado, faz surgir o aparentemente sóbrio Thin White Duke em 1976 e a personagem confunde-se com o artista. Pouco depois muda-se para Berlim Ocidental e as roupas que usa nas suas performances tornam-se na melhor expressão da moda de rua que se aproxima. Nos anos 1980 o público assume os cabelos assimétricos, com cortes geométricos, e os ombros sobredimensionados com enchumaços evidentes. Nesta década esses pormenores são assimilados pela arte de vestir. Mesmo assim, no desfile de Yves Saint Laurent, de 1980, por exemplo, o excesso dos brilhos desaparece.

A partir daqui é difícil destrinçar se é a moda que influencia o artista se o contrário. Sempre conte contemporâneo do seu tempo, como um dia afirmou, passa musicalmente pela industrial, techno, dance music, regressa ao acústico, ao rock e os figurinos que escolhe estão sempre de acordo com a música que toca. Mas são sempre o melhor e mais estilizado de cada estilo. E são também sempre aceites pelo público e pela crítica, havendo uma assimilação quase imediata das tendências que Bowie dita.


Reações ao desaparecimento de David Bowie.


David Bowie não gravava um disco desde 2003, quando em 2013 lançou ‘The Next Day’. O longo silêncio foi quebrado e no vídeo do primeiro single do novo álbum, embora remetendo para o período de Berlim, não existem referências significantes à moda. Mas o pequeno filme tornado público com o lançamento do álbum ‘The Next Day’, ‘The Stars (are out tonight)’, é inteiramente auto-referencial. David Bowie interpreta um homem de meia-idade normal, enquanto o estilo do camaleão dos anos 70 é glosado por personagens muito mais novas, supostas estrelas main-stream. No decorrer da narrativa a personagem de David Bowie (e a chata mulher do protagonista do vídeo, interpretada por Tilda Swinton) acabam por se reapropriar dos estilos bowianos: primeiro o Young Americans, depois o Thin White Duke, de seguida o major Jack Celliers até chegar ao smoking em brocado dos anos 90. Os novos tornam-se chatos e o original Bowie retoma o seu lugar de estrela. Assim estávamos em 2013, o ano do senhor David Bowie na música e na moda. Bowie voltava a ditar as regras, a dizer qual seria a próxima tendência e estava certo: os anos seguintes houve uma afirmação do conceito ‘embrace your weirdness’, o ‘sê tu próprio’.

O álbum ‘Black Star’ foi lançado na última sexta-feira. O single ‘Lazarus’ passa a ter mais significado desde esta manhã. E para a moda também. O fato de malha que Bowie enverga no vídeo é outra vez a versão mais refinada de uma das tendências fortes da estação, justamente as malhas. E como todas as outras peças que usou nas suas performances também esta será glosada, nas próximas estações. David Bowie morreu hoje, aos 69 anos vítima de um cancro diagnosticado há 18 meses. O disco que acabou de chegar ao mercado será n.º1 nas tabelas de todo o mundo. A moda continuará a prestar-lhe homenagem ou a ser ditada por ele por muitos mais anos.

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