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“Escolhi para a minha personagem não ter nenhuma promessa a cumprir”

A um mês das celebrações das aparições de Fátima, peregrinos de todo o país começam a preparar-se para fazer, a pé, o caminho até ao santuário, que este ano recebe a visita do Papa Francisco, a 12 e 13 de maio. É sobre essa experiência, que todos os anos move os fiéis, que trata o novo filme de João Canijo. ‘Fátima’, com estreia a 27 de abril, nas salas de cinema, conta a história de um grupo de 11 mulheres que parte de Vinhais, Trás-os-Montes, em peregrinação, rumo ao santuário de Fátima. Ao longo de nove dias e 400 quilómetros, as personagens do filme atravessam meio país, sentindo o esforço e sacrifício a que muitos se submetem para cumprir as suas promessas. Para isso as atrizes integraram, em 2014, grupos de peregrinos e fizeram o caminho a pé antes de recriarem a peregrinação que vemos no filme. Para Rita Blanco, que dá vida a uma daquelas mulheres – Maria -, o esforço do percurso não foi particularmente doloroso, habituada que está a fazer caminhadas e passeios extensos e quando o compara com o que a experiência lhe trouxe. “Os peregrinos foram profundamente generosos comigo, fiquei muito grata”, conta em entrevista ao Delas.pt. Na conversa, que decorreu num encontro de promoção ao filme, esta segunda-feira (10 de abril), em Lisboa, Rita Blanco falou também sobre a sua personagem e o respetivo processo de construção, da relação de longa data com o realizador João Canijo e dos seus próximos projetos.

Cartaz do filme (Fotografia de Joana Linda)

 

Como definiria esta Maria, a sua personagem no filme ‘Fátima’?
Eu não sou muito de definir personagens, acho que elas se definem por si, quando são vistas. O que posso dizer é que é uma mulher de Trás-os-Montes, que nasceu e foi criada lá, apesar de ter um percurso em que teve de sair, em busca de outras coisas, mas depois voltou. É uma mulher casada, com filhos, que é uma crente e para quem a peregrinação é um momento extraordinário. É um momento, provavelmente, de escape na vida dela, em que ela sai da rotina, até porque ela gosta imenso da Nossa Senhora de Fátima. E é uma mulher tesa, como, eu diria, têm de ser todas as mulheres de Trás-os-Montes, até porque não têm outra hipótese. Há uma série de obstáculos na vida das pessoas que as tornam mais fortes e esta é uma dessas mulheres.

Ela é a líder deste grupo de peregrinas, é ela que mantém o grupo unido.
Sim, acho que sim. Esse é o desejo dela. Se consegue ou não é outra coisa. Acho que ela quer muito que as pessoas sintam gosto no que vão fazer, não se desentendam demasiado. É uma mulher que já fez muitas peregrinações, para quem isso é habitual, e sabe quais são as possibilidades daquilo correr mal, mas tenta evitá-las. E é uma mulher que tenta sempre dar boa disposição quando vê que aquilo está a descambar… Acho que é uma cuidadora, que gosta de ajudar. Não sabemos porquê. Provavelmente, não foi ajudada, ou porque não ajudou alguém. Há sempre, no passado, umas razões para querermos ser muito boazinhas, não é? Mas ela não é boazinha [risos].

Neste filme, e por opção do realizador, não conhecemos as motivações destas mulheres, o que as leva a fazer esta peregrinação. O que sabemos é mais sugerido que revelado. Como é que isso influencia a construção da personagem?
Eu não estaria nada interessada em contar alguma coisa. Não é um obstáculo, muito pelo contrário. Acho que as personagens definem-se por aquilo que fazem e não por aquilo que dizem, como nós próprios. Por isso, para mim não é nada importante o mais óbvio. Mas isso também faz parte de um processo do João [Canijo], nosso, e meu também, que já existe, no sentido de não estarmos a explicar tudo. Até porque não é preciso.

As atrizes passaram por um processo de preparação: acompanharam peregrinações, observaram e trabalharam ao lado de outras mulheres e construíram as suas personagens a partir daí. (Fotografia de Joana Linda)

Mesmo tratando-se das motivações das personagens em relação à peregrinação?
Não creio que isso fosse uma opção pessoal. A minha não era. Nunca me passou pela cabeça dizer, até porque, posso dizer-lhe, eu escolhi para a minha personagem não ter nenhuma promessa a cumprir. Vou porque gosto, porque quero. Aquilo são as minhas férias. Aliás, a minha personagem diz isso, acho eu – não sei se foi cortado ou não. Já vi tantas versões…mas há uma altura em que ela diz: “É como umas férias”. É para conviver, para estar com as pessoas.

Disse, no início, que a sua personagem tentava animar o grupo…
Para desanuviar, sim.

Por vezes, dá a sensação que as piadas que diz são improvisadas. É assim?
O meu texto é todo improvisado no momento. Mas a partir de uma construção da cena. Por exemplo, há uma construção, a cena vai ser aquela subida e há uma que vai vomitar e tirar o colete. Eu sei que tenho de dizer-lhe que tem de por o colete. As cenas estavam escritas, existiam, tinham diálogos, mas eu reservo-me o direito de improvisar. Conheço muito bem as minhas personagens, portanto sei exatamente o que é que elas devem dizer em cada momento. Até porque este filme pressupõe uma série de coisas a acontecer que não estão programadas. Por mais que queiramos, estamos a fazer o caminho e de repente vem uma camioneta. Nós não sabemos se vem a camioneta, ou não sabemos se vai ser naquele sítio que a colega vai cair. Portanto, também temos de andar um bocadinho ao sabor.

