Gonçalo Peixoto: “O público acha que a moda de autor tem preços muitos mais elevados do que tem”

As peças deste criador já apareceram em revistas estrangeiras de moda, a coleção desta primavera é a oitava que lança, ainda está a tirar a licenciatura em design de moda, mas já é reconhecido na indústria apesar de nunca ter desfilado nas passerelles nacionais. Falamos de Gonçalo Peixoto, um jovem criador português de 20 anos, que tem um percurso no mínimo curioso sobre o qual quisemos saber mais nesta entrevista.

Como é que a moda surgiu na sua vida?

A moda apareceu muito cedo, a minha mãe gosta muito de moda e desde pequeno que tive muito contacto com este universo através dela, sempre fui muito às compras com ela e esta paixão também começou a crescer em mim. Sempre adorei ler sobre moda e este interesse foi sendo cada vez maior.

O que gosta de ler sobre moda?

Gosto muito de ler reviews de desfiles porque acho que faz todo o sentido perceber o que a crítica acha do trabalho dos meus colegas e também do meu trabalho.

Encontra nas publicações de moda inspiração para as suas próprias coleções?

Sim, muitas vezes. Acho que uma coisa muito importante dos media serem cada vez mais rápido, é darem um acesso quase imediato a tudo e isso é muito importante. É fundamental saber o que se está a usar e quais são as tendências, esse é o trabalho de casa de qualquer criador.

Como é que esse imediatismo dos media e das redes sociais, muda o processo de criação?

Traz sobretudo muita rapidez, e isso faz com que as coisas sejam feitas mais depressa e com mais vontade. As clientes quando vêm uma peça querem-na logo, é um desejo instantâneo. Eu sou um designer desta era, por isso o novo sistema de moda “see now buy now“. Quando lanço as campanhas as minhas peças ficam logo disponíveis, apesar de depois só entrarem nas lojas na estação seguinte.

Quais são as peças que as clientes Gonçalo Peixoto mais gostam?

Para minha surpresa as minhas clientes gostam de arriscar. Claro que a peça que se vende mais é a camisa branca porque é um clássico, mas depois há muita coisa mais irreverente que também tem sido muito bem aceite.

A marca já começou a sua expansão internacional?

Ainda não, mas é algo que eu quero muito porque é fundamental.

Esta coleção de verão é inspirada em Marraquexe porque é que escolheu esta cidade?

É uma das minhas cidades preferidas, lá tudo é diferente. Há uma calma que não existe em Portugal, tem outro tempo, as pessoas são mais simples. Há tempo para respirar, para parar e para analisar pensamentos. E eu gosto dessa calma. Estando em Marraquexe comecei a observar as mulheres e a maneira como elas se vestem e como se tapam, é algo que me intriga. Quando comecei a desenhar todas estas imagens estavam muito presentes em mim e acabaram por me influenciar.

Como é que uma estética tão tradicional e com tão poucas formas, como são as túnicas marroquinas e os lenços, inspiram uma coleção para mulheres ocidentais e modernas?

O que eu tentei fazer foi perceber o pensamento feminino. Sabemos que Marrocos é um país onde a homossexualidade entre mulheres não existe, é um assunto tabu, por exemplo. Eu através de uma maneira neutra tentei representar essas realidades. A coleção está cheia de fitas e tiras que representam a privação de direitos que as mulheres sentem, tentem representar essa ideia de prisão da mulher e de uma tentativa de libertação.

Uma característica das suas coleções são os elementos de alfaiataria levados para o universo feminino, porquê?

É engraçado que em minha casa não era só a minha mãe que gostava de moda, o meu pai também ia aos alfaiates fazer os fatos por medida e esse gosto também passou para mim.

Qual é a importância da qualidade dos materiais e da qualidade da confeção?

Toda, para mim é 90% da peça. Um bom material, uma boa modelagem e boa confeção é tudo, porque é isso que distingue a moda de autor da moda de massas.

Porque é que escolheu o caminho da moda de autor, quando podia ter ido para um gabinete de design de uma grande marca?

Porque queria ter alguma coisa minha. É sonho que tinha desde que comecei e que me dá muito orgulho. Nem sempre é fácil mas é o que me dá mais gozo.

O Gonçalo fez o curso profissional, lançou a sua marca e agora está a terra a licenciatura em design de moda. O curso está-lhe a ensinar alguma coisa que ainda não soubesse?

Eu adoro aprender, acho que nunca sabemos o suficiente. O curso está-me a trazer imensa experiência, a oportunidade de poder tentar fazer coisas novas que é muito importante. Hoje é tudo tão rápido que não há tempo para fazer experimentações nas marcas e isso é muito importante para os criadores. É fundamental ter esse tempo para parar e perceber o sentido que queremos que as coisas levem. Este tempo de estudo está-me a permitir experimentar novas técnicas e perceber o que mais gosto de trabalhar enquanto criador.

Não se sente a fazer o percurso um bocadinho ao contrário, isso muda a maneira como vê as coisas?

Às vezes é complicado conciliar as coisas. Fui um bocadinho ao contrário da maré, mas apesar de me dar trabalho é disto que eu gosto.

A moda portuguesa tem tido um grande crescimento nos últimos anos, como é que a encara?

Tenho uma grande esperança no setor, acho que a moda nacional se está a tornar moda, os compradores apostam cada vez mais no que é nacional, sobretudo os portugueses.

Acha que existe capital financeiro suficiente para este investimento?

Sim, acho é que o público acha que a moda de autor tem preços muitos mais elevados do que na realidade tem e isso inibe o publico. Falta transmitir informação sobre a moda nacional e sobre qualidade e a sua relação com o preço.

O que é que falta para haver mais essa informação?

Acho que faltam mais lojas a vender o que é português. Faltam grandes plataformas a vender o que é nosso, mais lojas de criadores em bons locais e faz falta uma melhor comunicação.

Como é que define a sua marca?

A Gonçalo Peixoto é livre e contemporânea, para mulheres seguras e fortes.

Como é que se transmite liberdade na roupa?

Ainda há pouco tempo estava a refletir sobre isso e cheguei à conclusão que liberdade se transmite não através da roupa mas da atitude de quem usa a roupa.

Então é a mulher que faz a roupa e não a roupa que faz a mulher?

Sim, acho que sim.


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