Dia de quem? Não quero ser mãe, obrigada!

Em Portugal, 8% das mulheres em idade fértil não querem ter filhos, segundo dados da Pordata de 2011. São cada vez mais aquelas que, apesar do estigma social, se identificam com o movimento “childfree” definitivo que, na Holanda, já chega aos 18%.

Ana Mateus, 32 anos, enfermeira, integra o grupo. “Nunca senti vontade e, com a minha profissão penso que não teria disponibilidade para dar a uma criança a atenção que ela requer e merece”. Dizem-lhe muitas vezes que daqui a alguns anos se irá arrepender ou tentar engravidar a todo o custo, mas Ana discorda.

“Parece-me que o tic-tac do relógio biológico não me irá afetar e, por outro lado, ser mãe não me define como pessoa e muito menos como mulher”.

Admite nunca ter sido fascinada por crianças: “Gosto de umas, de outras nem tanto. E depois de as ter é impossível devolvê-las”, brinca.

“É inconsciente arriscar a experiência só por que é suposto que assim seja”.

Paula Figueiredo*, 50 anos, marketeer, também não se revê na maternidade. “Nunca senti o desejo”, garante. Na juventude, muitas das suas amigas até tinham definido com que idade queriam ser mães e os nomes das suas crianças antes conhecerem o potencial pai. Já a ela não lhe passava pela cabeça a possibilidade de ter filhos. “Enquanto elas não concebiam a ideia de não os ter”, recorda.
Biologia ou ideologia?
Afinal, parece que a biologia não condiciona e obriga as mulheres a serem mães para se sentirem completas enquanto seres humanos.

“A escolha de não ter filhos pode ser uma preferência genuína da mulher por se sentir realizada com projetos de vida de outra natureza. Diria que esta é a situação mais saudável porque não é reativa a fatores externos da personalidade e será consonante com um desejo interior da mulher”, diz a psiquiatra Joana Gonçalves.

Aliás, o mito do instinto maternal já foi deitado por terra nos anos 80 pela socióloga feminista Elisabeth Badinter. Segundo a francesa – que é mãe de três filhos – não existe vocação natural para a maternidade. As suas pesquisas sobre a gravidez e amamentação ao longo dos últimos séculos mostraram que a maioria das crianças era completamente negligenciada e entregue a amas-de-leite a troco de dinheiro. Para as mulheres da alta burguesia chegava mesmo a ser desprestigiante ocuparem-se da prole, enquanto que para as operárias, dada a jornada de trabalho, se tratava de uma tarefa impossível. Na maioria dos casos, eram vistas sobretudo como um par de braços extra e útil para ajudar na economia familiar.
Curiosamente, segundo dados o INE, 67% das mulheres que rejeita a maternidade aponta como principal motivo a falta de condições económicas para o fazer.

“Hoje em dia antes de se ter um filho pensa-se no seu bem-estar”, explica Manuela Tavares, investigadora social e fundadora da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). “As crianças já não são uma mais-valia económica; pelo contrário, exigem tempo que os pais não dispõem precisamente porque estão a trabalhar para poderem providenciar o tipo de educação que é socialmente exigida”.

Significa isto que são cada vez mais planeadas “o que se trata de um fator de desenvolvimento e positivo na sociedade”, afirma. No entanto, “a pressão mantém-se para que se continue a procriar, até por motivos demográficos e dado o envelhecimento populacional”, alerta, “quando se devia ter em conta um fator muito importante: o desejo da maternidade”.
A efetiva conciliação do tempo entre família e filhos e os restantes projetos de vida é um assunto mal resolvido na sociedade portuguesa, em que a partilha das responsabilidades domésticas e familiares penaliza especialmente as mulheres e agrava-se quando estas se tornam mães. Segundo os dados do estudo ‘Homens, papéis masculinos e igualdade de género’ (2014), liderado pelas investigadoras Karin Wall, Vanessa Cunha e Leonor Rodrigues, os homens portugueses gastam oito horas por semana em tarefas domésticas, ao passo que as mulheres gastam 21. Também nos cuidados familiares a divisão de tarefas não é equilibrada. Eles despendem 9 horas por semana e elas 17.


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Mãe, mulher, pessoa
Luisa Beltrão, 47 anos, professora do ensino secundário, consciente do lufa-lufa que é ser mãe e profissional a tempo inteiro, foi adiando a maternidade.

“Via as minhas colegas na escola exaustas, mal-dispostas, quase doentes. Se já não sentia o apelo da maternidade, perante tal cenário decidi que aquela vida não era para mim”, recorda. “Apesar de elas dizerem que bastava um sorriso dos fedelhos para tudo valer a pena, eu não acreditava”.

Quando casou, por volta dos 37, ainda ponderou engravidar. “Mas não aconteceu e eu tinha deixado claro ao meu marido que não me iria sujeitar a tratamentos de fertilidade”. Hoje, acha que a natureza foi sua aliada. “Não é que não goste de crianças, mas adoro o meu estilo de vida”. Pinta nos tempos livres, tem uma vida social intensa, e viaja sempre que pode. Nesta altura da vida dá sobretudo valor ao companheirismo e cumplicidade que partilha com o marido, se não tinha optado pela adoção.

“Há quem me acuse de egoísmo, mas eu penso que egoísta é quem tem filhos para preencher os vazios das suas vidas”.

Paula Figueiredo é da mesma opinião: “Costumava dizer, a brincar, que algumas pessoas querem é ser recordadas para a posteridade e, na impossibilidade de terem uma estátua no Marquês de Pombal, têm filhos”. Segundo a marketeer, alguns pais são nitidamente incompetentes e geram filhos só porque “faz parte”. “Ser mãe ou pai para mim é um enorme ato de amor, de quem põe os interesses da criança acima de tudo e, infelizmente, nem sempre é assim”, avança. “E ter filhos para ter alguém que cuide de nós na velhice pode até resultar em relações afetivas felizes mas não me parece um bom princípio, de todo”.
E como fugiram da pressão social? “Tornei-me mestre em mudar de conversa!”, diz Paula. “Mas na verdade nunca senti que existia uma grande expectativa sobre o facto de eu vir a ser mãe, nem que estava a impedir os meus pais do direito de serem avós, até porque já tinham uma neta”. Além de que, desde cedo, os familiares perceberam e aceitaram que a sua natureza era diferente: quando devia estar a pensar em casar e engravidar foi estudar para o estrangeiro, algo inédito numa família tradicional como a sua.
Luísa Beltrão sempre recebeu o apoio da família, mas as colegas de trabalho nunca perdiam oportunidade para a questionar sobre uma possível gravidez. Calou-as com a alegada “infertilidade”, “mas é uma estupidez pensar-se que uma mulher casada não possa optar livremente por um estilo de vida que dispense fraldas e biberões”, opina.
Ana Mateus, por seu lado, vai sobrevivendo às indiretas da família. “Ajuda não ter uma relação estável”, confessa. O que a irrita é a descriminação no trabalho. “Pensam que não tenho vida própria e que estou sempre disponível para trocar turnos ou fazer horas extraordinárias”. Tal como a enfermeira, Paula Figueiredo também é muitas vezes considerada como presença segura quando é necessário ficar até mais tarde no escritório ou viajar. “Às vezes não custava, pelo menos, perguntar.” Porque, demonstram as três: há vida além da maternidade.

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