Hugo Nóbrega: “Não gosto de defraudar o público, gosto sempre de surpreender”

Lisboa, 07/04/2016 - Hugo Nóbrega, organizador do festival Storytelling Grant's Stand Together, fotografado esta manhã no cinema São Jorge, antes duma entrevista ao Delas.pt
 
( Gustavo Bom / Global Imagens )

Mudou de nome mas o formato mantém-se. De 14 a 16 de abril o cinema São Jorge, em Lisboa, recebe o Grant’s Stand Together que este ano sobe, pela primeira vez, ao Porto, abrindo as portas do Cinema Batalha, nos dias 22 e 23. O festival de storytelling mantém o conceito das quatro edições anteriores: a programação gira em torno das histórias contadas na primeira pessoa e reúne este ano nomes como Capicua, Fernanda Serrano, Inês Castel-Branco. A apresentação continua a cargo de Joaquim de Almeida mas foi com Hugo Nóbrega que falámos sobre o festival. O programador é, na verdade, diretor da agência H2N uma empresa especialista em criar fenómenos. O que é que isso quer dizer? “Trabalhamos com marcas, trabalhamos com pessoas que nós consideramos fenomenais e tentamos sempre pensar fora da caixa e fazer eventos que movam realmente multidões.”

Este Grant’s Stand Together é um desses fenómenos?
É mesmo… Nós trabalhamos a marca Grant’s desde 2011. A Grant’s já tinha ideia dos true tails e desenvolvia estes projetos no Reino Unido, nós fomos lá assistir ao projeto e desafiaram depois vários países para a apresentarem um modelo que pudesse ser ativado no resto do mundo. Felizmente Portugal foi o país escolhido. Na altura apresentamo-lo a título interno e os convidados acharam o projeto muito interessante. Depois passamo-lo para o público, em 2012, no Tivoli e desde aí passamos para o São Jorge. Este projeto acabou por não vingar noutros países… Portugal revelou-se um mercado diferente, inovador.

O nome mudou porque a ideia é globalizar o festival?
Este ano o projeto mudou para Grant’s Stand Together exatamente por causa da estratégia mundial da marca… No fundo, há aqui um alinhamento que é normal nos eventos de true tails, mas que mundialmente não era utilizado e então alterámos o nome mas continuamos aqui com o mesmo ADN.

Continua a ser um festival de story telling.
O ADN é completamente o mesmo.

Como é que se diz story telling em português?
É engraçado. Existem organizações em Nova Iorque onde para além do stand up comedy, existe mesmo o storytelling. Cá, efetivamente, pelo menos quando nós começámos, não tínhamos esta expressão sequer traduzida, não havia sequer pessoas profissionais a contar histórias, histórias de vida, o que estamos a falar isso: histórias verdadeiras de vida. Estamos a falar normalmente de um conceito: alguém que chega e conta uma história, normalmente verdadeira, que se passou com ele ou com alguém muito próximo. Não estamos a falar de um TedEx. Não é uma história que tenha de ter uma mensagem motivacional. Estamos a falar normalmente de uma história íntima que pode ser ou não, divertida, não tem de o ser. Já aconteceu bastante neste festival nós sentirmos altos e baixos no público e ser muito interessante. Penso que não há uma tradução. Estamos a falar de histórias verdadeiras, portanto o contador de histórias é-o na primeira pessoa. Nós chamamos storyrtellers a estes convidados, mas na realidade nenhum deles sinceramente se considera um storyteller profissional. Talvez haja uma exceção de alguém que aqui venha que já tenha feito… Estou me a lembrar de um ou outro humorista ou apresentador de televisão, que obviamente tem a noção como é orador público, mas há aqui muitas pessoas que é uma estreia mesmo para elas

