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“Eu queria uns sapatos bonitos e simples e tinha dificuldade em encontrá-los”

A semana passada o Instagram enlouqueceu com o lançamento do mais recente par de sapatos criado pela Josefinas. A Marie Antoinette é excessiva como a madrinha que lhe dá o nome: é uma sabrina de calcanhar aberto com um laço gigante a tapar os dedos do pé. As fotografias do novo modelo das Josefinas acumularam mais de 2 mil corações em pouco tempo.

A verdade é que o sucesso desta sabrina em particular tinha começado uns dias antes quando um esboço da peça tinha sido colocado na rede social e recolhido, além de likes, elogios como “Brilliant Design” da editora da revista americana Style at Home.

Sim, os Estados Unidos são um bom mercado para esta marca de calçado portuguesa e o Instagram um excelente veículo de transmissão da mensagem de estilo de vida que cada modelo comporta à escala global. A estratégia de divulgação levou as mulheres à frente desta empresa à sede da rede social e foi por isso, que falámos com Filipa Rodrigues ou, melhor, foi por aí que iniciámos a conversa.

Que razões estratégicas levaram as Josefinas à sede do Instagram?

Foi um convite da Eva Chen que é a diretora das parcerias de moda do Instagram e houve uma reunião. Nós já tínhamos sido contactadas, aliás eles enviam-nos sempre todos os anos um presente. É uma relação que está a ser mantida e cultivada. Quem nos representou foi a Sofia e a Maria que são as minhas sócias

É uma relação que começou logo no início das Josefinas. Começou do vosso lado.

Sim. Desde do início que estamos ligadas ao Instagram. Começámos a trabalhar com o Instagram, criámos a hashtag #josefinasportugal e há muita interatividade com as pessoas que usam as Josefinas. Nós tínhamos uma ação em que pedíamos às pessoas para que quando recebessem as Josefinas e abrissem a caixa fizessem a partilha daquele momento através do Instagram com a hashtag #Josefinas Portugal, ou seja, nós sempre estivemos ligadas àquela aplicação. Acho que eles também reconhecem isso.

Esta visita do Instagram quer dizer que vai haver uma utilização mais próxima dessa rede social? O que é que foi discutido lá?

Foi discutido, como é que as pessoas podem trabalhar em conjunto – acho que é sempre bom ter estas reuniões cara a cara. As pessoas falam dos seus projetos e trocam ideias e às vezes não há um objetivo em concreto há mas é uma troca de ideias sobre o que é que as pessoas estão a fazer, a trabalhar e isso é que é a grande mais-valia.

Mas se as Josefinas agora são uma espécie de fornecedores de conteúdos para o Instagram ou a ideia é começarem a fazer anúncios no Instagram?

Não, nós vamos fazer o trabalho que temos vindo a fazer até agora, que é estarmos ligadas ao Instagram, fazemos uma utilização da aplicação diária. Continuar a alimentar o contacto com as pessoas que gostam das Josefinas. No fundo, é trabalhar esta relação.

As Josefinas usam o Instagram só como plataforma de divulgação da marca ou usam também como plataforma de inspiração?

Também é plataforma de inspiração, porque o Instagram é uma base de dados muito interessante. Um exemplo disso é eu ter descoberto um ilustrador muito engraçado que é o Jean Jullien, através do feed do Instagram. Há muitas coisas que eu já conheci porque existe Instagram. O Instagram é uma plataforma muito boa para conhecer novos talentos e de uma maneira bastante simples para quem não estava a fazer, ou seja, hoje em dia eu acho que as pessoas que têm vontade de comunicar com os outros e fazer um trabalho consistente há uma facilidade de comunicar, de divulgar, de expor.joseffffinas

Estou obrigá-la a falar das estratégias, mas a Filipa é a criativa das Josefinas.

Eu não sou dessa parte. Eu sou a designer das Josefinas. Fui eu que comecei tudo. A Josefina é minha avó, a Maria Josefina. É daí que vem o nome da marca. Sou arquiteta de formação e por isso ligada à parte criativa. Trabalho nas Josefinas em diversos níveis: a imagem, os produtos, a produção, as amostras… faço todo esse trabalho inicial.

Como é que foi a génese do projeto Josefinas?

A génese foi em 2012, a génese a nível conceptual. Eu gostava de encontrar no mercado nacional umas sabrinas de qualidade, que tivessem esta particularidade de ter cordão ajustável como as sapatilhas de ballet. Ou seja, basicamente eu queria uns sapatos bonitos e simples e tinha uma dificuldade em encontrá-los e por isso pensei “porque é que não crio uma marca nacional? Produção nacional, já que a produção de sapatos está mesmo aqui ao lado. E que tenha estas características.” Começou assim.

Acreditou que ia ser absolutamente concretizável, que ia ser fácil ou sentiu muitas reticências?

