Já chegou o burkini e, não, não é uma piada, é uma polémica

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A coleção de verão acaba de chegar à Marks&Spencer e a marca inclui este ano um burkini na sua linha de praia, exclusivo para venda online. A marca apresenta este modelo como mais um entre fatos de banho clássicos e biquinis, referindo que não “compromete o estilo”. Na Europa há mercado para este fato de banho que cobre todo o corpo das mulheres, incluindo o cabelo, deixando apenas os pés, as mãos e o rosto de fora.

Estima-se que, em 2019, o mercado de moda islâmica represente 443 biliões de euros, praticamente o dobro daquilo que representava em 2013. Os números são de um estudo da Thomson Reuters & Dinar Standard e a Marks&Spencer não quis passar ao lado desta oportunidade de negócio. Claro que há mais marcas a trilhar o caminho do Oriente: a Dolce& Gabanna lançou em janeiro um conjunto de 14 hijabs e vestidos longos, a Unilqo, logo depois, disponibilizou uma coleção de roupa para mulheres muçulmanas na sua loja de Londres. A DKNY, a Zara e a Mango apresentaram coleções para usar no Ramadão, o período de penitência e abstinência dos muçulmanos, com vestidos largos e mangas compridas, criando até o novo conceito de ‘moda modesta’, certamente por oposição à moda que exibe o corpo.

De um lado, as marcas dizem estar a fazer o que sempre fizeram: responder às necessidades do mercado. Do outro, pensadores, jornalistas, políticos e criadores de moda mostram-se críticos nesta opção que, sustentam, ajuda remeter as mulheres para um segundo plano na sociedade. Pierre Bergé, braço direito e companheiro do criador de moda Yves Saint-Laurent (falecido em 2008), instou as marcas a terem uma posição mais ideológica:

“Renunciem ao dinheiro, tenham convicções! Não sou Islamofóbico. As mulheres têm o direito de usar lenços na cabeça, mas não vejo por que razão estamos a ir na direção desta religião, destas práticas e costumes, que são absolutamente incompatíveis com as nossas liberdades ocidentais.”

Alinham nesta crítica várias personalidades destacadas e a mais contundente foi, sem dúvida, a Ministra francesa dos Direitos das Mulheres que numa entrevista à rádio BFMTV-RMC afirmou que as marcas eram irresponsáveis ao acreditarem que não estavam a tomar uma posição política. Diz Laurence Rossignol que “todos os que participam na representação da sociedade têm uma responsabilidade,” e continua:

“O que me choca são os argumentos dados pelas marcas, que dizem que não fazem a promoção de qualquer estilo de vida, como se houvesse uma dissociação entre a roupa e os modos de vida. Porque há uma ligação entre as formas de vestir e os direitos da mulher. A roupa pode ser uma forma de controlo social”.

Na entrevista a Ministra reforçou a ligação da moda com os períodos da história e o papel que foi sendo atribuído às mulheres – nos anos 60, as calças, a pílula e a emancipação das mulheres estão intimamente ligadas, por exemplo. Depois acrescentou que em alguns bairros bem perto do centro de Paris, há simultaneamente um aumento da utilização das vestes púdicas muçulmanas e uma retirada das mulheres do espaço público. E continua:

“Falo sobre as mulheres muçulmanas que vivem em França hoje. E que estão sob pressão e os avanços dos grupos salafistas que se veem no direito de dizer quem é um bom muçulmano e quem não é. De facto, são 4 milhões de muçulmanos que vivem em França no respeito das leis da República mas também no benefício das leis da República. A lei da República dá às mulheres a igualdade, a todos a fraternidade e a cada um a liberdade. E estas roupas revelam um encarceramento do corpo das mulheres.”

É justamente com a questão da liberdade que Remona Aly, jornalista e diretora de comunicação da Exploring Islam Foundation, responde numa crónica no jornal britânico The Guardian. Diz ela que esta perspetiva é que limita a liberdade de escolha das mulheres muçulmanas, que lhes retira o poder de autodeterminação:

“A única pessoa que deveria mandar no corpo de uma mulher é ela própria. Se eu quiser comprar um burkini da M&S, vou fazê-lo. Se alguém quiser comprar um bikini, adivinhem, também pode fazê-lo nas lojas. Bergé está a gritar sobre a liberdade e, no entanto, tirar a liberdade de escolha é onde a escravatura começa.”

Elisabeth Badinter, filósofa, feminista deu entretanto uma entrevista ao jornal Le Monde em que propõe o boicote às marcas ocidentais que estão normalizar o uso da cabeça coberta entre as mulheres. As razões desta oposição prendem-se também com a militância laica que tem sido sempre marca do discurso desta francesa. Badinter afirma que não é possível ser feminista e defender o uso do véu:

“As chamadas feministas islâmicas esquecem-se que o que toca à igualdade elas devem ficar em casa (…) e que a poligamia é permitida pelo Corão, onde elas se incluem.”

Entretanto alguns criadores de moda já vieram apoiar uma causa ou a outra, mas as casas mais sonantes como a Chanel, a Burburry, a Prada ou a Fendi mantêm-se em silêncio. Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos.

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