Qual é o critério? Como é que se constrói o painel de storytellers? O programa tem pessoas tão diferentes como o Nuno Gama, a Fernanda Serrano e o Fernando Alvim.
Sim. Nós começamos este projeto com pessoas anónimas, em 2011, quando tivemos esse evento interno e já na altura foi muito complicado convidar pessoas anónimas a contar histórias para uma plateia. Ainda por cima essa plateia tinha imensos atores e pessoas que nós achávamos que podiam ser opinion leaders. Foi desde o início muito complicado e queríamos saber qual era a história e eles escreviam-nos e nós ajudávamo-los a perceber se o fio condutor da história era aquele e estava tudo bem. A partir do momento em que passamos isto para grandes personalidades nós deixamos de ter uma regra de ter de saber qual é a história, mas ao escolhê-los achamos que devem representar pessoas de diferentes áreas. Hoje em dia consideramos que são personalidades que por algum motivo se destacam e que representam bem o target a que queremos comunicar. Neste caso temos esse exemplo do Nuno Gama, uma pessoa da moda, no dia dele temos uma atriz como a Inês Castel- Branco, temos um locutor de rádio, o Vasco Palmeirim, tentamos dar sempre aqui um toque improvável. E depois também há algum tato que nós temos de ter: será que esta pessoa é uma boa contadora de histórias? Vamos pesquisar como é que ela reage ou se de algum modo ela já conhece o conceito. Felizmente, agora, na 5ª edição começamos a ter isso. Depois fazemos um almoço de preparação, com o Joaquim de Almeida. O Joaquim é um grande anfitrião, super acolhedor, gosta de conhecer as pessoas que vão contar histórias e faz um almoço muito informal. Muitos delas vêm com duas ou três ideias e nós damos a nossa opinião. Eu gosto mais que me contem o lado B da vida. De um músico, as pessoas vão estar à espera que conte uma história na estrada, ou uma grande loucura que fizeram, isso é giro obviamente, mas ainda é mais giro se contar uma história que as pessoas não estão mesmo à espera.

Isto quer dizer que no Grant’s Stand Together deste ano não vamos ouvir a Fernanda Serrano a falar de cancro, nem a Rita Ferro Rodrigues a falar de feminismo?
Eu calculo que sim, que é isso que vai acontecer. Não vamos ouvir. Não é um, não é nada provado ainda. Normalmente, essas histórias que estavas a dizer são profundas, mas talvez as pessoas por já terem falado muito nelas prefiram mudar de registo. Agora, se calhar o público vem à espera disso, isso também é verdade. Também não gosto de defraudar o público. Não estou aqui a dizer que meto um travão para as pessoas não virem ao que estavam à espera. Eu não gosto de defraudar o público, gosto sempre de surpreender.

Lisboa, 07/04/2016 - Hugo Nóbrega, organizador do festival Storytelling Grant's Stand Together, fotografado esta manhã no cinema São Jorge, antes duma entrevista ao Delas.pt ( Gustavo Bom / Global Imagens )
Hugo Nóbrega do festival Grant’s Stand Together (Gustavo Bom/Global Imagens )

 

Este ano, na verdade não está a organizar um festival, está a organizar dois, um em Lisboa outro no Porto. É o dobro do trabalho?
É… é o dobro do trabalho, mas é assim. Por um lado em termos estratégicos era muito importante estar na cidade do Porto, um mercado onde não estamos muito bem implementados, e por outro lado havia há sempre esta ideia nós fazemos aqui um trabalho único, custa-nos sempre esta ideia de termos um investimento desta forma e só conseguirmos estar aqui três dias. Então este ano desafiámos o Joaquim a pensar sobre isso e estar cá mais uns dias. Depois foi a escolha do espaço, que também foi uma ocasião fantástica, vamos estar no Cinema Batalha que tem muito a ver com o cinema de São Jorge…

E que vai estar aberto só para o Grant’s Stand Together, não é?
Sim, vai estar aberto só para nós. Muita coisa me preocupava. Eu não queria defraudar muito o formato, imagine que aquilo de fazer no Porto mas era uma sessão de 5 stroytellers. Era giro, obviamente, mas o que é giro neste festival também é o cruzamento. Não se vai para ver um espetáculo, tira-se uma noite para vir aqui, beber um copo, estar com os amigos, rir-se das histórias, qual é que gostou mais… Sai dali, bebe uns copos com música e tudo isto acaba por ser um contexto de festival. E foi muito interessante conseguir levar esse formato para o Porto. A programação do Porto ainda esteve para ser um bocadinho maior, estivemos aí com uma oportunidade ou outra que depois não surgiu. Vamos só ter de apresentar mais ou menos o formato que até tornou o festival mais ou menos conhecido e famoso que é o storytelling. Vamos ter duas sessões com o Joaquim de Almeida a apresentar. Tentamos também na edição do Porto que não fossem só oradores do Porto. Já levamos muitos oradores de Lisboa de propósito. Um bocadinho para tentar que o Porto sinta mesmo que nós também estamos a querer dar um best of do que andamos a fazer aqui, misturado com algumas personalidades que nós consideramos carismáticas da cidade.

Conheça a programação dos cinco dias do festival Grant’s Stand Together.

 

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