Subir

De apanhadora de ameixas em Elvas a médica

Adelaide Brazão Cabete foi uma das primeiras médicas portuguesas, formando-se em 1900 com uma tese que defendia o acesso à saúde das grávidas pobres. Nasceu em Alcáçova, perto de Elvas, em janeiro de 1867. Filha de trabalhadores agrícolas, cedo fez a apanha da ameixa e outros trabalhos no campo. Chegou também a servir em casas abastadas elvenses.

A vida da jovem alentejana mudou com o casamento aos 18 anos com o sargento Manuel Cabete, um intelectual republicano que incentivou a mulher a estudar. Foi com 22 anos que Adelaide Cabete completou o ensino secundário e com 27 o liceal. Admitida na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, formou-se em medicina com 33 anos, sendo então já uma fervorosa militante republicana, crítica da monarquia e da Igreja Católica.

 

Abriu consultório de ginecologista na praça dos Restauradores, em Lisboa, mas sempre com intervenção política em paralelo, muito centrada na defesa do acesso de todos à saúde. Em 1910, ajudou a costurar a bandeira republicana hasteada no 5 de Outubro pelos revolucionários na Rotunda, onde hoje fica a praça Marquês de Pombal, no coração de Lisboa.

Oradora dotada, Adelaide Cabete representou Portugal em congressos feministas na Europa e nos Estados Unidos e aderiu à maçonaria, na qual alcançou o grau de venerável. Depois de enviuvar, manteve-se ativa politicamente e desagradada com o novo regime nascido em 1926 parte três anos depois com um sobrinho para Angola, onde defenderá o direito dos negros à saúde. É na então colónia africana que se torna a única mulher em Luanda a votar no referendo constitucional de 1933.

Regressa a Lisboa em 1934 e adoece. Morreu em setembro de 1935. Teve direito a uma biografia pela historiadora Isabel Lousada, a constar em selos, a dar nome a uma rua de Lisboa e é também nome de escola secundária em Odivelas (foi professora no Instituto Feminino). Foi condecorada a título póstumo em 1995. Uma das suas propostas políticas há cem anos foi dar um mês de descanso às mulheres antes do parto.

Leonídio Paulo Ferreira