Inês Pedrosa: “Ainda não sou tão livre quanto gostaria”

Lisboa, 17/03/2016 - A escritora Inês Pedrosa fotografada esta tarde em Lisboa.
Inês Pedrosa 
(Gerardo Santos / Global Imagens)

Inês Pedrosa lança aos 53 anos mais um livro, o 20.º de uma carreira que começou com prosa para crianças. Antes desse ‘Mais ninguém tem’, vivia de escrever para a imprensa. Hoje vive hoje apenas dos livros, diz que não existe literatura feminina. ‘Desnorte’ é esse 20.º livro, feito de contos e com personagens à procura de identidade. Uma ideia que não é necessariamente triste ou negativa, diz a escritora.

Este é o seu segundo livro consecutivo com um sufixo negativo no título, o “des”. Há alguma razão especial para estes títulos?

É um sufixo. O negativo já é uma apreciação subjetiva: é qualquer coisa que se desfaz! Isso não tem de ser necessariamente negativo. As pessoas que têm demasiado norte não são necessariamente mais positivas do que as que andam desnorteadas e por isso quando pensei no título deste livro comecei à procura de um título que pudesse dar uma ideia do conjunto. Embora eu tenha montado o livro por ciclos, há um ciclo inicial de histórias que tem a ver com relações familiares, a seguir com relações íntimas e eróticas, a seguir com relações com a sociedade e com o reconhecimento público e com o balanço de vida todos os níveis e, por isso, embora em cada uma destas histórias outros temas se cruzem, se há alguma coisa de comum a estas personagens é estarem em momentos em que o mundo que elas conheciam está a ser posto em causa. De certa maneira é como se estivesse a ondular e como se estivessem num barco e deixassem de ver o horizonte, vissem mar e mar e não vissem o que está à frente. É essa a sensação, ou por perdas, por se terem dado conta que não teriam feito as escolhas que fizeram se pensassem outra vez que há essa sensação. Quando estava a organizar os contos vi no meio um que se chama ‘Desnorte’. Então pensei ‘Desnorte’ para o título do livro. Já que o livro anterior se chamava: ‘Desamparo’, agora do ‘Desamparo’ passamos ao ‘Desnorte’. Os psicólogos têm uma estabelecida uma sequência de fases do luto. Uma fase da negação, uma fase da aceitação. Essas fases não se seguem todas por ordem nunca, com ninguém. Misturam-se. Baralham-se! Embora nada seja tão rigoroso na ordem da vida, penso que é possível passar do ‘Desamparo’ para o ‘Desnorte’ e do ‘Desnorte’ para outra visão do mundo. Seria qualquer coisa como: o desamparo imobiliza-nos, o desnorte obriga-nos a procurar uma bússola.

Essa melhoria de estado de ânimo é muito visível de um livro para o outro. ‘Desamparo’ pareceu-me profundamente triste e achei que este apesar da desorientação comum às personagens há qualquer coisa menos grave, com maior esperança. Estou a fazer a interpretação correta?

Não há interpretações corretas. Cada leitor faz o seu livro. Eu nunca penso que os meus livros são tão tristes. Se calhar, porque escrevendo-os também exorcizo a tristeza que tenha, como às vezes os leitores me dizem. Em particular o ‘Desamparo’ começa com uma situação… é evidente que senti que era importante escrever sobre o momento de particular aflição nacional, em que as pessoas se sentiam quase todas em pânico. Devo dizer que eu, talvez porque vivo muito a ler e gosto muito também de ler História, sei que o que nós dizemos sobre a crise e sobre os problemas que atravessamos já foi dito no séc. XVI, no séc. XVII… O país com maior dívida é os Estados Unidos. Esta coisa de ter uma dívida muito grande é uma grande vergonha, mas hoje a dívida, o crédito é o modo em que vivemos, portanto… Eu não tenho uma visão do copo meio vazio, tenho sempre do copo meio cheio. E quanto ao ‘Desamparo’ digo sempre: alguém reparou que é uma história de amor tardia e feliz que existe naquele livro? São pessoas que perderam tudo foram para a aldeia e se encontraram a elas próprias e se amaram. Por exemplo, às vezes nem gosto muito de sublinhar isso porque os romances de final feliz são pouco considerados, não pelos leitores, mas pela crítica. Quem “futurar” qualquer coisa de positivo é tido por menos inteligente do que os outros.

