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Gregório Duvivier: “O humor também serve para alimentar as almas, nesse momento de guerra civil”


Começa hoje a segunda digressão de Gregório Duvivier em Portugal, com uma peça de teatro escrita por João Falcão. No palco do Tivoli em Lisboa, vai ver-se ‘Uma noite na Lua’, hoje e durante mais quatro noites. Depois a tournée sobe ao Porto, passa por Coimbra e acaba em Castelo Branco. Falámos com o ator e criador de ‘Porta do Fundos’ sobre humor, teatro e acabámos na política porque, como ele afirma, “hoje é impossível não falar”. Mas comecemos pelo que o traz cá.

Vem a Portugal pela segunda vez para apresentar a peça ‘Uma noite na Lua’, uma peça de João Falcão. Como é que explica o sucesso desta peça?

Eu acho que ela consegue uma proeza que é o unir a comédia e o drama. Acho que são duas coisas muito complementares. Eu amo quando uma peça me comove e quando me faz rir. Este texto, quando o li a primeira vez, me apaixonei por ele, por causa disso. Eu estou há quatro anos com esse texto em cartaz e não me canso. A peça preenche as duas vontades minhas e do público que são a comoção e a diversão.

Mas, pelo menos em Portugal, é mais reconhecido como ator cómico. Isso não dificulta o trabalho dramático? Não há o perigo de abrir a boca e já estar toda a gente a rir?

O riso é muito bom. Realmente as pessoas riem mais do que aquilo que eu esperava, sobretudo em Portugal.

Achava que ia encontrar um país triste e soturno?

Nada. Vocês são é festeiros e sorridentes. As pessoas riem muito e são muito calorosas. Acho muito bom. Esta peça tem um humor triste. É bom as pessoas rirem de si mesmas. Às vezes, no Brasil, as pessoas não percebem esta piada. Acho que combina bem com o humor português. Vocês são muito autoirónicos. Há uma risada portuguesa muito engraçada que é uma risada de si mesmo. Vocês sabem rir de vocês próprios, tanto é que os portugueses adoram fazer piada com o país.

Mas não é muito habitual gostarmos que outros façam piadas sobre nós.

Mas esta peça não faz isso, não ri dos portugueses. Ri da personagem, uma coisa que os portugueses fazem muito. Então, há mais relação com esse humor poético de vocês. O humor brasileiro é muito… é muitas oitavas acima. É preciso botar uma peruca, pintar o rosto. É um humor muito mais caricatural, mais exagerado. Tenho impressão que o humor de vocês é mais subtil.

O programa ‘Porta dos Fundos’ foi a sua porta de entrada para o público português. O humor que fazem é mais próximo do português? Aí não fazem esse humor muitas oitavas acima.

Não. Até porque não nos identificamos muito com o humor brasileiro, confesso. Bebemos mais noutros humores. Eu, em particular, bebi muito do humor português. Fui muito fã do Gato Fedorento, por exemplo, assisti muito. Na época eu nem tinha internet e pedia aos meus amigos para trazerem o DVD. Depois via, no Youtube, o Bruno Aleixo e amava, quando vim para cá conheci os outros: o Bruno Nogueira, de quem fiquei fã, também. Acho que aqui há um humor muito corrosivo e muito sério, no melhor sentido da palavra. Vocês levam o humor a sério.

O humor serve para iluminar os defeitos da sociedade? É isso que fazem no ‘Porta dos Fundos’?

É, o humor serve para isso. O humor não tem a obrigação de fazer pensar, mas ele é muito melhor quando faz pensar. Temos essa crença que o humor não serve só para as pessoas se esquecerem do mundo, serve também para as pessoas se lembrarem do mundo.

Mas a receção desse humor é muito maior e melhor nas classes sociais mais altas ou pelo menos nas mais escolarizadas, ou não?

Sabe que nos surpreendemos com o alcance? Sempre achámos que seria assim porque era o que a [TV] Globo nos dizia: “o humor que vocês fazem não é popular, é por isso que vocês não têm espaço aqui dentro”. Quando abrimos a Porta dos Fundos vimos que não. O canal Porta dos Fundos tem 12 milhões de inscritos só no Brasil e há mais gente que assiste. O Brasil não tem 12 milhões de pessoas abastadas. Eu acho que as barreiras do Porta, mais do que a educação das pessoas, acho que é a barreira da internet. O Brasil tem metade de excluídos digitais. Acho que as barreiras do Porta são tecnológicas. Eu não vejo que o nosso humor seja elitista, antes pelo contrário. A gente se preocupa muito em fazer piadas acessíveis, populares, que não sejam snobes.

Mas há uma linha de bom gosto.

Sim, tem coisas que a gente não faz. A gente não vai fazer aquelas piadas predominantes na televisão brasileira.

E há um retrato das mulheres descolado da realidade. O estatuto da mulher é um assunto que vos preocupa?

Muito. Estamos muito atrás no Brasil, do resto do mundo. Pelo menos dos países que eu conheço. Certamente muito atrás de Portugal, pelo menos do que eu vejo as relações, quando vejo o humor que se faz. O Brasil costuma rir das mulheres, nunca com elas. As personagens femininas são normalmente interpretadas por homens, com peruca, que fazem sempre uma mulher estereotipada e fútil. Em geral ela ou está de biquíni e é uma gostosa, ou ela é um homem vestido de mulher. É triste. É muito fácil bater na mulher ou ridicularizar o negro e o pobre, que é o que o humor faz. No Brasil, no humor tradicional televisivo os principais alvos são os caipiras, que moram no interior, os pobres, as mulheres, os negros, os homossexuais. O humor no Brasil bate nas mesmas pessoas que bate a polícia. Tentamos lutar contra isso. Quando pensamos que a gente tem agora um Presidente interino que elegeu 22 ministros e nenhum deles é mulher é exemplar.

