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Diferentes na biologia sim. Inferiores não, dizem mulheres na tecnologia

Os comentários de um funcionário da Google sobre a capacidade e apetência das mulheres para as tecnologias marcaram a semana, no que toca às questões da igualdade de género. Falámos com um coletivo de mulheres desta área para perceber se as diferenças apontadas pelo engenheiro de software, entretanto despedido, têm algum tipo de fundamento. “Concordamos evidentemente que haja diferenças biológicas entre o homem e a mulher. O reconhecimento e aceitação dessas mesmas diferenças não podem, no entanto, ser interpretados como a aceitação de que as mulheres têm uma condição inferior”, dizem ao Delas.pt, Carolina Frias, Isabel Lafaia, Elizabeth Cruz e Sara Antunes, os membros das R-Ladies Lisboa. Esta comunidade internacional foi fundada em São Francisco, EUA, no ano de 2012, pela brasileira, especialista em estatística, Gabriela de Queiroz. Atualmente, a comunidade está representada em mais de 45 cidades no mundo. A Portugal chegou no final de 2016. O objetivo é promover a entrada de mais mulheres nas áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. O “R” refere-se a uma linguagem de programação open source, que, no mesmo espírito de comunidade, pretende promover um espírito de entreajuda entre os seus utilizadores, referem na entrevista.

O que é a R-Ladies?
As R-Ladies são uma organização mundial que promove a diversidade de género na comunidade R e nas áreas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics – em português, Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). R é uma linguagem de programação muito utilizada na análise de dados. Existem já mais de 45 grupos R-Ladies distribuídos por 5 continentes.

Que tipo de atividades organiza?
Cada grupo R-Ladies de uma determinada cidade é único e personaliza os seus eventos, desde que estejam de acordo com a política global. No caso das R-Ladies Lisboa, costumamos organizar workshops orientados para a aprendizagem da linguagem de programação R e seus componentes, de forma a facilitar a entrada de muitos membros da nossa comunidade no mundo do Data Science. Costumamos também convidar oradores com experiência na área de Análise de Dados para partilharem a sua história e os seus conhecimentos.

A R-Ladies Lisboa foi fundada em outubro de 2016

 

Como chegou a Portugal, a Lisboa?
A iniciativa surgiu como um desafio de um data scientist [cientista de dados] com experiência na área e que partilha de alguma da filosofia desta comunidade global. Os membros fundadores são duas mulheres [Carolina Frias e Andreia Carlos] e cujo background não é a ciência de dados, mas que se foram apaixonando pela área no início das suas carreiras profissionais.

Um dos objetivos é promover o papel da mulher na comunidade? Que comunidade, em concreto?
Sim, esse é um dos nossos objetivos. Este grupo está ligado a uma linguagem de programação open source, que também promove um espírito de comunidade e entreajuda entre os seus utilizadores. A linguagem em questão chama-se “R” e surgiu como uma ferramenta da análise estatística.

Ao mesmo tempo o R-Ladies é aberto a todos. Porquê?
Apesar de incentivarmos fortemente a participação das “Ladies”, temos também todo o gosto em termos membros “Gentlemen”. Não queremos ser uma comunidade totalmente feminina, mas sim mista, onde homens e mulheres colaboram entre si com igualdade. Não podemos defender a igualdade de oportunidade e ao mesmo tempo excluir da nossa comunidade alguém com base no seu género. A mensagem que queremos passar tem de ser transmitida entre as mulheres, mas também entre os homens.

Quantos membros tem a comunidade em Lisboa?
Atualmente somos 256 membros na comunidade R-Ladies Lisboa.

Fala-se muito da pouca representatividade das mulheres nas empresas de tecnologia. Qual é o cenário atual e que progressos registam até à data?
Nos últimos anos a participação das mulheres portuguesas na tecnologia tem registado evidentes aumentos. Há cada vez mais mulheres a ocupar cargos técnicos nas empresas, no entanto, ainda estão em minoria. Mas tem havido progressos, sem dúvida, seja na criação de comunidades e grupos que incentivam a participação das mulheres nas áreas STEM, seja a nível do reconhecimento do impacto das mulheres nessas áreas através de prémios e apoios.

Qual é a sua opinião em relação às declarações que o funcionário da Google fez sobre as mulheres nas empresas tecnológicas?
Tenho a dizer que concordamos evidentemente que haja diferenças biológicas entre o homem e a mulher. O reconhecimento e aceitação dessas mesmas diferenças não podem, no entanto, ser interpretados como a aceitação de que as mulheres têm uma condição inferior. Somos apenas diferentes, nada mais. Direitos e deveres todos temos, e a nossa comunidade pretende que a lista dos mesmos não seja distinta para homens e mulheres. O salário tem de ser baseado na competência e não no género, as licenças de paternidade devem ser concedidas aos dois pais (e não apenas à mãe), e por aí fora. Para além de defendermos esta igualdade de tratamento, queremos sobretudo incentivar as mulheres a seguirem os seus sonhos e a não desistirem de ingressar num curso ou profissão por ser uma “área de homens” – estes dogmas não podem nem devem existir.

O que deve ser feito para rebater os preconceitos e aumentar a taxa de participação feminina nesta área?
Penso que a mudança deve ocorrer desde o jardim-de-infância, onde há já uma predefinição do que são brinquedos para raparigas e o que são brinquedos para rapazes. Enquanto as raparigas brincam com bonecas, os rapazes brincam com carros telecomandados, legos, robots e jogos de computador/consola, o que lhes permite estar mais perto da tecnologia e do pensamento analítico desde pequenos, levando-os a interessarem-se mais e desde muito cedo por áreas mais ligadas à tecnologia e engenharia. É importante que se perceba que as crianças não têm ainda determinadas “formatações” do seu cérebro, não devemos, por isso, limitá-las nas suas escolhas na hora de brincar, comer ou nas suas relações. Acreditamos que a partir do momento em que, desde muito cedo, não se dá igual oportunidade de escolha, estamos a limitar o seu desenvolvimento e escolhas futuros.

Ana Tomás