Quem é Filipe Faísca? “Um homem que se vê como um pássaro”

Aos 50 anos de vida e 32 anos de carreira, Filipe Faísca é o enfant terrible da moda portuguesa. Natural de Moçambique, desde criança que o gosto por ver os rituais de beleza e de moda da mãe fizeram nascer nele o gosto pela imagem e pela roupa. Em 1984, faz o seu primeiro desfile na Escola António Arroio, em Lisboa, antes de iniciar os seus estudos em Design de Moda, pelo IADE. Durante o curso participa nas Manobras de Maio, no Largo do Século, na capital. Em 1991, integra a Official Selection for Mediterranean Europe’s Young Creative Biennale, em Valência, e apresenta a sua primeira coleção na ModaLisboa. Em 1992, inaugura o atelier de moda Filipe Faísca e no ano seguinte trabalha como assistente de Ana Salazar. Quinze anos depois regressa à ModaLisboa. O resultado não poderia ter sido melhor: sala cheia e o público a aplaudir de pé. Paralelamente ao seu trabalho como designer de moda, dedica-se à criação de figurinos para teatro, ballet e cinema. Desenvolve ainda fardas para vários restaurantes, discotecas e hotéis. E tem ainda tempo para fazer as vitrinas das lojas Fashion Clinic e Hermès. O lado boémio do designer foi posto de parte, hoje diz estar a apreciar os “momentos especiais que a vida tem para oferecer”, numa abordagem mais serena e muito focalizada no trabalho e na evolução da sua marca dentro e fora de Portugal

É formado em Design de Moda, pelo IADE, curso que terminou em 1989. O facto do curso não ter equiparação ao grau de licenciatura, incomoda-o?
Sim, incomoda.

Porquê?
Porque me limita a vários níveis. A licenciatura permite ter o desenvolvimento de raciocínio em áreas como a pesquisa teórica, ter a capacidade de estruturar um texto eficazmente. No fundo, teria mais ferramentas metodológicas. Apesar de saber que os cursos mudaram muito, de saber que posso investir na formação, no entanto, o que me interessa aprender é muito limitador em Portugal.

E que formação gostaria de fazer?
De alfaiataria, de técnica de corte de alfaiate, de modelagem. Quando decidir fazê-lo vou para fora…

A formação contínua é fulcral?
Absolutamente. Não se pode evoluir sem aprendizagem. É idiota acharmos que basta ter tirado um curso há 20 ou 30 anos e que está tudo aprendido.

Considerado um dos nomes de referência da moda portuguesa, com mais de trinta anos de carreira, sente-se reconhecido?
Não, de todo. Quando digo isto refiro-me ao facto de a minha profissão não ter ainda qualquer estatuto, associação, sindicato, entre outras legalidades. O design de moda, em Portugal, é uma profissão desvalorizada. Acho que neste momento estamos a ser menosprezados e ignorados. Este é um problema que começa no ensino, onde se aumenta o trabalho individual, egocêntrico e isso acaba por criar desvios terríveis. No caso da arquitetura, por exemplo, os alunos começam desde a faculdade a criar projetos em grupo, aprendem a trabalhar em conjunto, a saber que outras pessoas interferem, positivamente, no seu processo de trabalho para um resultado eficaz. No design de moda não.

Lisboa, 17/02/16 - Filipe Faísca, criador de moda, entrevistado na sua loja para o site delas.pt. (Sara Matos / Global Imagens)
(Sara Matos / Global Imagens)

Os portugueses sabem quem é Filipe Faísca?
De uma maneira geral sim. Mas é perturbador telefonar para as fábricas a pedir orçamentos para determinadas produções e quem nos atende não saber da nossa existência. A indústria têxtil integra a indústria de moda. Não funciona isolada. Para a indústria de moda funcionar e existir tem de haver coordenação entre diferentes áreas. Acaba por ser muito triste a indústria continuar a fomentar o trabalho para as grandes encomendas e não estar predisposto ou recetivo à pequena produção. E ainda por cima não saber quem são os agentes internos do sector.

O que sente que lhe falta fazer como profissional de moda?
Tudo.

Mas tem uma carreira de 30 anos.
E isso apenas nos dá conhecimento e experiência. Parar é estagnar. Não posso achar que por trabalhar desde os anos 80, comecei a fazer desfiles em 1984 antes de terminar os meus estudos, tenha o poder ou a pretensão de ser o melhor. Não sou. Tenho muito para aprender e para ensinar.

Gostava de ser condecorado?
Não.

Já pensou sobre o assunto?
Já. A condecoração, para mim, representa um reconhecimento de trabalho feito. Se isso não existe, porque deveria sê-lo? O que não significa que se alguma vez tal acontecesse não ficasse satisfeito. Quero frisar o facto de o reconhecimento também se reflete na procura por parte do consumidor, se alguém é reconhecido quer dizer que as pessoas o procuram pelo seu mérito profissional.

O reconhecimento reflete-se em negócio?
A ideia é essa. Tenho um espaço comercial, tenho pessoas que dependem do meu trabalho, e essas pessoas que trabalham comigo são de uma qualidade extraordinária. Se o negócio está a correr bem, sou o primeiro a poder melhorar a qualidade de vida destas pessoas, desta equipa, que merecem tudo o que de bom a vida lhes deve dar. E parte dessa qualidade parte da minha capacidade de gerar negócio.