O que aconteceu a Dilma Roussef não aconteceria se ela fosse um homem?

Certamente que não.

Há uma questão machista no impeachement?

Claro, todas as críticas a ela, via-se na rua, diziam “vaca”, “vagabunda”. Chingamentos que nem têm equivalente masculino. Mesmo o “Tchau, querida”… não teria isso para um homem. É uma coisa paternalista. É o mansplainig em ação. Ficou muito claro, nos debates entre Dilma e Aécio Neves em que ele ria dela, ridicularizava, falava por cima. Certamente as pessoas não teriam a mesma “coragem”.

E este governo brasileiro, todo homem, todo branco, todo rico, o que é que vai fazer ao Brasil?

Acho que já começou a fazer muito mal. Começaram por extinguir o Ministério da Cultura e fechar a Controladoria Geral da União, que o órgão responsável por investigar a corrupção. Acabaram de nomear para Secretário da Justiça um homem que é responsável por mandar espancar os alunos, comandou uma chacina e já disse que vai reprimir as manifestações contrárias ao Governo e que não há direitos absolutos. Ou seja, uma limitação dos direitos civis. É um governo que já começa muito mal, cerceando liberdades, que começa fechando direitos. O novo ministro da educação tinha-se manifestado antes contra o Pra Uni, o programa de bolsas para alunos em Universidades particulares. Uma das grandes vantagens do PT, que tem muitos defeitos, é o vertiginoso aumento de universitários no país. A quantidade de gente que tem pais analfabetos e que está na universidade é incrível. Eu entrei na faculdade em 2004 e foi a primeira vez que uma geração inteira pode entrar na faculdade. É o Ministro da Educação e sempre votou contra o acesso à educação para todos.

Dá para prever um retrocesso social?

Sim, já aconteceu. O Ministério da Cultura começou em 1985 com a democracia. Não é à toa que ele termina também com a democracia.

Como é que passa de ator, comediante, para ativista político? Como é que tomou para si esse papel na oposição?

Eu queria muito não ter de falar de política. Seria lindo se eu não precisasse de falar de política. Mas hoje em dia é impossível não falar. De alguma forma o teatro também é sempre político. Há uma comediante brasileira, a Laerte [Coutinho] que diz que todo o humor é político. Na guerra, é importante não só fazer munições mas também alimentar os soldados que estão na trincheira. Em algum lugar, humor também serve para alimentar as almas, nesse momento de guerra civil. Tudo é político, inclusive uma postura não obviamente politizada. Eu queria muito que o país estivesse melhor para eu não precisar de ser tão obviamente político, para poder ser político de uma forma mais subtis.

Como é que vê o seu trabalho no futuro no Brasil, considerando as condições políticas do país?

Eu acho que vou fazer uma oposição muito ferrenha a este governo. Eu já comecei. Eu escrevo crónicas na Folha de São Paulo todas as semanas. Há um tempo eu falava de outras coisas de futebol ou de amor ou de comida. Queria poder voltar a falar de comida mas é difícil falar de comida quando estão a extinguir o Ministério da Cultura, quando não há nenhuma mulher no governo e o sujeito que assumiu é retrógrada. É difícil falar de comida. Parece uma alienação.

Acredita que o regime brasileiro se vai tornar numa ditadura formal?

Eu acho. Por enquanto é uma ditadura branda, foi um golpe branco, de processos burocráticos. Uma particularidade deste golpe é que ele não tem militares, tem o apoio da imprensa nacional. Assim como o outro, o golpe militar [1964] também teve o apoio de quase toda a imprensa, e agora também – da Globo, do Estadão, da Folha um pouco menos. As pessoas estão aprovando um golpe que tem as aparências da justiça. O impeachement não é um golpe necessariamente. É neste caso, porque os processos são respeitados em tudo, menos no essencial: que o facto de haver crime. Não há crime. Se há crime é a pedalada fiscal. E se há esse crime o Michel Temer não pode ser presidente porque ele assinou as mesmas pedaladas fiscais.

Já usou a expressão guerra civil. Acha mesmo que vai dar guerra?

Eu tenho medo que essa ditadura branda que está ocorrendo dê lugar a uma ditadura mais brusca, porque as pessoas vão para as ruas. Não é como em 1964, quando era muito fácil calar o povo. Embora as pessoas tenham ido para a rua, a maioria do povo ficou calado porque era muito fácil pensar o mesmo – não havia uma imprensa independente. Hoje temos uma imprensa independente forte. E as pessoas têm acesso a jornais estrangeiros que estão fazendo uma cobertura muito melhor do que os jornais brasileiros. Dá para ver isso aqui em Portugal. Mesmo os grandes jornais, que não cobrem tão imparcialmente a política portuguesa, estão cobrindo a política brasileira com mais senso crítico. Não estão comprando essa narrativa da luta contra a corrupção que é uma narrativa que os jornais brasileiros compram, ou “o povo tira Dilma” que é outra história que se vê nas capas dos jornais. E essa narrativa não está sendo comprada tão facilmente pelos jornais portugueses.

E quem não está de acordo com o impeachement continuará a ir para a rua?

Espero que sim. Ontem eu soube que o governo do presidente interino apareceu num programa de domingo na televisão e ouviu-se um panelaço tremendo. Eu não esperava. Normalmente o panelaço é uma ferramenta da direita. Mas fiquei feliz por saber que estão batendo panelas. Fico feliz por perceber que esse governo também não agrada às pessoas da direita, não pode agradar. Se é verdade que a luta era contra a corrupção, ela também tem de ser contra Temer. Ou então não era contra a corrupção, era contra o PT ou a esquerda, era contra uma mulher no poder… certamente, não contra a corrupção.

Carla Macedo