‘Deusas em Fúria’, um retrato da amizade feminina

Lisboa-07/06/2016-Fotografar três atrizes indianas do filme "Deusas em Fúria".
(Paulo Spranger/Global Imagens)

Pavleen Gujral, Amrit Maghera e Anuska Manchanda estiveram em Portugal para promover o filme que estreia esta quinta-feira no cinemas, ‘Deusas em Fúria’. Elas são três das sete eleitas por Pan Nalin, o realizador, para um filme que ficará para a história da filmografia indiana como o primeiro que tem apenas mulheres como protagonistas, que gira apenas em torno do universo feminino.

O filme gravado em Goa retrata o encontro de sete amigas que se preparam para o casamento de uma delas e no decorrer da ação vemos toda a diversidade indiana – as regiões, os credos, a tradição, a modernidade. E vemos, como dizem as atrizes, “o que acontece quando boas amigas se juntam”. Este filme é sobre a autodeterminação e a amizade femininas, não só das indianas, mas de todas as mulheres. E é por isso que vale a pena ir vê-lo.

Este filme não é um filme de Bollywood. Como é que o descrevem?

Anuska Manchanda (AnM) – É um retrato muito realístico da mulher indiana urbana.

Amrit Maghera (AM) – É uma fatia da vida das mulheres, quando estamos sete mulheres juntas, a loucura, o riso, as lágrimas e tudo o que implica ser mulher, universalmente.

Pavleen Gujral (PG) – E é muito verosímil. Creio que é por isso que tem corrido tão bem internacionalmente, as mulheres e os homens conseguem estabelecer uma ligação com o filme, com uma ou mais personagens. É um retrato verosímil das pessoas e das relações,

Como é que conseguiram estes papéis?

AnM – Não sabemos muito bem. [risos] Tinham uma lista de 800 candidatas, dessas fizeram uma seleção para 300 e depois houve audições. O nosso produtor disse-nos que tinham fotografias de todas as mulheres e um pequeno vídeo. Não estava estabelecido o número de pessoas que iam contratar para o filme, queriam apenas fazer um grupo de mulheres que funcionassem bem juntas e nesse processo chegaram à conclusão quer seríamos nós as sete.

AM – Eu estava em Londres nessa altura e lembro-me de que o diretor do casting voou para a cidade para se encontrar com algumas atrizes. Eles queria alguém que vivesse fora da Índia entrasse no filme. Sempre que sei que vou a uma audição para um filme de Bollywood normalmente visto-me bem, maquilho-me. Mas sentia-me mesmo doente nesse dia e por isso não pus maquilhagem, fui normalmente, e ainda bem! Foi uma coisa boa porque não era suposto para o filme sermos mulheres a usar carradas de maquilhagem. A ideia era sempre que fossemos reais. Estou mesmo contente por ter estado doente nesse dia. [risos]

Não se conheciam antes do filme e agora dizem que são muito amigas. O que é que aconteceu na filmagem?

PG – Temos que atribuir esta amizade ao casting. Escolheram mulheres que são muito reais, muito verdadeiras, que não usam máscaras. Sozinhas ou juntas, nós somos mulheres reais. Creio que a nossa amizade também se desenvolveu por causa dos workshops que fizemos antes do filme. Nos primeiros dias que estivemos juntas não filmámos, fizemos workshops. Na verdade, quando recebemos as condições do contrato, o que dizia é que íamos fazer um retiro de atores, nunca nos disseram que íamos fazer um filme.

AnM – Disseram-nos que queriam fazer um filme mas que logo se veria.

AM – Foi um processo muito delicado.

PG – Quando chegámos começamos a fazer os workshops. Disseram-nos que tinhamos de abandonar os nossos demónios e aceitar os demónios da personagem. Esse foi o objetivo de todos os workshops. Quando nos convencemos que estávamos completamente dentro das personagens foi quando começámos a filmar. Foi cerca de 10 dias.

AnM – E fizémos algumas coisas estranhas. Exercícios em que nos batíamos, outros em que ficávamos simplesmente a olhar uma para a outra, ou andar na sala e parar para nos olharmos.

