Girl Effect: um projeto de igualdade para raparigas

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Criado para apoiar as jovens mais desfavorecidas de países em desenvolvimento, o movimento Girl Effect tem inspirado muita gente a lutar por um futuro mais risonho para as raparigas de todo o mundo.

A Plataforma da Conferência Mundial sobre a Mulher, em Pequim (1995), foi inequívoca: as mulheres, principalmente dos países em desenvolvimento, necessitam de ser empoderadas, de se tornarem livres e independentes bastando para isso que lhes retirem os obstáculos associados ao género. Para quê? Para escaparem à pobreza, à violência, à desigualdade no acesso a educação, saúde e emprego. Para melhorarem a sua participação política e funcionarem como agentes de mudança da sociedade, já que são quase sempre os pilares da família.

Foi assim que surgiu o movimento Girl Effect, organizado inicialmente pela Nike Foundation para financiar projetos de apoio a raparigas desfavorecidas (estimadas em 600 milhões em todo o mundo). A operar atualmente em países como a Nigéria, Etiópia e Ruanda, entre outros, este programa coloca as raparigas em comunicação umas com as outras de forma trocarem experiências, conhecimentos e se incentivem mutuamente a estudar, encontram financiadores para programas escolares e de incentivo à sua integração no mercado de trabalho, nomeadamente ao nível da cultura, política e indústria.

Também combatem fortemente a crueldade que é a mutilação sexual feminina, mobilizando atualmente mais de 180 organizações em 43 países. Por exemplo, em 2006 a Nike Foundation e associados criaram o programa ‘Berhane Hewan’ para atrasar o casamento de 11 000 raparigas na Etiópia. Resultado: verificou-se que na vila de Mosebo as meninas, entre os 10 e os 14 anos, que tinham integrado o programa tiveram três vez mais probabilidades de frequentar a escola do que as restantes. O sucesso do ‘Berhane Hewan’ foi tal que o próprio governo, mais tarde, o abraçou e implementou no país.

As meninas são o futuro
A verdade é que as raparigas podem vir a mudar o mundo. Esta realidade começou a ser reconhecida nos anos 40, no Reino Unido, quando Churchill, por ter os seus homens em combate, começou a distribuir os abonos de família às esposas dos soldados. Cedo compreendeu que o subsídio era 100 por cento conduzido para melhorar as condições de vida da família, ao contrário do que acontecia quando era entregue aos maridos. Mais tarde, nos anos 70, também o criador do Microcrédito, o Nobel Muhammad Yunus, verificou que os empréstimos conferidos às mulheres resultavam na melhoria da qualidade de vida da sua família impreterivelmente, ao contrário dos homens que desviavam alguns cobres para a diversão. Até hoje elas são as candidatas favoritas do Banco Grameen criado por Yunus.

Mais: as mulheres são uma força económica por explorar. Excluí-las do mercado de trabalho implica enormes perdas para o PIB de qualquer país. Estima-se qu só o Quénia, por exemplo, ganharia 27 mil milhões anualmente caso as suas estudantes concluíssem o secundário ou a universidade, e o Brasil perde 17,3 mil milhões por ano devido à taxa de desemprego entre as jovens, de acordo com dados disponíveis em Girl Effect.

No entanto, a educação está longe de ser equitativa para ambos os sexos. Segundo dados da ONU, existem 8 milhões de meninos sem acesso à escolaridade para 16 milhões de meninas. E meninas sem estudos é sinónimo de casamentos e maternidade precoces, além de salários abaixo da média. Quando uma rapariga num país em desenvolvimento recebe sete anos de ensino, em média casa-se quatro anos mais tarde e tem menos dois filhos do que as restantes, mas ainda existem pelo menos 16 milhões que não frequentam sequer o ensino básico. Destas, uma em sete casará até aos 15 anos e provavelmente terá um filho antes dos 18 sem qualquer apoio médico (a gravidez na adolescência é a principal causa de morte entre as jovens nestes países).

Efeitos em português
Embora em Portugal o fosso de acesso a oportunidades entre raparigas e rapazes, mulheres e homens, seja mais atenuado, as estatísticas ainda não demonstram que ambos os sexos tenham atingido um patamar de igualdade. Em indicadores como educação (em que as mulheres até têm níveis de escolarização mais elevados do que os homens), saúde e participação política, Portugal sai-se bem na fotografia. Na área económica também há bons resultados — a taxa de participação feminina no mercado de trabalho é das mais elevadas da Europa, próxima da dos homens.

O pior são os rendimentos. Segundo um estudo do Instituto de Ciências Sociais (2015), o rendimento médio mensal dos homens portugueses é de 1093 euros brutos e o das mulheres é de 958 euros brutos (incluindo salário base e suplementos, como horas extraordinárias), sendo que à medida que a idade avança as divergências também. Além da desigualdade laboral há outra preocupação: a violência doméstica. Apesar de também atingir os homens, as principais vítimas são as mulheres. Entre 2004 e 2014 faleceram 398, vítimas de agressões de acordo com o último relatório do Observatório de Mulheres Assassinadas da União Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR).

“Sentimos necessidade de espalhar a mensagem do Girl Effect também em Portugal e criar um espaço de reflexão, análise e ação dirigido à rapariga portuguesa para que, também ela, possa dar origem a este efeito”

Quem o diz é Ana Costa, membro do Graal, movimento que tem promovido ao longo dos últimos 50 anos no país programas e projetos que visam a igualdade de oportunidades entre as mulheres e os homens e a conciliação da vida profissional com outras esferas de vida. Foram desenvolvidas ações de sensibilização junto de jovens sobretudo para questões ligadas à igualdade de género.

“A partir de certa altura as nossas raparigas mais velhas começam a fazer a sua trajetória independente e a intervir por exemplo nas escolas secundárias ou em campos de férias, onde a prioridade neste momento é a educação pelos pares e também na melhoria da sua autoestima – as meninas têm que estar de bem com elas para depois enfrentarem o mundo. A sociedade e publicidade que divulga a mulher como corpo-objeto não ajudam”.

Mónica Freitas, estudante de Serviço Social em Coimbra é uma das girls do Graal. Começou a sua formação no Funchal e quando entrou na universidade juntou-se ao grupo da cidade dos estudantes. Neste momento já sensibiliza meninas mais jovens nas escolas secundárias e foca-se sobretudo na violência no namoro. O dado são preocupantes: segundo um estudo desenvolvido durante quatro meses pela UMAR, junto de jovens do Grande Porto, Braga e Coimbra, os rapazes legitimam mais os comportamentos violentos do que as raparigas e, da totalidade dos 2.500 jovens, 16% considera normal forçar o/a companheiro/a a ter relações sexuais.

“Muitas raparigas são pressionadas para darem passwords do Facebook e de e-mail, para não usarem determinadas roupas, abandonarem amigos rapazes, além de serem agredidas verbalmente, mas acham tudo muito natural”, revela. “Pensam que é sinal de amor e que os namorados estão a cuidar delas, quando no fundo só tentam agarrar o rapaz por desespero e falta de autoestima”. Parece que já temos total acesso à educação, mas falta o essencial: a autovalorização. É que se as leis já protegem as mulheres, as mentalidades tardam em mudar.

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