Diário de uma voluntária num campo de refugiados, #SafePassage

Depois de 12 dias a fazer turnos fiz uma pausa. Dormi 16 horas consecutivas. Tantas emoções por processar, sinto-me exausta. Penso nos outros voluntários, que estão aqui há 3 e 4 meses e naquilo que eles já viram e tiveram que lidar. Todos os dias confrontados com situações extremas. Como na noite em que tivemos a informação de que 60 refugiados estavam a andar sozinhos do norte da ilha para o sul. Provavelmente oriundos de um barco que se desviou da rota e desembarcou sem aviso e nenhuma ONG estava lá para o assistir.

O alarme foi dado por alguém que passou por eles por coincidência. Depois do alerta, uma equipa do campo Better Days For Moria foi ao seu encontro. Tarde demais para, pelo menos, um refugiado. Quando chegámos, distribuímos os cobertores e a comida que trazíamos nos 2 carros. Um homem veio ao nosso encontro a pedir ajuda. Percebemos que não era para ele mas para um amigo, e mostrou-nos as suas mãos. Os dedos estavam negros. Tinha queimaduras da ponta dos dedos até à falange média, devido à exposição a temperaturas negativas. Percebemos que, muito provavelmente, as pontas dos dedos seriam amputadas.


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Avisámos o campo para que a equipa médica estivesse pronta para receber aquele caso. Quando regressei ao campo estava ainda anestesiada pelo frio, mas por dentro sentia uma revolta crescente. Revolta por saber que estas situações poderiam ser evitadas se esta crise fosse gerida de forma inteligente e humana. Por saber que estes refugiados arriscam a vida numa travessia que seria desnecessária se esta não fizesse parte de uma indústria que gera milhões de euros. De referir que numa noite, com a chegada de 10 barcos, os traficantes conseguem fazer cerca de 500 mil euros. Não é necessário ser um génio em matemática para concluir que esta crise humanitária serve muitos interesses.

Sentia revolta por ver crianças descalças e cheias de frio serem colocadas durante 4 horas, num dia bom, numa fila de registo. Ou ainda de ver refugiados a serem enganados por taxistas que cobram 50 euros por uma viagem que normalmente custa 10. E finalmente a assistir à incompetência dos governos da Europa que em vez de encontrarem chaves, demitem-se de culpas e fecham fronteiras como se esta fosse a solução mais viável e inteligente.
Com as baterias recarregadas fui descobrir a parte norte da ilha, a mais próxima da Turquia, acompanhada por um outro voluntário. Visitámos a Lighthouse Relief uma ONG sueca e também o cemitério dos coletes salva-vidas recolhidos nas praias de Lesbos. São milhares de coletes que não merecem o nome de salva-vidas porque ao invés de salvarem tiram vidas.

Os coletes são na sua maioria falsos feitos de materiais que ensopam em vez de flutuarem. Eles são também o símbolo desta crise humanitária e refletem todos os seus ângulos. Refletem a esperança dos refugiados para um futuro melhor e a indústria parasitária à volta dos mesmos. Refletem ainda a falta de valores éticos e humanos de todos os protagonistas desta crise, desde os governos da Europa aos traficantes.

É um local sinistro onde não pude deixar de lembrar as centenas de pessoas que morreram a tentar chegar à Grécia. Para travar este flagelo, é urgente exigir a criação de rotas seguras e legais para que os refugiados consigam chegar à UE e requerer asilo sem terem de atravessar o mar em barcos sobrelotados. De uma forma ou de outra, os sírios, iraquianos e afegãos vão continuar a tentar chegar à Europa, porque não têm escolha. Porque não fazê-lo de forma segura e controlada?

A Marcha Europeia pelos Direitos dos Refugiados que vai ter lugar sábado, dia 27 de fevereiro, em todas as cidades europeias, incluindo Lisboa, é um importante passo para chamar a atenção dos líderes do velho continente. Nunca é demais frisar que desde o início de janeiro já morreram cerca de 96 pessoas a tentar fazer esta travessia. Do campo de refugiados Better Days For Moria, em Lesbos, numa só voz pedimos #SafePassage. Uma passagem segura para os refugiados e para um futuro em paz.

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