Lourenço Lucena: “Devemos ser infiéis com os perfumes”

Lourenço Lucena é o único nez (perfumista) português membro da Société Française des Perfumeurs e este ano lança o seu primeiro perfume com marca própria: “Acqua de Portokáli”. Uma composição cítrica com notas de rosa branca e cedros, que é uma homenagem à perfumaria mais pura e a Portugal. Numa pequena conversa ficámos a saber mais sobre a arte de criar fragrâncias e a conhecer melhor este alquimista que faz perfumes personalizados e que se aventura pela primeira vez numa composição de assinatura.

Quais são as características que é preciso ter para se ser um nez? Em primeiro lugar é preciso gostar de perfumes. Esta é daquelas profissões em que se tem de ter paixão. O grande desafio de um perfumista é ter uma capacidade de memória muito trabalhada. O nosso grande desafio é ter armazenadas na memória o maior número de matérias-primas possível. Tal como um compositor quando faz uma música tem de saber exatamente qual é o som de cada nota, um perfumista tem de saber a que é que cheira cada essência. Fazer um perfume é partilhar uma paixão, é criar uma história, e uma história sem emoção não existe. Por isso é que é importante conhecer muito bem cada matéria-prima, para conseguir contar uma determinada história através de um perfume. Antes de se compor no frasco estas histórias têm de ser compostas mentalmente.

Como é que se conta uma história através de um perfume? Um perfume pode ser a história de uma pessoa, de uma marca, de uma viagem, pode ser um amor perdido, pode ser o que quisermos. Tendo por base esse gancho, o trabalho é encontrar as matérias-primas que tal como uma personagem numa história consigam ter o seu papel no desenrolar da cena. Com base no que quero contar começa um trabalho de descodificação do que me é dito e a tradução da história em essências que depois se combinam umas com as outras.

Cada essência representa um sentimento ou lembra-lhe alguma coisa em particular? Não obrigatoriamente. Mas se me perguntar por exemplo qual é a matéria-prima que associo à alegria ou à boa disposição respondo-lhe claramente que são os citrinos, porque são alegres e vivos. Mas as matérias-primas têm associações com a nossa experiência de vida. É importante quando começamos a pensar na história que queremos contar e termos um conhecimento claro do outro, é preciso saber o que faz sentido para aquela pessoa, em particular.

É muito difícil esse trabalho de conhecimento da pessoa para quem está a criar? É o mais complexo, porque é passar da objetividade para a subjetividade. Todas as associações ou ideias ou valores podem ser convertidos em aromas, na perspetiva de quem está a compor o perfume. É um trabalho muito pessoal, de tentativa e erro, de detalhe e de precisão. Na composição de perfumes fazem-se dezenas e dezenas de fórmulas até encontrar a certa.

Qual é o seu aroma preferido? É muito difícil… mas há algumas matérias-primas, quando faço um perfume para mim, que gosto de utilizar: citrinos, especiarias, notas provocadoras, desafiantes…

Desafiantes na forma como se trabalham ou como se sentem? Na perceção que criam no outro, porque tem muito a ver com a minha personalidade, gosto de desafiar. Também gosto de notas gourmet, que são as de matérias-primas que se podem comer. Porque estas notas têm um lado mais sensual e erótico. Um perfume tem de despertar um desejo, não tem ser obrigatoriamente físico mas tem que provocar uma atração. Também gosto muito de madeiras, que são ótimas de trabalhar, e dão muita segurança e solidez. O vetiver também é uma das que mais uso e o patchouli, que é uma matéria-prima muito desafiante porque é extremamente densa.

O olfato é um dos últimos sentidos que se perdem. Muitas vezes não nos lembramos da cara de alguém mas lembramos o perfume, quais são as suas memórias olfativas antigas mais marcantes? Tenho algumas. Eu comecei a montar a cavalo com dois anos e meio e apesar do picadeiro onde montava já não existir, consigo retratar o ambiente e imaginar o espaço pelo cheiro do couro das selas e do estrume no chão. Outra lembrança é o aroma de lúcia-lima que existia no terreno de casa dos meus avós. Estas são provavelmente as minhas duas memórias olfativas mais antigas.