Não, porque eu achava mesmo que fazia sentido e que podia andar para a frente. E por isso, tentei divulgar o meu projeto. Sinceramente, não tive dúvidas. Era fazer e ver como é que ia correr, porque acho que se nós estivermos a problematizar muito sobre tudo, não conseguimos fazer nada. Nós não conseguimos controlar tudo, mesmo que queiramos, há uma série de circunstâncias… Eu sabia que só se eu tivesse alguma atitude é que essa atitude ia ter alguma consequência. Começou assim aos bocadinhos.

Em 2012 tem a ideia e depois como é que é o processo de concretização?

Eu comecei a pensar nisto em fevereiro de 2012, depois conheci a Maria em maio. E ela acreditou que era um projeto engraçado que tinha potencial e começamos a trabalhar juntas, trabalhamos no produto das Josefinas base para aí durante um ano. Depois as coisas continuaram a crescer.

A primeira coleção é de 2013.

A primeira começámos a vender em 2013, em maio de 2013. E desde o primeiro momento que fomos muito bem recebidas no mercado nacional. E as coisas correram mesmo bem. Aliás, nós a primeira experiência que tivemos foi num mercado organizado pela Maria Guedes. E nesse dia vendemos Josefinas, as pessoas reconheceram logo o produto e gostaram da marca. E por isso, as coisas todas correram bem desde o inicio.

As Josefinas têm uma série de coleções e inclusivamente, alguns modelos que não são sabrinas.

Sim, na verdade temos os loafers, depois temos as Thelma & Louise, que são as nossas sapatilhas e temos as Twiggi, que são umas botas de cano alto.

Todas elas onde é que está aquilo que é específico das Josefinas?

Nas Twiggi estão de uma maneira bem evidente, a Josefina está lá. Mas mais do que uma questão de imagem, o que as liga são os mesmos pressupostos, ou seja, nós fazemos sempre coisas que tenham qualidade, que usam bons materiais, em que as pessoas sentem confortáveis quando as usam. São bastante versáteis e se adaptam à mulher contemporânea, que tem de fazer tudo e mais alguma coisa e estar em todo lado e quer estar elegante e confortável. Acho que elas, embora não seja a mesma coisa usar uns ténis ou usar umas Josefinas sabrinas, creio que esta é a linha condutora de todas elas. E depois os nossos modelos são sempre simples mas, de alguma maneira, têm sempre alguma coisa que as diferencia, que é mais extraordinária.icandoit

Referiu a mulher contemporânea. Porque é que fez a coleção Power Woman, é uma coleção absolutamente feminista?

Sim, é uma coleção que pretende dar a força às mulheres e fazer com que elas andem para a frente com os seus projetos, que às vezes saiam um bocadinho de uma zona mais resguardada ou protegida. Acho que as mulheres têm imensas capacidades. O objetivo é potenciar estas qualidades das mulheres.

Preocupam-na as questões relacionadas com a desigualdade e a falta de poder das mulheres?

Sim, porque ainda não é igual. Acho que vai ser daqui a uns anos, mas ainda não é e para vir a ser nós temos de fazer alguma coisa por isso.

Acredita que a moda pode ajudar a trilhar esse caminho?

Eu acho que sim. Um exemplo simples: quando nós usamos umas Josefinas rasas e achamos que estamos elegantes. E isso pode não ser sinal de que temos de usar saltos altos ou corresponder a um pressuposto instituído.

As sabrinas elegantes podem ajudar as mulheres do mundo do trabalho é isso?

Eu acho que no fundo é o conforto, é o conforto que é importante e as pessoas têm de se sentir bem. Noutro dia estava a ver o filme sobre a Coco Channel e em que ela começa a usar aquelas roupas mais confortáveis e a deixar cair os corpetes ela vai trabalhar e não consegue trabalhar, porque se sentem completamente desconfortável com as roupas que usa. E acho que isso é muito importante: estarmos e sentirmo-nos bem com aquilo que estamos a usar. Com isto não quero dizer que seja verdade para todas as pessoas, mas para as mulheres que me rodeiam e para as que compram Josefinas, para as que aqui trabalham faz sentido. Nós sentimos que queremos estar bem, mas confortáveis.

Como é ver uma fotografia da feminista Gloria Steinem a usar Josefinas? É um momento de particular orgulho?

Sim, claro. Nós, quando vimos aquelas conferências magníficas da Gloria Steinem e depois vemos que ela está a usar uma peça que foi feita com muito esforço e dedicação, por nós. Acho que é um grande motivo de orgulho.

A Filipa e a Maria são duas mulheres, são duas empresárias. Sentiram dificuldade em implementar o negócio pelas questões do género?

Não posso dizer que nós tenhamos sentido dificuldades por questão de género. Agora que isso existe, existe e está à nossa volta e toda a gente sabe que isso acontece. Mesmo a nível de remuneração salarial. Há mulheres que fazem exatamente o mesmo trabalho, ou até mais do que os homens e só por uma questão de género estão a receber menos. Isso não é justo.

Imagino que na empresa Josefinas isso não aconteça.

Não. Nós só temos um homem, mas há pouco tempo.

E recebe o mesmo para a mesma função?

Sim, não há uma distinção nem para um lado nem para outro. Nós não queremos que isso aconteça.

Carla Macedo