AM – Foi surpreendente. E ficar vulnerável em frente de outras pessoas também nos une numa estranha química.

Este processo é muito diferente do que é habitual nas filmagens para cinema?

AM – Sim. É um privilégio. Eu comecei agora a fazer uma série para televisão, que também estou a adorar, mas é muito mais sobre ensaiar, estar nas posições corretas, dizer as falas, ter guiões. Este filme foi muito diferente, criámos juntos uma peça de arte. Pusemos o nosso coração, a nossa alma e as nossas lágrimas neste filme.

PG – Esta forma de fazer cinema é muito rara e devia ser mais encorajada, porque se consegue uma reação natural, verdadeira, dos atores. Já há conferências sobre o nosso filme, quem estuda cinema quer saber como é que fizemos este filme. Internacionalmente esta é uma forma de filmar muito popular. Há muitos realizadores que trabalham com a improvisação.

AM – Mas acho que nem toda a gente tem tempo para fazer um filme nestas condições. E é um grande risco, ninguém sabe muito bem o que vai acontecer.

A proximidade entre as personagens e as atrizes tem de ser imensa.

AnM – Eu creio que o que nos disseram foi para escrevermos as nossas personagens, diversas vezes. Deram-nos um papel com duas colunas, numa devíamos escrever as nossas características, na outra as da personagem. Devíamos também identificar similaridades e diferenças. Depois davam-nos sugestões de forma muito gentil: “Achas que a tua personagem também poderia ser de determinada forma?” Portanto, sim, creio que há um pouco de cada uma de nós nas nossas personagens. Talvez não tanto a Suranjana [interpretada por Sandhya Mridul] que é super teimosa e na realidade muito a Sandhya é muito divertida. Portanto, há coisas em comum… a linha é ténue. Agora, a comunicação que conseguimos criar entre nós creio que é o tipo de comunicação que devia existir entre os casais, entre as famílias, porque nós tivemos tempo e ficar a olhar para umas para as outras. As pessoas normalmente não têm esse tempo.

Qual foi a vossa reação quando viram o filme pela primeira vez?

PG – Soluçámos! Desatámos a chorar!

AnM – Sim! E quando o filme atinge o clímax estávamos todas de mãos dadas.

AM -Sim. Sabíamos o que ia acontecer a seguir mas como vivemos mesmo aquele momento foi muito emocionante.

Qual é o assunto do filme?

PG – Acho que toda a gente tem uma ideias diferente do filme. Para mim, é um filme sobre a amizade, sobre a vida. É uma parte da vida de todas as pessoas, das relações que queremos manter e as que não queremos, sobre como temos de respeitar os outros.

AM – Também acho que é sobre isso mas acho que é sobretudo um filme sobre mulheres que se apoiam mutuamente, que se ajudam, que não competem umas com as outras. é um filme sobre autodeterminação e empoderamento e sucesso das mulheres apoiadas por outras mulheres. É sobre libertar as nossas deusas interiores, afirmarmo-nos pelas coisas em que acreditamos, ter uma voz, não a suprimir.

AnM – E uma coisa importante. Todas estas mulheres do filme são imperfeitas. Têm falhas. E na realidade também não somos perfeitas. Este filme ensina-nos a sermos nós próprias, a aceitarmo-nos a nós e umas às outras. Só conseguimos fazer coisas fabulosas quando nos aceitamos verdadeiramente, quando somos verdadeiras connosco. Na vida nem sempre há finais felizes, como nos filmes, mas pelo menos há verdade.

Há uma mensagem forte sobre o empoderamento das mulheres e também um contexto de oposição entre uma parte da sociedade mais ocidentalizada e outra mais tradicional patente no filme. É a Índia de hoje neste retrato?