Mas o “Desamparo” tem aquela espécie de epílogo em que a personagem velhinha morre no final…

Ou não morre! Será que morre!? Eu penso sempre na força daquela personagem e acho que ela pode ter sido salva pelo animal… A história repete-se, mas não se repete sempre da mesma maneira. Todos nós havemos de morrer. Isso é uma inevitabilidade, não é? E nós esquecemos muito isso. Aquela personagem, que conduziu o livro, é inspirada numa mulher que eu conhecia, à qual é dedicado o livro, uma força da natureza… Jacinta é uma mulher que tendo tido uma vida muito difícil soube sempre encarar as coisas com uma bonomia e uma força, um amor pela vida e pelos outros e pelas recordações que tinha e pelos momentos bons que viveu. Acho que aquela outra mulher também era tão forte, também tinha vindo de outro país; deixei em aberto e para mim, sequer que lhe diga, ela não morreu, mas deixei em aberto.

O livro ‘Desnorte’, começa com um conto com uma personagem jovem que sente que apesar de ter feito imensa coisa, vista de fora como muito interessante, no encontro com o cantor ídolo da adolescência sente que não fez nada daquilo que gostaria de ter feito. Depois ao ler a ‘Susana’, outro conto a meio do livro, há a sensação de que elas são contraponto uma da outra, porque a Susana é a que se sente artista e que efetivamente nunca fez obra nenhuma. Há aqui uma tentativa de explorar o que é que é isto de ser artista?

Talvez… Nunca pensei nisso. O primeiro já estava escrito há muitos anos, fui trabalhando, mas é um conto já antigo e o “Susana” é do ano passado. É muito recente. Trabalhei nele até entregar o livro. É o último conto, de facto, que eu escrevi é o ‘Susana’. Claro que uma pessoa que trabalha com a arte e que sempre viveu ao lado de muitos artistas faz essa reflexão, mas eu vejo mais o primeiro conto como uma espécie de prefácio ao livro, porque é uma voz à procura de si mesma e é isso que todos os nós fazemos sempre, claro que vamos fazendo com uma segurança diferente ao longo da vida. A segurança é feita da liberdade de não nos importarmos com se corre bem ou mal, com a opinião dos outros, mas mais com o processo do que com o resultado, quando somos muito novos é mais sobre o resultado e a opinião de terceiros e essa rapariga ainda está nessa fase: o que é que quero? Interessa-me o que eu sou, o que eu faço e o que eu tenho ou reflexo no olhar alheio? E o confronto dela com o ídolo tem a ver com isso. Isso é um processo pelo qual todos passamos e ao mesmo tempo é uma definição do que é que uma voz é capaz ou não de fazer. Além disso, por isso tem aquela epígrafe, que é uma frase que todos os dias eu me lembro (e que não acho triste embora pareça): “cada voz está só e é única e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa.” Eu tenho uma péssima memória, mas há duas ou três frases que me… e esta, quando a pessoa se sente muito sozinha, é uma frase que consola muito, porque não somos só nós que estamos sós. Sentirmo-nos incompreendidos é a afirmação da nossa voz. A nossa identidade é sempre contra outra coisa qualquer e mesmo com as pessoas mais íntimas somos contra o coração dos outros e em Portugal isso é particularmente interessante…

A definição de nós próprios é feita por negação daquilo que os outros são?

Não por negação… Por afirmação nossa e não por vivermos em função das expectativas dos outros. Portugal como em todos os países pequenos e paternalistas, porque os países pequenos com ditaduras compridas tendem a ser muito paternalistas, há a tentação de nos afastarmos do que não concordamos. E eu tenho essa experiência porque escrevo nos jornais desde de muito miúda e escrevo opinião há muitos anos e é a coisa pior que me podem fazer. Eu adoro uma boa discussão e tenho muita pena que quando às vezes se esboça uma discussão política entre pessoas de quem sou bastante amiga, as pessoas fogem da discussão pensado que isso nos pode perturbar. Ora a mim o que me perturba é não ter a discussão. Gosto de uma boa refrega, não no sentido de nos pegarmos (embora também ache divertido, confesso), mas porque gosto de ver o que é que o outro pensa, porque é que o outro pensa da outra maneira. Tentar honestamente analisar. E acontece-me imenso nas crónicas receber e-mails de leitores (e mulheres, muitas) que dizem: “fiquei tão triste com a sua opinião”. Acho isto uma chantagem insuportável. Quase como se dissessem: “Se continuas a ter esta opinião não compro mais livros teus!”, “Atenção vê lá as opiniões que tens!”, ou “Porque sou amiga de uma amiga sua e achava que você era uma pessoa diferente”, “como é que uma pessoa de quem eu gosto pode ter uma opinião…” Acho este tipo de chantagem afetiva absolutamente insuportável.

Há muita liberdade expressão, mas pouca liberdade de pensamento?

