Jackie Kennedy: quando o guarda-roupa se tornou uma arma diplomática

O guarda-roupa de uma primeira-dama é uma escolha política – e Melania Trump mostrou isso mesmo na tomada de posse do marido como presidente dos EUA. Ao optar pela réplica de um modelo usado por Jacqueline Kennedy prestou vassalagem à mais icónica e amada das antecessoras. A mesma que é novamente revisitada no cinema – o filme Jackie estreou esta semana.

Não é carismático quem quer, mas quem pode. Que o digam Carla Bruni-Sarkozy ou Valerie Trierweiler, fugazes primeiras-damas de França, que, à partida, tinham tudo para seduzir as multidões. Belas, impecavelmente vestidas, penteadas, perfumadas, conhecedoras dos mecanismos da exposição mediática, ficaram-se, no entanto, por uma performance discreta nesse palco particular que é um regime presidencialista (caso da França ou dos Estados Unidos). O mesmo em que brilharam, às vezes com menos armas, Jackie Kennedy, Michelle Obama ou Eva Péron.

Quando, no seu primeiro ato oficial, Melania Trump decidiu levantar o cabelo e vestir um robe manteau que copiava outro usado há meio século por Jackie Kennedy, compreendeu-se que, afinal, a nova primeira-dama pode ter mais discernimento político do que o presidencial cônjuge. Na dúvida, refugiou-se na segurança de um clássico e marcou pontos. Talvez não se queira ficar pelo papel de «bela, recatada e do lar», idealizado por Michel Temer para a sua Marcela e demais mulheres brasileiras. Iniciativa de Melania ou dos seus conselheiros, a evocação da idolatrada mulher de John Fitzgerald Kennedy teve o condão de devolver ao debate político a figura da primeira-dama nas repúblicas modernas e sua representação no inevitável espetáculo do poder. Quando as mulheres já chegam por direito próprio aos mais altos cargos, como devem comportar-se as esposas dos presidentes? Como rainhas de ocasião que acenam aos plebeus? Ou como aspirantes a voos mais altos, como aconteceu com Hillary Clinton e muitos gostariam que acontecesse a Michelle Obama?

Recuemos a 1962, ao epicentro de uma revolução tranquila. Jacqueline Bouvier Kennedy, jovem primeira-dama dos Estados Unidos, casada com a chamada «família real» da política americana, parte para uma importante viagem oficial à Índia e Paquistão, sem a companhia do marido. No guarda-roupa inclui várias peças em que predomina o rosa forte, essa cor que Diana Vreeland, diretora da Harper’s Bazaar e mais tarde editora da Vogue, dizia ser o «azul marinho da Índia». Para espanto de John Kenneth Galbraith, o prestigiadíssimo economista que representava a América de Kennedy em Nova Deli, Mrs Kennedy inaugurava (ou pelo menos, reinventava) o conceito de Diplomacia do Guarda-Roupa e conferia-lhe uma espessura política que os homens no poder tinham negligenciado. A Primeira-Dama era uma «estrela» de dimensão mundial. Para esta parada triunfal contribuía o seu carisma pessoal, mas também a sábia escolha de guarda-roupa que fazia em qualquer circunstância, fosse um lanche com as amiguinhas da filha Caroline ou um banquete de gala com chefes de Estado estrangeiros.

Com 24 anos, e ao casar com um político cheio de aspirações, Jackie estava muito consciente de que, independentemente do que fizesse, seria julgada, antes de mais, pelo seu aspecto. Ao chegar à Casa Branca, com apenas 31, tratou, pois, de transformar a imagem séria, conservadora e frequentemente provinciana da América dos anos 50 noutra cheia de estilo, modernidade e elegância capaz de surpreender mesmo nas mais requintadas capitais europeias.

Inspirada por Diana Vreeland, a jovem teve a arte de formar um guarda-roupa básico constituído por linhas direitas, cortes impecáveis, cores sólidas, capaz de proporcionar facilidade de movimentos numa vida que se pretendia muito ativa. Boicotou quase inteiramente padrões, estampados, folhos, laços e tudo o que parecesse complicado, rebuscado ou – porque não dizê-lo – piroso. Nada de verdadeiramente original, mas muito pessoal, todavia. Simples, na aparência, sofisticado na essência. Talvez, por isso, essa imagem de marca se tenha espalhado rapidamente por toda a América. Os must-have de Jackie tornaram-se os must have da mulher comum: o chapéu pequenino, os vestidos direitos sem mangas, o lenço de seda, os tailleurs à Chanel, vestidos de noite só com um ombro, luvas, os vestidos-sari acompanhados por uma fiada dupla de pérolas, sapatos com pouco salto e enormes óculos escuros.

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Natalie Portman a interpretar Jackie Kennedy no dia do atentado.

