Diário de uma voluntária, cap. V, os refugiados chegaram

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As noites são longas no campo Better Days For Moria. Depois de vários dias sem a chegada de barcos, devido ao mau tempo, os 2 últimos dias foram um non stop de refugiados a chegarem à ilha. É difícil contabilizar o número. Depois de desembarcarem nas praias, os refugiados são levados, em autocarros do ACNUR, Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, para o campo de registo. E aqui os voluntários do campo ao lado do campo de Moria, como eu lhe chamo, não têm acesso. É difícil saber quais as necessidades reais e o número de refugiados que está lá dentro.

Os que chegam ao campo Better Days For Moria são trazidos por voluntários de outras ONG´s que conseguem convencer as autoridades de Moria que eles precisam de ajuda imediata. São casos de pessoas completamente encharcadas com crianças pequenas que precisam de atenção antes de irem para a fila de registo. Nestas noites não paramos, não há tempo para nada. Chegam ensopados, descalços e apáticos. Olhar nos olhos destas pessoas é morrer um pouco por dentro. Engulo as lágrimas sempre que me deparo com crianças molhadas até ao pescoço sem chorarem, de tão exaustas e assustas que estão. Assistir à intransigência das autoridades que gerem o campo de registo e à sua imunidade ao sofrimento faz-me sentir que há algo de muito errado neste cenário. Mas não há tempo para pensar. Simplesmente agimos.
Damos roupas secas, sapatos, meias e tentamos, num breve período, atenuar o peso daquela viagem. Devolver um pouco da dignidade perdida numa travessia paga a peso de ouro e muitas vezes também com a vida. Desde janeiro de 2016 já morreram no Mar Egeu 96 pessoas a tentar chegar à Grécia, número que não inclui as mortes do lado turco. Tento fazer esta viagem na minha cabeça e colocar-me no lugar destes refugiados, um exercício pouco fiável, mas tento. Depois de fugirem à guerra, no caso dos sírios, chegam à Turquia. Se tiverem sorte e dinheiro tentam atingir Europa. Um traficante vende-lhes a viagem. Coloca-os a meio da noite, num bote de plástico, como o que se vê na imagem, sobrelotado, montado e navegado pelos próprios. É literalmente um tiro no escuro.


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Em conversa com um refugiado sírio, por razões de segurança vamos chamar-lhe Mustafa, fico a saber o motivo pelo qual os refugiados dizem todos desejar ir para a Alemanha e Áustria. É porque estes foram os países que se predispuseram a receber refugiados. Caso digam outro país não recebem os documentos para continuarem viagem. Mustafa tem a cabeça a prémio na Síria, porque é contra o regime de Bashar Al-Assad, está na lista negra das autoridades, e não pode voltar a ver a sua família, enquanto o atual presidente estiver no poder. Como ele existem muitos.

Esta crise humanitária além de mal gerida pelos líderes europeus, trouxe muito medo às populações. Eu própria me questiono.

A situação aqui em Lesbos está a mudar. Mas ninguém realmente sabe em que direção. A União Europeia está cada vez mais a pressionar a Grécia a tomar medidas para controlar as suas fronteiras. Os chamados “hotspots”, centros de registo e seleção de refugiados e imigrantes, deverão começar a funcionar ainda esta semana, mas em que formato e como estes vão afetar o trabalho no terreno das ONG ninguém sabe. A presença da NATO no mar Egeu é um facto. De momento, só podemos esperar para ver o que vai acontecer e o que isso significa para a situação dos refugiados.

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