Muito pouca liberdade de pensamento em Portugal. As pessoas entendem muito pouco. Sei lá, passo a vida a ouvir dizer: “Como é que tu se és de esquerda defendes, muitas vezes, Israel contra a Palestina?”, como de facto defendo. Quer dizer, tenho princípios que acho que se identificam mais com a esquerda, não sou regimentada a nenhum partido, até porque tendo sido jornalista muito cedo e achando eu que é completamente incompatível, o jornalismo com militância política, porque são fidelidades diferentes… Uma fidelidade ao rigor e à imparcialidade e outra a uma verdade que não se coadunam… Não se podem coadunar, mas gosto muito do exercício de pensar livremente e portanto penso a cada momento e procuro pensar como se estivesse a ver as coisas pela primeira vez. Posso errar, até porque eu não conheço todos os dados de cada problema, mas não tenho medo de pensar politicamente ou… Politicamente é mais fácil de dar exemplos, mas há muitas vezes que nós estamos a ter uma ideia que vai ser muito original e vai transformar alguma coisa, tememos desenvolvê-la por parecer ridícula, porque também há isso nos países antigos, formais, cerimoniosos, como foi sempre Portugal. Repare há muita poesia, sempre houve e não há ensaio em Portugal, porque o ensaio inclui o risco de pensar e muitas vezes encontramos pensamento dentro da poesia. O próprio Pessoa aliás, não só foi filósofo na poesia, como depois fez filosofia à parte e foi muito ridicularizado, porque depois achavam-no incoerente. Um dia pensava uma coisa, outro dia pensava outra coisa qualquer. Filosofia é ensaio, é laboratório de ideias. Nós temos muito pouco, muito pouco isso. Eu sinto muito a falta… Gosto muito da crónica porque me permite fazer isso, mas percebo que as pessoas acham que se eu penso A e B, então tenho de pensar C; se penso D e E… Por exemplo: sou completamente a favor de casamentos entre toda a gente que goste independente do sexo e das adoções, porque acho que as crianças precisam é de amor e sou completamente contra bancos de esperma anónimos e o anonimato e barrigas de aluguer e não sei o quê”. Portanto… Ah e sou contra os homossexuais que não se podem inseminar… Não! Podem se inseminar, desde que digam à criança de onde é que ela vem, porque a criança tem esse direito, porque há uma coisa que são os direitos da criança. Já me disseram por ter estas opiniões que eu… “Epá isso é um bocadinho homofóbico!” Mas quer dizer!? As pessoas não pensam, podem dizer que não concordam, agora não podem… Depois taxam, se não pensas assim é porque és isto, se pensas assim é porque és assado e realmente isso é muito constrangedor.

E a Inês tem alguma etiqueta que lhe sirva?

Não… Livre! Ainda não sou tão livre quanto gostava de ser. Passei muitos anos a pensar ai não posso escrever esta palavra porque a minha avó vai ficar chocada. Agora já não penso porque a minha avó, coitadinha, morreu, já há uns anos largos; mas penso na minha mãe. Claro que quando publiquei, por exemplo, ‘Os Íntimos’ a minha mãe começou a ler e começa com uma cena de sexo oral. Coisa que vem hoje na TV e que parece que faz cancro na cabeça, mas eu confesso que na altura não queria levar ninguém ao cancro na cabeça; não sabia, não estava informada desse aspeto. Enfim, as coisas que se leem… A minha mãe disse: “Não vou ler aquele teu livro pornográfico! Escreve outro que não seja pornográfico…” Mas eu agora já não me importo, deixo-a ter a opinião dela: “Oh mãe está no seu direito. Não quer ler, não leia.” Mas não vou deixar de escrever por causa dela. Isto foi uma evolução, porque eu aos 20 anos não escrevia por causa da minha mãe, por causa do crítico A, do crítico B, do crítico C. O que era uma estupidez, porque estar a escrever a pensar no que este e aquele vão pensar… Eu lembro-me que no primeiro romance estava a pensar: “eu não posso usar nenhuma expressão muito lírica, porque o lirismo está muito censurado e vão dizer que eu sou piegas”. Estava a pensar numa determinada crítica, porque as mulheres normalmente são críticas, são muito, muito piores umas para as outras. Ah aquela fulana não vai gostar e ela acabou a dizer que aquilo era tão certinho, em vez de dizer que era piroso, disse que era tão certinho que até parecia uma redação escolar e eu pensei: “bem feita para mim!”. Estavas ali a querer fazer de régua e esquadro e ela se calhar até tem um bocado de razão. Para a próxima não pensas nela e fazes o que te apetecer.

Lisboa, 17/03/2016 - A escritora Inês Pedrosa fotografada esta tarde em Lisboa. Inês Pedrosa (Gerardo Santos / Global Imagens)
Inês Pedrosa
(Gerardo Santos / Global Imagens)

 

Deixou de se importar com todas as as opiniões?

