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Filhos da Ciência

Mulher grávida

A experiência da maternidade pode ser a mais fantástica e avassaladora na vida de uma mulher. Muitos casais não sentem o apelo do relógio biológico e escolhem não ser pais, mas há também aqueles a quem a Natureza não concedeu a possibilidade de engravidar e, em Portugal, as estatísticas apontam para cerca de 150 mil casos. Quando isto acontece, a única coisa a fazer é pedir ajuda aos especialistas em procriação medicamente assistida (PMA), sendo que é no privado que a resposta chega mais depressa, dadas as intermináveis listas de espera do sistema público, que desesperam quem já está numa corrida contra o tempo.

O que acontece quando os casais recorrem a este tipo de tratamentos? Falámos com dois especialistas da AVA Clinic – Centro de Fertilidade de Lisboa para perceber melhor a realidade de quem deposita na Ciência a esperança de alcançar um dos objetivos de vida: ter um filho.

Cândido Tomás é o Diretor Clínico, Médico Especialista em Ginecologia e Obstetrícia e Medicina da Reprodução da AVA Clinic, e explica-nos que, antes de se submeterem a qualquer tratamento de PMA, os casais precisam de se submeter a uma série de testes, sendo o mais importante a recolha da história médica dos elementos envolvidos.

“Na mulher, a idade é o principal fator para prever o sucesso de conseguir uma gravidez. Também o tipo e regularidade do ciclo menstrual, a existência de infeções ou cirurgias abdominais, podem influenciar a capacidade de conceção. A endometriose manifesta-se muitas vezes com dores e com alterações ecográficas. O elemento masculino deve dar também a sua história médica e familiar para enquadrar o problema do casal”, explica Cândido Tomás.

Após as entrevistas e historial clínico, chegam os exames físicos. “No caso do elemento masculino, o exame da análise de esperma é fundamental, mesmo que ele tenha produzido gravidezes anteriores. Na mulher, a ecografia vaginal, efetuada na mesma primeira consulta, é muito importante.

Depois da história médica podem ser selecionados outros exames se houver suspeitas de outros problemas. Por exemplo, análises hormonais da tiroideia, da AMH podem ajudar a desvendar algum problema ou fatores que alterem o sucesso dos tratamentos. Outros exames mais complexos, como sejam a histeroscopia, a laparoscopia, estão indicados em casos muito específicos.

“A maioria dos exames são simples”

“O homem, para além da análise de esperma, pode ter de efetuar análise dos cromossomas, do cromossoma Y ou exames de análises hormonais. A maioria dos exames são simples e ajudam a elaborar um plano de ação para as pessoas que desejam ter um filho, quer sejam um casal de homem e mulher, ou mulheres sem parceiro ou com parceira feminina”, indica Cândido Tomás.

Os tratamentos, esses, são diversos e com maior opção de escolha para casais com idade inferior a 35 anos.

“Podem efetuar-se induções de ovulação, mas estas tem uma taxa de sucesso muito pequena. Para a maior parte dos casais acima dos 36-37 anos será a fertilização in vitro (IVF) ou microinjeção de espermatozoides nos ovócitos (ICSI) que permite uma taxa de sucesso de cerca de 40-45%, consoante a idade da mulher. Algumas mulheres, especialmente acima dos 42 anos, já não conseguem engravidar com os seus óvulos, necessitam que mulheres mais jovens doem os seus óvulos. Em vários tratamentos também existe a necessidade de usar espermatozoides doados, como sejam os tratamentos nos casais de mulheres ou em mulheres sem parceiro masculino”, indica o diretor clínico.

“É importante tentar conceber o mais cedo possível”

Ana Oliveira Pereira, Psicóloga Clínica da AVA Clinic, acompanha os casais que se submetem a tratamentos de PMA na clínica e faz uma intervenção psicológica que engloba três vertentes: aconselhamento para a doação de gâmetas (óvulos, esperma e embriões), avaliação das candidatas a doação de óvulos, e apoio psicológico para os tratamentos de fertilidade. A especialista conta que “a decisão de iniciar, repetir ou desistir dos tratamentos é sempre feita pelo casal. Embora como psicóloga possa aconselhar um casal a protelar o início de um novo tratamento, caso o casal tenha tido um insucesso recente ou repetido e esteja a vivenciar alguma perturbação psicológica, não existe um parecer vinculativo da minha parte. O meu papel é o de ajudar a antecipar que é esperado alguma ansiedade e stress ao longo do processo, e de que forma poderão lidar com isso. É importante que o casal saiba quais os efeitos psicológicos do diagnóstico de infertilidade, nomeadamente ao nível conjugal, sexual e social.”

