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Helen Mirren: a insegurança de uma veterana sem papas na língua

Subiu aos palcos pela primeira vez em meados da década de 1960 e o filme ‘Homens Maduros’, de 1969, marcou a sua estreia no cinema. Aos 70 anos, é tida como uma das atrizes de excelência da sua geração, tendo arrecadado prémios Emmy, Óscares, Tony, Globos de Ouro e Baftas. Entre os muitos papéis a que já se emprestou, é-lhe atribuído o feito de ter vestido a pele de Rainha de Inglaterra na TV e no cinema por três vezes – é, aliás, a única atriz a ter interpretado Isabel I e Isabel II nos ecrãs.

Apesar de todas as certezas, Helen Mirren é uma mulher insegura. Insegura porque o trabalho de um ator “é inseguro” e, explica a própria ao jornal espanhol ‘El País’, não é o talento que define o sucesso da sua profissão, mas sim “a sorte e as casualidades”. “A insegurança jamais nos abandona. O que acontece é que aprendemos a lidar com ela e acabamos por perceber que é apenas parte de tudo aquilo que temos de ‘engolir’ e com que jogar. Não podemos deixar que nos ultrapasse”, sublinhou.

“Naquela altura [anos 1960], com 14 ou 15 anos, uma miúda não tinha forma de se defender perante essas situações [de abusos sexuais]. Só lhe restava aceitá-lo, aguentar e seguir em frente”

À insegurança junta-se a “falta de liberdade” que Mirren diz sofreu no mundo do cinema na década de 1960. Uma época em que as mulheres eram “constantemente menosprezadas e ignoradas” e em que a atriz, nascida a 26 de julho de 1945 em Londres, sentiu que as suas “liberdades estavam imitadas, restringidas”. “A vida era assim. O que se está a passar agora no Reino Unido é muito interessante: todas estas histórias de abusos sexuais que vieram a público. Eles [os homens daquele tempo] tinham acesso a raparigas muito jovens que estavam deslumbradas com a fama. Naquela altura, com 14 ou 15 anos, uma miúda não tinha forma de se defender perante essas situações. Só lhe restava aceitá-lo, aguentar e seguir em frente”, lembra.

Helen Mirren

Helen Mirren no filme de 2006 ‘A Rainha’, que lhe deu o Óscar de Melhor Atriz

Não foi o seu caso. Helen Mirren sempre se viu como uma mulher que nasceu e cresceu na época errada: Nunca quis casar, mesmo quando era esse o papel atribuído às mulheres. Acabaria por se apaixonar, em 1986, por Taylor Hackford, seu marido desde 1997. Tinha 32 anos e nunca tiveram filhos. Nunca se arrependeu das escolhas que fez.

Hoje, garante, não se pode exigir ao cinema que dê mais destaque às mulheres enquanto a sociedade não o fizer. No que a si diz respeito, garante que vai continuar à procura de grandes papéis. Se os encontrar, insiste, dever-se-á à sorte.

Por: Ana Filipe Silveira