AnM – Não acho que exista essa mensagem. O que acontece é que o nosso país está avançar muito depressa, temos raízes culturais muito fortes mas ao mesmo tempo estamos expostos ao que se passa no mundo, pelo que estamos a crescer muito depressa. Há uma espécie de conflito mas na verdade é muito fácil adotar as duas maneiras em simultâneo – torno-me uma pessoa mais forte para lidar com o mundo porque tenho uma visão global, mas ao mesmo tempo respeito a minha família e a opinião dos mais velhos. Devíamos ser capazes de ter uma mistura de ambas, de outra forma como é que vamos sobreviver? No nosso caso, a taxa de crescimento é muito mais alta do que a de conhecimento e esse é o problema. Este filme é sobre as mulheres das cidades, no campo as mulheres são completamente diferentes.

‘Deusas em Fúria’ é uma espécie de ‘Sexo e a Cidade’?

PG – Não…

AM – Eu penso que o início do filme e algumas cenas de diversão pelo meio do filme podem fazer que é um filme desse género. Mas nós vamos para zonas muito mais sombrias… Acho que não é nada ‘Sexo e a Cidade’.

AnM – Eu acho que é um truque do nosso diretor. Dar essa impressão com o primeiro plano e logo a seguir percebe-se que não é nada disso o filme.

PG – Mas é o primeiro filme de mulheres, é natural que se façam essas comparações porque esse era, de facto, “o” filme das mulheres. Era a epítome da amizade feminina.

Mas diriam que as preocupações das vossas personagens são muito diferentes das do filme americano?

AM – Algumas são semelhantes: a busca pelo amor.

PG – Os problemas com os namorados, com os maridos.

AnM – Há semelhanças, claro. É uma questão de semelhança entre todas as mulheres do mundo. Todas temos preocupações semelhantes. Uma mulher que trabalhe fora de casa na Índia tem de pensar se quer ter filhos ou não, ou se quer adiar a carreira, e provavelmente uma mulher em Portugal tem de pensar no mesmo: se pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Creio que as questões que se colocam às mulheres à volta do mundo são muito semelhantes. Há questões tipicamente indianas, claro que há, mas basicamente são as mesmas por toda a parte.

Há um conflito tangível entre a tradição e a modernidade das mulheres, na Índia?

AnM – Talvez. Nas cidades as mulheres estão a lutar para não serem casadas contra a sua vontade, como no filme, ou a lutar contra sistemas muito antigos de organização da sociedade. Mas há grandes diferenças, há uma lacuna na educação, também nas infraestruturas. É realmente difícil sobreviver na Índia. Nas aldeias as pessoas estão afetadas pela falta de água, pela seca, pelas colheitas… é muito mais complicado. Nós nas cidades estamos a pensar se devemos ter filhos ou não e eles têm de pensar…

AM – …como é que vão conseguir a próxima refeição.

PG – Há uma grande divisão entre a Índia urbana e a Índia rural. É enorme. A urbana está a avançar muito depressa e a rural a ficar para trás. O progresso está a acontecer apenas em algumas secções do país. Mas as coisas estão a mudar, o Governo está a fazer emendas. Mas como a diversidade é imensa, como temos tanta diversidade de culturas, tantos tipos de pessoas e a população é imensa é difícil que todos avancemos ao mesmo tempo.

AnM – A política… Supostamente somos um país secular, mas os políticos usam constantemente a região de onde se é e a religião para nos dividir. Se fossemos unidos, todo o país unido, independentemente das diferenças, acredito que a situação mudaria rapidamente.

O elenco deste filme mostra essa ideia de harmonia muito bem. As atrizes têm origens completamente diferentes. Foi mesmo fácil lidar com as vossas diferenças?

AM – Sim. Desfizemos as diferenças logo no princípio e no final das contas éramos só mulheres, juntas. Não importava de onde vínhamos. É a sociedade que nos coloca esses rótulos.

AnM – E somos todas de cidades, portanto temos as mesmas preocupações. A preocupação das pessoas mais jovens não é a religião, é muito mais o ambiente, a nossa vida profissional, o que é que se passa na sociedade e na política.

PG – Mas o nosso filme tem pessoas de todas as classes da nossa sociedade. Mesmo nas cidades temos pessoas de todas as classes da sociedade, com diferentes contextos e isso também é retratado neste filme.

 

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