É uma pessoal acessível?
Sou e não sou. Sei que posso ser muito difícil, reconheço isso. Mas acho que também sou justo, a vida tem-me ensinado a ser mais ponderado e maduro. Envelhecer tem essa bonita faculdade. No caso de nunca o percebermos, então alguma coisa está a correr mal.

Li recentemente que acha o homem, em geral, imaturo a vestir. Porquê?
É verdade. O homem continua a ser pouco interessante, imaturo como interpreta e como vê a sua forma de vestir. As mulheres são muito mais arrojadas e divertidas, mesmo quando têm uma postura mais tradicional, ou por terem reservas em relação a determinadas sugestões. Estão quase sempre prontas a experimentar e a interpretar. Os homens continuam a diversificar pouco, mas também a seguir de uma forma pouco apelativa o que as tendências sugerem. Vemos muitas vezes o consumidor masculino a fazer associações pouco apropriadas.

A moda é uma paixão sua, no entanto, a admiração por outras expressões artísticas, como o teatro. Gostaria de trabalhar mais vezes como figurinista?
Adoraria. Sempre que posso faço-o, apela à minha imaginação, tem uma liberdade diferente e uma interpretação desafiante.

E a internacionalização?
É uma vontade de longa data. No momento certo haverá novidades sobre este assunto.

A moda está em fase de mudança, estando o fast fashion em fase descendente e o slow fashion em evolução ascendente. Estas mudanças atraem-no?
O mais possível. Sou um designer com uma abordagem francamente de slow fashion. A roupa quando é desenhada e transposta para a confeção deve ser vivida, experimentada, usada. Nos dias de hoje aflige a rapidez de consumo, não se dá tempo às coisas de forma global e à moda em particular. Isso acaba por destruir o trabalho do designer, da pessoa que pensa a moda, o estilo, o corte, os materiais.


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O poder da observação é importante para quem tem uma profissão na moda?

Fulcral. Gosto de me sentar a observar, a pensar porque as pessoas fazem esta ou aquela escolha. Esta pergunta faz-me lembrar uma peça do Peter Handke, ‘A hora em que não sabíamos nada uns dos outros’, encenada pelo José Wallenstein no Teatro Nacional São João, no Porto. É uma peça que aborda este tema da observação, do cruzamento de pessoas com diferentes formas de estar, onde a fantasia se cruza com a realidade.

Estar a par das tendências é importante para o seu trabalho ou gosta de criar as suas próprias tendências?
Um pouco de ambas. Acompanho as tendências e interpreto-as para as ajustar à realidade de quem tem um espaço aberto ao público e faz roupa por medida. Eu tenho uma loja, tenho clientes reais com necessidades muito próprias, onde devo ter em linha de conta o que a moda internacional está a apresentar e depois adaptar ao que me é solicitado.

Com que materiais gosta de trabalhar?
Existem fases em que nos identificamos com este ou aquele material, como é o caso do linho que adoro, mas que neste momento não me apetece trabalhá-lo. Daqui a uns tempos volto a olhar para ele com vontade de o explorar. Continuo a ter uma relação de proximidade com o crepe de seda, borrachas, viscose, feltro, caxemira, couro e mais recentemente o algodão.

Quando uma cliente o procura, preocupa-se em ajudá-la a ter a melhor imagem possível ou é-lhe indiferente?
Quando uma cliente me procura pela primeira vez faço sempre um questionário para a tentar perceber, o que gosta e o que não gosta, resistências a cores, texturas, padrões. Aos poucos faz-se a mudança com o intuito de melhorar e de nunca prejudicar. As resistências vão caindo e as surpresas surgindo. É muito estimulante.

Lisboa, 17/02/16 - Filipe Faísca, criador de moda, entrevistado na sua loja para o site delas.pt. (Sara Matos / Global Imagens)
(Sara Matos / Global Imagens)

Quem é o Filipe Faísca?
Um homem que se vê como um pássaro…

Como um pássaro?
Sim, na liberdade de poder circular, observar, analisar, cuidar.

Que tipo de pássaro?
Na verdade é mais uma ave de rapina… Uma águia!

As águias podem ser violentas, mortíferas para outros seres
Mas também podem ser belíssimas, protetoras, perspicazes. Gosto de me ver com as minhas asas bem abertas a planar sobre quem preciso de cuidar, ajudar, incentivar.

Se não fosse designer de moda que profissão escolheria?
Bailarino, a dança representa movimento, fiz patinagem artística durante alguns anos; também poderia ter sido pintor….

O formato do desfile ainda faz sentido para si? Porquê?
Não. Há vários anos que falo com a Eduarda Abbondanza sobre a vontade de fazer um desfile por ano. Ainda não consegui, porque me pedem recorrentemente para continuar a fazer duas coleções anualmente. Quem sabe um dia consigo!

Que género de mulher ou de homem gostas de vestir?
Gosto de vestir mulheres magras, independentemente da idade. Adoro ver uma peça que criei para apresentar num desfile, com modelos, e mais tarde vê-lo num corpo magro de uma mulher de 50 ou 60 ou 70 anos.

E as não magras?
Também as visto, mas quando falo de mulheres magras, falo de corpos que ficam bem dentro de tudo.

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