Durante a campanha presidencial de 1960 (que levaria JFK à Casa Branca), a dedicação de Jackie à moda tornara-se durante algum tempo uma questão política algo embaraçosa. Mais do que proferir declarações, importava tomar medidas. Em detrimento da sua paixão pelas griffes francesas, Jackie optou pelos serviços do costureiro americano Oleg Cassini, que era também amigo da família Kennedy. Neto de um dos últimos grandes diplomatas ao serviço do czar Nicolau II, era um homem cheio de charme que não tardou a conquistar o arrebatamento das mais belas mulheres, nomeadamente em Hollywood, onde chegou em 1940 para colaborar com os departamentos de guarda-roupa dos grandes estúdios. Ao contrário do que se repetiu durante décadas, não era da Chanel, mas de Cassini, o famoso tailleur cor-de-rosa usado por Jackie na fatal manhã de Dallas em que o marido foi assassinado.

A mulher de Kennedy fez escola: como ela, as primeiras damas seguintes tornaram-se embaixadoras da moda norte-americana no mundo. Nancy Reagan, por exemplo, conseguiu imprimir graciosidade ao power dress próprio dos anos 80, com tailleurs bem cortados e vestidos que lhe realçavam a figura juvenil, apesar dos seus 60 anos. Antiga aspirante ao estrelato na Hollywood clássica (onde conhecera Ronald), recorria a cores fortes quando precisava de ser gentilmente assertiva. Na presença arrebatadora de Diana de Gales, Nancy vestiu um tailleur vermelho (cor de que gostava especialmente) e um vestido de noite totalmente branco, que estabeleceu perfeito contraponto com o célebre vestido negro com que a Princesa dançou nos braços de John Travolta.

O que Kennedy e Reagan não podiam sequer imaginar é que algumas décadas depois deles, seria afro-americano o 44.º Presidente. Nas salas decoradas por Jackie passearia uma bela negra, que já não era serviçal, mas a primeira dama dos Estados Unidos. As novidades não ficaram por aqui, já que Michelle criou um estilo próprio, em sintonia simbólica com a cool America da administração Obama, consagrado por três capas da Vogue americana. Numa delas, ousava mesmo uma franja curta que lhe ia bem com o sorriso travesso. Na despedida do casal Obama da Casa Branca, o jornal inglês The Guardian dizia que ela reinventara o presidential chic, tornando-o moderno. Na verdade, poucas mulheres ficam tão bem num cardigan Azzedine Alaia (com que ela visitou a Rainha Isabel II) como nos jeans com que aparecia nas festas do colégio das filhas.

Numa ocasião, como noutra, nada resultava do acaso, do capricho ou do apetite da primeira dama. Também nessa matéria, Mrs Obama (e, antes dela, Nancy Reagan) provaram ser alunas exemplares da lição de Jackie. Como demonstra o filme de Pablo Larraín, agora em exibição, a mulher de Kennedy, interpretada por Natalie Portman, manteve sempre um estreito controlo da imagem pública de si e dos seus, o que obviamente incluía o departamento de guarda-roupa. Em qualquer circunstância: no amor como na deceção, na glória como no luto.

Berta Craveiro Lopes, a primeira dama portuguesa com estilo

Em Portugal, a relação das primeiras damas com a moda pautou-se sempre pela discrição e falta de protagonismo que foi associada à função. Mas, ainda assim, as escolhas de Manuela Eanes, Maria Barroso, Maria José Ritta e Maria Cavaco Silva foram sujeitas ao escrutínio da imprensa e do público. Antes disso, Maria do Carmo Carmona, mulher do presidente Óscar Carmona (1926-1951) foi considerada «provinciana», alegando-se que não se sabia vestir nem tão pouco comportar em público.

GNDN0311CRAVEI3 - Chegada de Craveiro Lopes, presidente português, de uma visita a Inglaterra
Berta Craveiro Lopes, ao centro, de tailleur negro e luvas brancas, em 1955

Nesta galeria sem glamour, avulta, porém, a figura de Berta Craveiro Lopes, mulher de um Presidente (1951-1958) pouco consentido por Salazar, Francisco Craveiro Lopes. Alta e loura, soube valorizar o seu porte natural com vestidos que a representaram bem na recepção à jovem Isabel II, em Lisboa, em 1957, na gala do São Carlos em que brilhou Maria Callas, nas visitas de Estado a Inglaterra ou a Moçambique, onde foi sempre muito aclamada. Não se pense, porém, que a primeira dama recorria aos serviços de um Dior ou de um Balenciaga. No Palácio de Belém tinha um quarto de costura, onde se encarregava ela própria de arranjar a sua própria roupa e a da família.

Disposta a não pesar no erário público, pagou do seu bolso o colar e os brincos com que se apresentou no banquete do Palácio de Buckigham, em 1955. E acrescentava, entre dentes, que «não queria dever favores a Salazar». Também ela sabia, mesmo nessa sociedade tão mais secreta e lenta do que a nossa, que, para quem está na Política, as escolhas de guarda-roupa nunca são inocentes ou isentas de consequências.

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