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Afinal a inveja causa mesmo dor

Inveja, a emoção que existe (Shutterstock)

No jargão chamam-lhe «dor de cotovelo» e não será por acaso. Recentemente, recorrendo à análise de imagens de ressonância magnética, o investigador japonês Hidehiko Takahashi, publicou na revista Science um estudo que mostra que sentir inveja ativa o córtex singulado anterior, a zona cerebral que processa a dor física.

Mais, a dor da inveja é tão forte que – concluiu este ano um grupo de investigadores da Bradley University, nos Estados Unidos da América, e da Nanyang Technological University, em Singapura – pode levar a uma tristeza extrema e causar mesmo depressão. Os utilizadores do Facebook foram os alvos do estudo e, segundo os investigadores, tudo se processa mais ou menos assim: hoje uma publicação com dois pratos de comida requintada, amanhã um “vai” a um evento num novo sítio da moda, depois de amanhã uma fotografia com a cara-metade num hotel espetacular e, de repente, parece que estamos a ver uma lifestyle magazine em que os protagonistas são os nossos amigos e conhecidos. Posto isto, a nossa vida começa a parecer-nos desinteressante, sentimo-nos mal connosco próprios e ficamos tristes ou mesmo deprimidos.

A origem da tristeza ou depressão, dizem os investigadores, não é a nossa vida, é a dos outros: perceber que um conhecido está a sair-se bem financeiramente ou que um amigo de infância está muito feliz na sua relação causa inveja.

O desejo da desgraça
Há ainda outra característica essencial na definição deste sentimento – ou pelo menos da sua aceção mais tradicional – que pode ser observada na investigaçãode Hidehiko Takahashi: além de ter sido verificada, nos participantes de um estudo que realizou, a tal sensação de dor perante o sucesso dos outros, por oposição, ao ser-lhes pedido que imaginassem a “desgraça” daquele que invejavam, foram ativados os circuitos de recompensa do cérebro.

O invejoso não só se sente mal com o sucesso do outro como sente prazer quando esse sucesso se transforma em desastre.

“A alegria do invejoso corresponde à dor do outro”, refere o psicoterapeuta Pedro Martins. De resto, como explica o psicoterapeuta, a etimologia da palavra inveja – do latim invidia, “aquele que não vê”, revela isso mesmo. “O invejoso não se vê a si próprio, só aos outros. Ao invés de pensar sobre si, está “cego” e só tem olhos para os outros.” Um comportamento que Pedro Martins não apelida de errado, não só porque isso pressupõe um julgamento moral como porque não é propriamente uma opção.

“Aqueles que têm consciência da sua inveja, certamente, gostariam de ver-se livres dela”, diz o psicoterapeuta.

Nós versus os outros
Há quem não veja a inveja com maus olhos porque a acha normal, evolutivamente falando. É o caso de Sarah Hill e David Buss, investigadores na área da psicologia evolucionista, que escreveram a este propósito o artigo The evolutionary psyshology of envy [A psicologia evolutiva da inveja]. Nele defendem que, apesar da sua fama de indesejável e mesquinha, é provável que a inveja tenha desempenhado um papel importante na busca da humanidade pelos recursos necessários à sobrevivência e reprodução. A verdade é que, seja na entrada para um curso com uma média alta, na seleção para um emprego ou na conquista de um novo amor, somos sempre nós versus os outros.

Assim, argumentam que, quer as pessoas queiram, quer não, quer tenham noção ou nem por isso, quer o façam direta ou indiretamente, não podem escapar à competição contínua com amigos, família e rivais para ganhar acesso aos recursos que lhes são necessários. E é isso que pode levá-las a desejar que os outros sejam um pouco menos, já que o acesso ao que querem não depende só das suas qualidades, mas também das qualidades dos competidores.

Admitem os autores, a inveja pode arruinar o bem-estar de quem a sente e sinaliza um problema adaptativo.

Como resolvê-la? Tal como a melhor forma de acabar uma dor de dentes é tratar o dente, para eliminar a inveja a solução é resolver o problema que está na sua origem.

O lado bom da inveja
Mas e se esta tivesse um lado bom? Ou melhor, e se existisse uma inveja boa? Não sendo ainda essa a perspetiva dominante, há quem defenda que sim, existe. Chamam-lhe inveja benigna. O conceito partiu do psicólogo Niels van de Ven, da Tilburg University, na Holanda, que, ao examinar várias culturas e línguas, percebeu que, em algumas, havia duas palavras para inveja que, traduzidas, resultavam nos conceitos de inveja benigna e maligna.

A inveja benigna, em vez de ser pautada pelo desejo de ver alguém “cair”, define-se pelo facto de o invejoso desejar ascender.

Ou seja, uma inveja que, embora diferente da admiração – porque causa na mesma algum mal-estar –, motiva quem a sente a fazer mais e a ser melhor.

Recentemente, alguns investigadores da Universidade de Colónia, na Alemanha, aproveitaram a maratona que se realiza na cidade para, entre os atletas, aplicarem questionários para identificarem estes dois tipos de inveja. Publicado na revista Personality and Social Psychology Bulletin, o estudo defende – na linha de conclusões de Niels van de Ven – que não só o sentimento é diferente como também é o resultado. Ao aplicarem escalas para medir o tipo de inveja dos atletas e ao cruzarem essa informação com os resultados da prova, concluíram que os corredores tomados pela inveja maligna mais facilmente desmotivavam da prova e dos seus objetivos.

Por outro lado, a inveja benigna mostrou-se preditora de melhores resultados no tempo de corrida dos atletas. A inveja, seja de que tipo for, não traz felicidade, mas os resultados que provoca – quando é benigna – parecem poder trazer.

Sofia Teixeira/Notícias Magazine