Ana Oliveira Pereira considera essencial que os casais não deixem a sua vida em suspenso ao longo dos tratamentos, tomando as devidas decisões pessoais e profissionais, bem como recorrerem ao apoio da rede familiar e de amigos – ainda que não seja fácil partilhar esta questão abertamente.

“A gestão das expetativas implica tomar consciência de que, apesar dos avanços nos tratamentos de PMA, as taxas de sucesso podem implicar que o casal tenha que repetir 3-4 vezes os tratamentos até conseguir ter uma criança. O casal deve apoiar-se mutuamente e procurar apoio na família e amigos. Não é fácil assumir que se está a passar pela situação de infertilidade, contudo é mais difícil vivenciar esta fase sem apoio. Por vezes, basta que os amigos ou familiares saibam e se mantenham por perto, sem questionar ou pressionar”, esclarece Ana Oliveira Pereira.

O relógio pode ser cruel em muitos casos

A espera pode desesperar alguns casais, já que o tempo não é um fator favorável e, quanto mais anos passarem, mais as hipóteses de conseguir uma gravidez diminuem. Cândido Tomás sabe bem como o relógio pode ser cruel em muitos casos.

“A idade média anda por volta dos 37 anos, mas cerca de 25% tem acima dos 40 anos, o que torna mais difícil a gravidez mesmo com tratamentos, mas não impossível! Muitas delas precisam de doação de ovócitos. Alguns casais conseguem ao fim de alguns meses conseguir uma gravidez, outros terão de repetir os tratamentos que podem durar alguns anos até atingir os seus objetivos”, afirma o diretor clínico da AVA Clinic.

Os custos, esses, não são para todos. Mas há quem recorra a mundos e fundos para conseguir subsidiar a luta por um filho.

“A doação de ovócitos, por exemplo, pode atingir custos de 5 mil a 6 mil euros”

“Os tratamentos mais simples têm custos de algumas centenas de euros, mas a doação de ovócitos, por exemplo, pode atingir custos de 5 mil a 6 mil euros. Sabemos muito o esforço que as pessoas fazem para efetuar estes tratamentos, prescindindo muitas vezes de alguns bens. Isto é uma grande responsabilidade também para todo o nosso staff, que se empenha como equipa multidisciplinar para tentar otimizar os resultados. Por isso, mais importante que os custos dos tratamentos, é importante que as pessoas efetuem o tratamento mais adequado o mais rápido possível, pois isso aumenta as taxas de sucesso e diminui os custos. Acima dos 42-43 anos da mulher é difícil engravidar com os próprios ovócitos e por isso é importante sensibilizar a população a tentar conceber até antes dos 35-36 anos, ou o mais cedo possível”, frisa o especialista.

O fator “culpa”

Cândido Tomás indica que as taxas de sucesso de cada tratamento dependem dos procedimentos efetuados e essencialmente da idade da mulher, ou da presença ou não de outras patologias.

“Uma inseminação artificial, um tratamento simples com a introdução de espermatozoides tratados no fundo do útero, tem uma taxa de sucesso abaixo dos 20%. Já uma fertilização in vitro numa mulher cerca de 33-35 anos tem uma taxa de sucesso da ordem dos 40-45%. A doação de ovócitos atinge por tratamento taxas de sucesso de por vezes 60%. Mas é difícil generalizar, o que é importante é o médico avaliar cada caso em particular e após saber a qualidade dos embriões e toda a situação médica, é mais fácil elaborar um prognóstico. Efetuando vários tratamentos e os mais indicados, a chamada taxa de sucesso cumulativa, num período de 3-4 anos pode atingir 80-85%. Existem, no entanto, muitos fatores envolvidos na implantação do embrião, que podem ter que ver com a genética e são difíceis de identificar ou tratar”, sublinha.

Cândido Tomás afirma que casos de gémeos e trigémeos são, felizmente, pouco frequentes.

“Trigémeos são muito raros”

“Cada vez existe mais cuidado para efetuar tratamentos não apenas mais eficazes, mas também mais seguros. O nosso objetivo não é só obter uma gravidez, mas ter uma criança saudável. Por isso transferimos no máximo dois embriões e, mesmo assim, a taxa de gémeos pode ser até de 20%, o que pode aumentar os partos prematuros. Trigémeos são muito raros. Hoje em dia existem mesmo alguns indícios de que transferir um embrião de boa qualidade com outro de fraca qualidade pode baixar as taxas de sucesso”, diz o Médico Especialista em Ginecologia e Obstetrícia e Medicina da Reprodução da AVA Clinic.