Usa sempre o mesmo perfume ou varia? Sou apologista de que devemos ser infiéis com os perfumes.

Porquê? Da mesma forma que não nos vestidos da mesma maneira todos os dias, quando escolhemos o que vamos vestir temos em conta várias coisas: o tempo, o nosso estado de espírito, as pessoas com quem vamos estar… Eu acho que um perfume é mais um elemento que cria a nossa imagem no dia-a-dia, por isso, tal como a roupa acho que o perfume deve ser escolhido também tendo em conta o dia que vamos ter. Eu tenho de base dez perfumes, sempre, e para além destes às vezes uso outros.

Quais são? São todos feitos por si? Não, são perfumes comerciais. O primeiro Prada de homem que continua a ser um perfume muito atual. O primeiro “Declaration” da Cartier, O “Terre de Hermès” original, o “L’homme” original da Yves Saint Laurent, o “Visa” da Robert Piguet, o “Lumière Noire” de Francis Kurkdjian. Por vezes o “Aramis”, que é perfume dos anos oitenta, mas que uso quando me apetece algo mais quente, e uso sempre em pouca quantidade porque é muito impositivo. Depois tenho o “Patchouli Javanese” da Zegna, e está-me a faltar um… Mas são dez e, para além destes, tenho perfumes feitos por mim e muitas vezes nem sequer ponho um perfume ponho uma matéria-prima pura.

Estes dez perfumes inspiram-no quando cria os seus perfumes? Talvez os perfumes de nicho, o “Lumière Noire” é uma referência, não pelas matérias-primas usadas mas sim pela lógica que orientou a construção da fórmula.

Existem mesmo perfumes de homem e de mulher ou essas designações são meramente comerciais? Essa é uma definição que vem das grandes produtoras e das grandes marcas. Eu acho que não há problema nenhum num homem usar um perfume floral e também há muitas mulheres que usam perfumes de homem. Tudo tem a ver com o nosso gosto pessoal. A perfumaria de nicho é muito mais livre na criação, e é por isso que tem uma importância cada vez maior.

E entre os perfumes de verão e de inverno, existe mesmo distinção? Existem matérias-primas que são naturalmente mais quentes e outras que são mais frescas. Mas, por exemplo, o perfume que estou a lançar agora é cítrico, mas continuará a ser um bom perfume para usar no inverno. Eu não sou nada desses dogmas de caracterização. Como eu digo, há perfumes que devido à sua composição são mais quentes ou mais frescos, mas não são obrigatoLink_Dianariamente de verão ou inverno.

Para o Acqua de Portokáli qual foi a inspiração? Este perfume é uma homenagem à família de matérias-primas mais feliz: os citrinos, numa evocação às laranjas do Algarve que são amadurecidas pelo sol português. E por isso chama-se “Acqua de Portokáli”, que em grego significa laranja. O perfume tem uma base cítrica com laranja, limão e bergamota e num segundo nível a rosa branca e o cedro. Também quis fazer uma homenagem à forma mais pura de fazer um perfume, não é obrigatório que fazer um perfume seja algo extremamente complexo e com muitas histórias à volta. Eu gosto de perfumes simples em que conseguimos identificar cada matéria-prima.

Quais são os cuidados que um perfumista tem que ter com nariz já que é a sua ferramenta de trabalho? Quando trabalho com matérias-primas o nariz tem de estar bem limpo com água do mar.

Então o verão é a altura ideal para fazer perfumes por causa dos mergulhos no mar? O verão é demasiado quente para trabalhar com matérias-primas, a altura ideal é o segundo trimestre do ano.

Trabalha sempre em Portugal? Os perfumes são pensados e compostos em Portugal, o concentrado é que é feito em Espanha ou França porque não existe produção própria cá. Depois de receber o concentrado é tudo feito cá, a diluição em água e álcool, o embalamento, a produção dos frascos.

Porque é que escolheu fazer tudo isso em Portugal? Porque nós fazemos coisas muito bem feitas e temos de valorizar o que é nosso. Se eu vendo e promovo o fazer em Portugal, tudo o que eu puder será sempre produzido cá.

 

 

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