Quando comecei a fazer o que me apeteceu foi na fase do ‘Fazes-me falta’. Foi um livro que me saiu como nunca mais me saiu outro, infelizmente. Escrevi à mão quase sem rasuras. Andei muito tempo a pensar naquilo. Saiu-me assim num jato e quando fui mostrá-lo ao editor, ele levou-me a almoçar a um restaurante muito bom, que eu achei logo uma loucura, que os editores coitadinhos queixam-se muito que ganham pouco, que fazem pouco dinheiro com os livros… Embora haja muitos editores, todos se queixam do mesmo, mas o meu editor à época que era um grande editor até, levou-me a almoçar à beira-mar a tentar convencer-me a reescrever o livro, porque o livro era muito triste. Não tinha história. Eu disse “tem!” É o balanço de duas vidas. O que para mim tinha graça no livro era a visão de uma mulher e de um homem bastante mais velho que contavam as mesmas coisas, mas tinham visto outras coisas.

O livro foi para a frente.

Eu disse: o livro não é sobre a morte, mas é a vida que se passou entre eles… Resposta: “Ai as pessoas estão tão deprimidas. Isto em 2002. Lá está, já a crise. Isso não vai vender. Vamos fazer uma tiragem tão pequena, se insistes nisso a tiragem terá de ser muito pequena pois o livro é muito lírico e é muito filosófico. Portanto não vai ter leitores. A crítica não vai gostar muito porque sabe que é muito poético… E foi tudo ao contrário.

Agora ri-se. Não foi nada disso que aconteceu e é um livro que dá uma viragem muito grande na carreira literária.

E a primeira viragem foi eu ter dito ao editor: ‘podem só ser duas as pessoas a gostar do livro. Eu sei que eu não posso mudar este livro.’ Nunca tinha sido tão firme com nada, quer dizer também nunca me tinha sido posta esta questão… mas eu tinha a certeza que não era só eu que tinha passado por aquilo, o livro falava de coisas que muita gente passou, que eu passei numa fase muito intensa porque morreu muita gente à minha volta e são alturas em que aprendemos muito sobre a vida. Aí pensei: agora só faço o que me apetecer. Só faço o que me apetecer, até porque se correr mal, o que é que pode acontecer? Nós vamos acabar todos no cemitério dentro de muito pouco tempo. E por isso…

E este livro volta a fazer isso e o “Desamparo” também fez. Lemos estas histórias e pensamos podia ser eu. Como é que se faz isso?

Fico muito contente quando me dizem isso. Por acaso é a coisa que mais contente me faz, porque o que eu penso: o que me interessa interessa aos outros aos outros. Há um bocado estava a dizer-lhe o José Cardoso Pires dizia: quem corre atrás dos leitores andava a levar pedradas. Era uma frase ótima. O que nos fascina na vida é que há uma riqueza enorme de seres humanos e de reações perante as coisas. E é extraordinário como as pessoas reagem bem ou mal e as pessoas que a gente às vezes espera que digam coisas fantásticas reagem muito mal em situações de crise e outras reagem muito bem, mas os sentimentos humanos são muito parecidos. O esforço é chegar a compreendê-lo, chegar a analisá-lo, porque também estamos metidas nisso.

Mas também há uma questão relacionada com o exercício da escrita que é: os seus textos são tão limpos que é aquilo que lá está são as palavras necessárias, nada a mais nada a menos.

Dá-me tanto trabalho chegar a isso. O ‘Faz-me falta’ foi uma exceção. E comecei a escrever à mão, porque estava de férias não tinha o computador. Nunca tinha escrito à mão. Aquilo saiu-me assim. Foi-me saindo. Depois o contraponto do homem. Depois fui revendo e revendo, não quer dizer que não tenha corrigido palavras. E corrigi muito, mas normalmente não é assim por rajadas. E há coisas à noite que me parecem muito claras quando escrevo, que eu escrevo toda a noite e depois de manhã digo isto se calhar não é tão claro. E dou sempre a ler a outras pessoas no fim. E muitas vezes me têm sido úteis os amigos que leem e que me dizem falta desenvolver isto ou não se percebe bem. Mas cada vez menos, porque eu própria vou interiorizando isso. E no caso dos contos, do ‘Desnorte’, foi muito mais fácil, porque foram escritos em diversas fases da minha vida e eu fui olhando para eles. Como cada um é pequeno, não consigo ter a noção do todo como contrário num romance. Em cada conto consegui fazer as revisões com mais precisão e fiz muito esse trabalho de ver o que é que estava a mais e que é que estava a menos, porque alguns não os tinha desenvolvido tanto.

 

 

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