Ana Oliveira Pereira entende que, por vezes, o casal, sobretudo a mulher, tenha tendência a culpabilizar-se pelo insucesso dos tratamentos.

“É importante que aceitem que o sucesso do tratamento não depende de aspetos psicológicos, havendo sempre um fator de imprevisibilidade no resultado final e que não depende em nada daquilo que o casal fez ou deixou de fazer durante os tratamentos. É muito comum que as senhoras se culpabilizem por determinados comportamentos (pegar em pesos, andar de carro, não ter feito repouso, etc.), quando isso não é decisivo para o sucesso do tratamento. Existe um grande desconhecimento que a fertilidade do ser humano é muito baixa, comparativamente com as outras espécies animais, tendo como consequência que seja necessário repetir tratamentos até que se consiga ultrapassar esse facto biológico. E por isso mesmo é preciso manter a esperança e o otimismo e não desistir precocemente de tentar. Todas as estratégias que se sugerem para controlar o stress a têm como objetivo ajudar a que o casal consigo prosseguir na luta, mais do que melhorar a possibilidade de conseguir a gravidez desejada”, explica a psicóloga.

“As mulheres têm mais dificuldade em desistir”

Para as mulheres, a maternidade parece ser um fator essencial para a felicidade e realização pessoais.

“As mulheres têm mais dificuldade em desistir da ideia de serem mães, o que não quer dizer que para o companheiro não seja importante. Contudo, socialmente ainda existe uma maior pressão para a maternidade, e o mundo das mulheres ainda passa muito pela partilha das experiências da gravidez e maternidade. Quase sempre são as mulheres que procuram ajuda médica, que pesquisam e marcam as consultas, mas os companheiros costumam estar presentes no processo. Embora tenham dificuldade em lidar com o sofrimento emocional das suas companheiras, empenham-se no processo médico. É interessante constatar que as mulheres só iniciam as consultas e exames, ou realizam os tratamentos, quando sentem que a relação conjugal está bem”, explica a Psicóloga Clínica da AVA Clinic.

Doar ovócitos a quem precisa

A doação de ovócitos é também um processo cada vez mais frequente em Portugal, apesar de ser dispendioso e requerer um processo de seleção extremamente rigoroso. A carga emocional associada de dadora e recetora tem também de ser bem gerida.

“Desde há cerca de 15 anos que a AVA Clinic efetua doação de ovócitos e, apesar dos tratamentos serem semelhantes aos mais convencionais, requerem cuidados e análises adicionais, consulta de psicologia e uma coordenação cuidadosa das dadoras e das recetoras. O mais importante é ter sempre o foco na criança que ainda não nasceu, mas queremos saber que ela terá a capacidade de ter o seu desenvolvimento físico e emocional semelhante a todas as crianças. E quanto melhor for todo o processo de seleção, melhores as possibilidades de termos famílias felizes com crianças saudáveis”, afirma Cândido Tomás.

A psicóloga considera que, com base em alguns estudos académicos e pela sua experiência, ainda é elevado o número de casais que desiste, não por questões financeiras, mas porque não conseguem mais lidar com o esforço emocional dos tratamentos de fertilidade.

“Passa por fazerem férias, exercício físico”

“A única forma de conseguirem prosseguir é manterem-se emocionalmente fortes, usando todas as estratégias para controlarem a ansiedade e stress e evitar cair em depressão devido a insucessos repetidos. Passa por fazerem férias, exercício físico, aprender coisas novas, não desistirem das atividades que antes lhes davam prazer físico, saídas com amigos (mesmo que tenham filhos, ou escolhendo temporariamente outros grupos). Caso a mulher ou casal sinta que está a ficar com depressão, por excesso de stress ou insucessos sucessivos, ou se a vida conjugal profissional ou conjugal estiver a ficar seriamente afetada, deverão procurar ajuda psicológica para recuperar o bem-estar emocional”, diz a especialista.

Os casos de sucesso são sempre os mais marcantes para a Ana Oliveira Pereira. “É muito gratificante sentir a felicidade quando se consegue realizar o sonho de uma vida. O que mais me custa são os casos em que os casais tiveram de desistir por falta de condições materiais para prosseguir os tratamentos. É uma tremenda injustiça que a nossa sociedade não consiga ajudar um casal a constituir família”, garante.

Carmen Saraiva