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BeGirl: uma solução para a menstruação das raparigas em idade escolar

Diana Sierra criou a Be Girl para dar a todas as adolescentes e mulheres a oportunidade de lidar com a sua menstruação sem constrangimentos. Em alguns lugares do mundo, estar menstruada é uma forma de prisão. Já imaginou não ter absorventes ou copos menstruais para usar nessa altura do mês e viver numa comunidade onde o período é um estigma social?

O bom design é simples, engenhoso, aspiracional e inclusivo. É nisto em que acredita a colombiana Diana Sierra, designer industrial, a residir em Nova Jersey, Estados Unidos. Já colaborou com marcas como Panasonic, Nike, Hewlett Packard até decidir mudar de clientes. Trocou estes por outros menos abastados e com um problema que hoje, aqui, neste nosso mundo, nos parece tão longínquo. Tudo aconteceu durante o Mestrado em Gestão Sustentável, na Universidade de Columbia, que a levou ao Uganda, no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Ali, em 2012, conheceu de perto um problema: as meninas com que lidava deixavam de ir à escola quando estavam menstruadas, porque não tinham meios de comprar absorventes. E Diana encontrou-a a solução: criou uma cueca penso tão fácil de usar em Portugal como no Uganda.

Com um pedaço do tecido de um guarda-sol concebeu a parte impermeável à qual coseu um pedaço de rede mosquiteira para fazer uma espécie de bolso onde as meninas poderiam colocar um pedaço de tecido. Na aparência, aquele protótipo assemelhava-se a um penso higiénico comum. Ao se aperceber que muitas meninas não tinham roupa interior, redesenhou o protótipo, transformando-o em cuecas.

Testou o produto, e a sua resposta pessoal a um problema à escala mundial passou a empresa que co-fundou com Pablo Freund, especialista no Terceiro Setor – o trabalho solidário. Juntos criaram a Be Girl, que hoje tem para oferecer dois produtos esteticamente ‘apurados’ e ecológicos. O Flexi Pad, com a forma de penso higiénico, com abas, para usar com qualquer cueca, passível de ser preenchido, no interior, com o material mais acessível à utilizadora – como tecidos, algodão, lã, ou papel higiénico; e a BeGirl Panty, com bolsa higiénica incorporada: “os produtos são projetados para trabalhar de forma holística tanto com a menina como com o seu meio ambiente. A utilizadora tem a opção de usar qualquer material seguro, absorvente e pode encher a bolsa de acordo com o seu fluxo. Os materiais são descartáveis e reutilizáveis.”

O tecido das cuecas é elástico, pelo que se ajusta a diferentes tamanhos, respirável, 100% impermeável, demora menos de uma hora a secar, depois de ser lavado – o que requer, garante a marca, pouca água. Ambos podem ser comprados online, em begirl.org (onde estão alojados vídeos explicativos dos produtos), sendo que por cada cueca ou ‘penso’ comprado, será dado outro a quem precisa. Esta dinâmica acontece no âmbito do programa EmpowerBank (empowerbank.org) e já foram distribuídas mais de 20 mil cuecas.

Em 2016, estar com o período ainda é um problema?

Sim. Segundo dados da UNICEF, uma em cada 10 raparigas africanas em idade escolar falta às aulas na altura da menstruação, porque não tem como geri-la. Muitas usam panos, e até palha, o que não só não assegura que o sangue ali fique retido, como é causa de problemas de saúde. À questão da higiene, somam-se mitos: em alguns lugares, as mulheres e raparigas são isoladas dos restantes membros da comunidade quando estão menstruadas.

A menstruação é uma questão particularmente relevante na puberdade, porque tem um efeito mais pronunciado sobre a qualidade e o prazer da educação do que os outros aspetos específicos daquela fase da vida. Sobretudo em países em vias de desenvolvimento, o número de meninas que começam a menstruar sem ter qualquer ideia do que está acontecer é muito elevado. A falta de conhecimento aliada à ausência de produtos de higiene que as auxiliem durante o período, acaba por determinar a não comparência às aulas nessa altura do mês. E, quando estão na escola, o desconforto e medo que a roupa fique manchada promove uma menor participação nas aulas e na vida da escola.

No relatório publicado pela UNESCO, em 2014, Educação para a Puberdade & Gestão da Higiene Menstrual (Puberty Education & Menstrual Hygiene Management) são referidos estudos qualitativos que concluem que o pleno envolvimento de meninas em atividades escolares é afetado negativamente na altura do período, já que muitas ficam em casa com medo de ‘acidentes’, devido a insuficientes materiais de higiene, mas também as instalações sanitárias inadequadas nas escolas e a falta de suporte influem; quando vão à escola, evitam levantar-se para responder a perguntas colocadas pelos professores ou ir ao quadro completar um exercício.

Petra Alves