Tiveram de fazer uma primeira peregrinação, em 2014. Que importância teve para a criação da sua personagem essa espécie de teste prévio?
Foi mais o convívio com os peregrinos. Essa parte foi importante. O cansaço eu já conhecia, faço caminhadas e passeios grandes. Sabia que seria muito cansativo, mas eu sou atriz e, apesar de tudo, tenho uma noção de como representar o cansaço ou desespero. Enfim, e tenho muitos anos. Quando já vivemos muitas coisas, às vezes, a partir de certa idade já não precisamos de ir em busca delas como experiência porque já as conhecemos de outras situações. O que podemos é adaptar… Os peregrinos foram profundamente generosos comigo, fiquei muito grata e isso deu-me uma mais valia no sentido de me apoiarem muito, de mostrarem como é que as coisas se passaram. Foi muito encantador. Para mim a peregrinação não foi nada uma coisa dolorosa, ainda que houvesse dias em que me doessem imenso as pernas e tudo isso. Faz parte e é uma coisa nossa.


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Trabalha há muitos anos com o realizador João Canijo. Como caracteriza esta relação de trabalho com o realizador?
Para já, nós começámos juntos. A primeira vez que o João tentou filmar foi uma curta-metragem, de que ele não gosta nada, mas fê-la e fê-la comigo, e começámos a trabalhar – eu ainda estava no Conservatório. Eu construí-me como atriz e ele construiu-se como realizador muito perto um do outro, na medida em que trabalhámos sempre juntos, o nosso princípio foi sempre juntos. Fizemos o nosso primeiro filme juntos, o segundo, enfim…Trabalhámos muito juntos. E por isso, ele aprendeu a proximidade de um ator e eu aprendi a proximidade de um realizador. E isso, acho, deu-nos, aos dois, mais-valias extraordinárias. Ou seja, aprendemos a crescer com um processo, “inventámos” um processo nosso de trabalhar, cada vez mais próximo de uma verdade. Nós achávamos que era mais próximo de uma verdade, das personagens; o João cada vez a gostar mais de trabalhar com atores, eu cada vez a entender melhor os processos de trabalho, a fazer escolhas para mim, como encontrar melhor e mais verdadeiramente personagens. No fundo, foi uma escola que fizemos juntos: eu fui um escola de atores, para ele, ele foi para mim uma escola de representação.

O que é que pondera atualmente quando escolhe uma personagem?
Primeiro, gosto mais de trabalhar com amigos. Também porque sou amiga de quem admiro, o que é uma vergonhaça [risos], mas assim é. Gosto de trabalhar com pessoas de quem gosto. Quero trabalhar com pessoas que eu conheço, de quem gosto e que tenham projetos que estejam próximos de alguma verdade, que esteticamente me pareçam interessantes. Mas nós estamos sempre disponíveis para surpresas. Se calhar um dia aparece uma pessoa com quem há dez anos não pensaria trabalhar e que entretanto me fascina. Estamos sempre disponíveis para ser fascinados pelos outros.

Temo-la visto, ultimamente, em papéis sobretudo dramáticos. Tem saudades da comédia?
Mas eu acho as minhas personagens sempre cómicas. Não percebo! [risos] As pessoas não acham que são cómicas!? Estou a brincar. Mas eu acho que a comédia e a tragédia muitas vezes se tocam, porque a tragédia é hilariante às vezes. Pronto, às vezes gosto de fazer comédia. É bom. Mas mesmo numa comédia como a ‘Gaiola Dourada’ eu acabei por ter um papel sério. Pronto, não devo ter jeito…

E do teatro?
Teatro, este ano tenho mesmo de fazer, que já tenho saudades. Mas com o fim da Cornucópia, o meu coração apagou-se-me um bocadinho, porque a pessoa com quem eu me ultrapassei mais na vida foi o Luís Miguel Cintra. Se o Canijo é no cinema, o Luís Miguel Cintra é no teatro. A estética do trabalho dele…Que dizer, quando se começa com uma pessoa genial, a seguir fica-se um bocadinho perdido. Mas eu estou cheia de vontade de trabalhar [em teatro] e de fazer um projeto com várias pessoas de quem gosto.

Televisão?
Vou fazer uma novela, que começa em junho.

Que filme é que as pessoas vão ver, quando assistirem a ‘Fátima’? Porque ele é sobre a peregrinação, mas não só.
Como tema acho extraordinário [a peregrinação a Fátima] porque fala de coisas que estão vincadíssimas na nossa sociedade. É um fenómeno real que acontece constantemente, há muitos, muitos anos, e no que as pessoas continuam a ter gosto em ir. Para já, o filme é uma reflexão sobre isso, ou pelo menos. E o João [Canijo] quis aproximar o público disso. É um olhar, dele e nosso sobre uma peregrinação. Não sei o que é que as pessoas vão ver no filme, francamente não sei. Espero que encontrem alguma verdade nas personagens.

 

Ana Tomás