Eleições espanholas sem maioria nem mulheres nas lideranças

O Partido Popular (PP) venceu, este domingo, as legislativas em Espanha, com mais votos do que em dezembro, mas ainda sem alcançar a maioria absoluta. As coligações necessárias à governação serão difíceis de alcançar depois de seis meses com tentativas de aproximação falhadas e tomadas de posição radicais, por parte dos mesmo líderes partidários que foram a votos. Os espanhóis voltaram à estaca zero? E se mudasse de líderes? E se os secretários-gerais dos partidos fossem mulheres?

Se os entendimentos se têm revelado difíceis de alcançar a nível nacional e colocado a Espanha num impasse governativo nos últimos seis meses, o mesmo não se pode dizer dos acordos alcançados em várias das suas regiões, com destaque para as duas principais cidades: Madrid e Barcelona.

Ao contrário do que acontece com as lideranças dos grandes partidos espanhóis, nas autonomias e a nível local a liderança é feminina e feita de convergências. Manuela Carmena comanda os destinos da capital espanhola à frente de uma plataforma que reúne partidos, como o Podemos e a Esquerda Unida, e grupos de cidadãos. Já a cidade catalã é dirigida por Ada Colau, o rosto da coligação de esquerda Barcelona em Comum.

Mas poderá realmente o género fazer a diferença no que toca à capacidade de fazer acordos? Cristina Cifuentes, presidente da Comunidade de Madrid, parece certa que sim. Numa entrevista dada em abril deste ano ao Yodona, suplemento do El Mundo, a dirigente do PP defendeu que nas últimas legislativas, as negociações para formar goeverno tiveram “muita testosterona” no meio.

“Em geral, nós, mulheres, somos muito mais práticas e numa negociação desse tipo vamos ao cerne, ao que importa, além das encenações”, sustentou Cristina Cifuentes, que governa em coligação com o Ciudadanos.

Para nos ajudar a compreender melhor esta realidade, o Delas ouviu a jornalista Virginia López, correspondente em Lisboa do jornal espanhol El Mundo e autora do livro “Impunidade – Os escândalos que Abalaram 40 anos de Democracia em Portugal”, e Pilar del Rio, presidente da Fundação José Saramago e viúva do escritor que ganhou o Nobel.

Virginia Lopez atribui parte da incapacidade dos principais partidos em formarem governo, nos últimos seis meses, a um excesso de protagonismo dos seus líderes. Para a jornalista, firmar a liderança surge, muitas vezes, em primeiro do que o interesse partidário. “Em Espanha, as posturas na política fazem com que seja sempre mais difícil chegar a uma negociação”, refere.

Em jeito de brincadeira, Virginia López diz que se pudesse e estivesse estado no lugar do rei de Espanha, teria concordado com a marcação de novas eleições “mas com novos líderes”.

“Se estivesse realmente em causa a liderança, acredito que eles tivessem chegado a um entendimento. Porque isso tem muito a ver com caráter espanhol, ser mais contundente na postura e menos na negociação”, sustenta.

No sentido oposto, aparecem protagonistas femininas, fora da liderança nacional mas com grande destaque a nível regional. Algo que a jornalista vê como um reflexo dos tempos, que permitem conciliar de forma “mais inteligente” maternidade e família com a carreira profissional.

“O caso da Ada Colau ou de outras mulheres na política espanhola, como a Susana Díaz, na Andaluzia, provam que a mulher, neste século de grandes desafios económico-sociais, pode ter um papel e uma perspetiva diferentes na política e na vida”.

O grande trunfo é a capacidade que têm adquirido ao longo dos tempos de gerir todas essas dimensões – casa, família, economia doméstica e trabalho – e a possibilidade de a “ampliar a um país, que no fundo é uma casa mas muito maior”.


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Ao contrário da jornalista que já esperava o reforço do PP, depois do falhanço da esquerda em se unir nas últimas legislativas e formar uma alternativa, Pilar del Rio olha para os resultados destas eleições como uma dupla surpresa.

“Surpreende-me que tenha ganhado a direita mais conservadora e ao mesmo tempo que o Podemos, um grupo com dois anos de vida, gente jovem, seja capaz de manter tanta confiança e tanto entusiasmo.”

A presidente da Fundação José Saramago, cuja irmã que é deputada nas Canárias pelo Podemos, reconhece que a liderança nacional dos partidos em Espanha pode não refletir o género que está noutros patamares das suas fileiras, mas defende que os direitos das mulheres não deixam de estar representados por isso.

“O problema não é serem homens ou mulheres. Se tiverem uma posição de género, se forem feministas isso está dentro da sociedade igualitária que defendo.”

Pilar del Rio reconhece, por outro lado, que o estilo de liderança nunca vai ser igual. “Nós, mulheres, estamos, historicamente, muito habituadas a compatibilizar e a negociar. Não me surpreende que a presidente da Câmara de Madrid seja uma mulher a tomar decisões que afetam milhares e milhões de pessoas.”

Para a Vírginia López é apenas uma questão de tempo até as mulheres espanholas passarem a ocupar os lugares de liderança nacionais e a política portuguesa é olhada com atenção em Espanha, pelo que as duas lideranças partidárias femininas (Catarina Martins, no BE, e Assunção Cristas, no CDS-PP) também não passam despercebidas.

“Já escrevi sobre a Catarina Martins porque realmente é uma figura fundamental no partido. O BE não estava bem e com a liderança dela conseguiu o melhor resultado de sempre. O que prova que realmente há uma maneira de fazer política diferente, mais prática e pragmática, e na qual, provavelmente, as mulheres se reveem. No lado do CDS, temos o caso de uma mulher que esteve grávida durante parte do seu mandato de ministra e pouco tempo depois assume a liderança do seu partido, provando que é possível conciliar um alto cargo na política com a maternidade”, conclui.

Depois de domingo, impasse outra vez?

O Partido Popular (PP) venceu, este domingo, as legislativas em Espanha, com a eleição de 137 mandatos, mais 14 do que os conquistados em dezembro. O número agora alcançado está, contudo, ainda longe dos 176 que dão a maioria absoluta no parlamento espanhol. Por isso, e apesar da subida, o partido de Mariano Rajoy é novamente obrigado a negociar com outras forças políticas para formar governo e a tarefa, tal como aconteceu no último ato eleitoral, não se avizinha fácil – foi da indecisão política que nasceu nova iniciativa eleitoral.

Uma coligação entre o PP e o PSOE, de Pedro Sanchez, que elegeu 85 deputados (menos cinco do que em dezembro) é suficiente para garantir um governo de maioria, mas é altamente improvável. A alternativa será um entendimento entre, pelo menos, três forças políticas. Porém, com a esquerda a perder terreno nestas eleições, um hipotético acordo entre o PSOE e a aliança Unidos Podemos (liderada por Pablo Iglesias e com 71 lugares), que juntasse, por exemplo, o Ciudadanos de centro-direita (encabeçado por Albert Rivera e com 32 assentos) surge como uma possibilidade igualmente remota.

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