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Incontinência fecal, um problema de saúde com solução

É um tema tabu, um tema do qual não se ouve. E percebe-se porquê. Ainda que falar sobre os intestinos possa estar na moda – e os vários livros recentemente publicado sobre o tema são prova disso -, a incontinência fecal não tem tido o mesmo protagonismo. José de Assunção Gonçalves, cirurgião geral do Hospital Luz Lisboa, confirma que assim é. Que embora sobre outra incontinência, a urinária, se fale mais, à volta desta existe ainda “muito pudor, muita vergonha”.

Tanto que há doentes que nem ao médico vão – estima-se que apenas um em cada 12 o faça. E isto apesar de ser “bem mais comum do que se pensa. Estima-se que na população adulta tenha uma incidência de até 10% e que afete seriamente a qualidade de vida de cerca de 2% da população”.

O que é exatamente? Basta imaginar querer ir à casa de banho, correr para ela mas nunca chegar a tempo. Virgínia, 58 anos, sabe bem do que se trata. Durante quase um ano sofreu com este problema. Começou por ter dificuldade em conter-se para, depois, deixar completamente de o fazer. Ajuda, só procurou mais tarde, quando já era incapaz de controlar o próprio corpo.

“Deixei de sair tanto de casa, com medo de me dar vontade. Recordo-me de, um dia, estar no talho, sentir uma cólica e ter que correr para a casa de banho mais próxima, no café ao lado. Mas não fui a tempo. Tive mesmo que ligar ao meu marido e pedir para ir ter comigo para me levar uma muda de roupa.”

São sobretudo as mulheres as mais afetadas. E o trauma obstétrico, que pode ocorrer durante o parto, é um dos principais responsáveis, ao qual se junta o trauma cirúrgico. “Há cirurgias naquela zona do corpo que também podem lesar os músculos”, refere o especialista que alerta que, no entanto, o problema “muitas vezes não se manifesta logo a seguir ao parto, mas sobretudo após a menopausa, resultado das hormonas e da atrofia dos músculos”. Daí a importância dos exercícios da musculatura anal e perineal, aconselhados às recém-mamãs.

Ninguém tem dúvidas de que se trata de um tema que mexe com muita coisa, “desde a vida social, íntima, sexual”, confirma o médico. E que, durante muito tempo, falhava nas respostas. “As pessoas estavam condenadas a viver com fraldas.” A Virgínia aconteceu o mesmo. Mas o crescente “receio de que acontecesse alguma coisa” levou-a a procurar ajuda médica. É que, explica José de Assunção Gonçalves, “há solução e as pessoas não estão condenadas a viver em casa, sem poder sair”. Já é possível, garante, “que tenham uma qualidade de vida boa, uma vida digna como outra pessoa qualquer”.

Uma solução com provas dadas
São várias as soluções, que variam consoante a gravidade do problema. Uma delas é a estimulação das raízes sagradas, um tratamento que se faz a dois tempos e que, como confirma o cirurgião, “tem demonstrado os melhores e mais consistentes resultados, não só a curto prazo. As opções cirúrgicas que tínhamos tinham resultados muito fracos a longo prazo”.
Virgínia é uma das doentes que a ele recorreu. Primeiro, foi-lhe colocado um elétrodo, “inserido nas raízes dos nervos que vão para aquela região que, com a ajuda de um neuroestimulador, vai modular quer a sensibilidade, o tónus, a força dos músculos. Não só a nível local, mas também central, do sistema nervoso, porque o estímulo sobe para o cérebro”, explica o médico. O passo seguinte é a colocação definitiva do neuroestimulador, um pequeno aparelho semelhante, pelo menos de aspeto, ao pacemaker, que pode ser ajustado consoante as necessidades do doente.
“A diferença é muito grande”, confirma Virgínia. Com o alívio espalhado no rosto, recorda como foi capaz de fazer as compras, de ir onde era preciso. E ainda que a vontade de ir à casa de banho tivesse chegado, conta como foi capaz de controlar o corpo. Uma vitória a que apenas quem convive com o problema consegue dar o devido valor.

Informação em forma de site
É para falar sobre o tema, para informar e tentar desmistificar que nasce o site www.incontinenciafecal.pt. O objetivo é aqui, explica João Pimentel, presidente da Sociedade Portuguesa de Coloproctologia e cirurgião geral, é “disponibilizar informação atual e completa a pessoas que sofrem de incontinência fecal e que, por embaraço ou desconhecimento, mostram relutância em procurar ajuda”. Até porque, reforça:

“geralmente acabam por limitar as suas atividades sociais, faltar ao trabalho ou fechar-se em si mesmas para lidar com o problema”.

Alertar e informar sobre sintomas, causas e sobretudo dar conta de que se trata de “uma doença muito comum e que tem tratamento”.

Carla Marina Mendes