‘Luísa’, o 4º álbum de Luísa Sobral, apresentado pela artista

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Gravado em Los Angeles, ‘Luísa’ é o primeiro trabalho de produção independente da cantora Luísa Sobral. Autobiográfico, o disco mostra uma cantautora confiante que descobriu que a felicidade também tem substância e profundidade para ser cantada e tocada! Luísa é um disco feliz.

Para começar, uma pergunta prática: já há concertos agendados?

Sim, e temos muitos. Vou dizer os de Lisboa, Porto, e Braga, porque Braga tem dos meus Teatros preferidos – o Teatro Circo é lindíssimo e acolhedor, toquei lá o segundo álbum e fiquei sempre com uma vontade enorme de voltar. Então: dia 1 de Fevereiro, na capital; dia 8 de fevereiro, na Invicta, e dia 14 de fevereiro, em Braga.

O seu filho José nasceu em junho deste ano. Como foi conciliar o final da gravidez e os primeiros meses de vida do José com o lançamento deste novo trabalho?

Não foi preciso conciliar muita coisa. Gravei o disco aos três meses de gravidez, mas tive uma gravidez boa, sentia-me bem. Quando o José nasceu eu já não tinha grande coisa para fazer; estávamos na fase em que só era necessário dar os ‘oks’ aos materiais, como por exemplo, escolher as fotografia para o disco. E ainda assim cheguei a demorar 10 dias a fazer uma seleção de imagens, porque realmente o início, logo após o nascimento, é complicado. Agora, na fase de promoção, tenho sorte por a minha mãe ter disponibilidade para estar com ele. Tento sempre não estar longe mais de 4 horas seguidas, porque tenho de lhe dar de comer… Mas acho até que para uma pessoa que tenha uma profissão dita ‘normal’ será mais difícil de conciliar tudo, porque no fundo, eu tenho alguma flexibilidade na gestão do meu tempo.

Escreveu letras durante a gravidez? As hormonas também falam, nesse processo de escrita?

Este disco foi todo escrito antes de eu engravidar, mas foi gravado durante a gravidez e sim, estava tudo mais ‘à flor da pele’. Eu sempre fui uma pessoa um bocado fria, menos a compor e a cantar, agora já sou quentinha em quase todo o lado (risos)! Mas as minhas hormonas ‘falaram’ mais alto quando ele nasceu. Aí sim. Apesar de as canções não terem sido escritas na fase da gravidez, foram cantadas quando estava grávida e são cantadas agora em que estou ainda mais emotiva do que naquela altura.

Sou super controladora e controlada, por isso é muito raro as minhas hormonas andarem loucas. Aliás, eu nunca apanhei uma bebedeira na minha vida, o que mostra o quão controladora eu sou. E de repente, quando ele nasceu, chorava por tudo e por nada, mas de alegria. Fiquei em contacto com as minhas emoções de uma maneira incrível. Acho que isso me veio equilibrar.

Escreveu todas as letras deste disco?

Não. Há uma versão minha de uma canção do Billy Joel e há duas com letra do João Monge. Todas as outras foram escritas por mim.

As canções refletem o que lhe vai na alma, ou é possível escrever-se uma coisa e sentir-se outra?

É possível, até porque nós também podemos ser um personagem quando escrevemos. Mas exatamente por eu não ser um personagem neste disco, é que ele se chama Luísa. É um disco muito autobiográfico. Nesta fase senti a necessidade e a vontade de escrever sobre mim, as coisas que eu sentia… Acho que perdi um bocado a ideia de que os meus sentimentos não tinham profundidade suficiente para fazer que um disco inteiro fosse interessante. É um disco sobre mim e nisso é bastante diferente dos outros trabalhos.

É resultado de uma maior autoconfiança?

Acho que sim. Eu estava num período da minha vida, quando escrevi as canções, em que me sentia feliz e bem comigo mesma. Eu tinha algum preconceito sobre as canções felizes, depois percebi que há uma beleza enorme na simplicidade de se estar apaixonado. Pensei: eu só tenho de ser verdadeira e se é isto que eu sinto então é isto que vou dizer, genuinamente. Perdi o medo do bonitinho poder ser considerado parvo ou de não ter substância. Descobri que a felicidade também tem substância. Não é só a tristeza ou a perda.

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A Luísa Sobral dos Ídolos tinha 16 anos. A Luísa que agora lança o quarto álbum, em nome próprio, tem 29. Ao longo deste tempo, o que é que a música fez consigo?

Fez tudo. Aos 17 anos fez-me decidir ir para os EUA, ficar lá quatro anos intensivos a estudar música. Depois fez-me ir viver para Nova Iorque e depois fez-me vir para Portugal lançar o meu disco. A música foi a razão de todas as minhas escolhas. Foi o fio condutor da minha vida, até agora.

Num dos vídeos que publicou na sua página de Facebook, vemos a Luísa a chegar ao estúdio onde se alinham fotos de grandes nomes, como a de Sinatra, que ali também gravaram álbuns. Quando passava naquele ‘corredor da fama’, alguma vez não se sentiu à altura?

Não. Isto pode até parecer pretensioso, mas aquilo – ou seja, o facto de aqueles grandes nomes da música lá terem gravado – não teve grande influência sobre mim. Obviamente eu gosto muito daqueles artistas que mostrei no vídeo – o Frank Sinatra, o Ray Charles são grandes influências para mim -, mas tenho a certeza de que também lá gravaram milhares de pessoas de quem nunca ninguém ouviu falar. Aquilo é um estúdio, e nem todos os artistas acabaram nas paredes. Nunca se colocou isso de estar ou não à altura. Não sou especial por estar ali a tocar, qualquer pessoa que junte dinheiro pode tocar naquele estúdio.

E como se consegue financiar um trabalho destes? A venda de discos é suficiente?

Este disco foi financiado com dinheiro próprio: foi a primeira vez que investi – eu e o meu manager – num disco meu. Sou muito poupada e sempre reservei parte do dinheiro dos concertos para depois poder investir. Comparo a minha carreira a uma empresa; também ela precisa de investimentos. E se eu quero dar um próximo passo e, por exemplo, chegar mais longe lá fora, tenho de investir e depois esperar que esse dinheiro regresse. O dinheiro não regressa com discos, ele regressa sobretudo com concertos. Este disco é uma produção independente e eu fiquei muito feliz com o resultado final de todo o investimento.

O seu lado racional ajudou-a a gerir reservas, orçamentos, investimentos…

Sim, e eu estou habituada a este papel. Comecei a trabalhar cedo, os meus pais ajudaram-me a pagar a universidade – que era muito cara – tive uma bolsa e trabalhava dentro da Universidade para ajudar a suportar as despesas. Fiz de tudo. Trabalhei na biblioteca, fiz tours, no escritório dos estudantes internacionais, no auditório. Ia mudando de trabalho, sempre para o que pagava melhor. Ficava os verões a trabalhar para ter dinheiro para o semestre seguinte. Depois fui viver para Nova Iorque e aí, já tinha acabado a escola, não poderia continuar a aceitar a ajuda dos meus pais; então trabalhava num café, durante o dia, e tocava à noite em restaurantes.

‘Se tivesse ficado em Nova Iorque, o que estaria a fazer hoje…’. É um tema em que pensa?

Sim, no início pensei um bocadinho nesse ‘se’. Eu sempre fui muito organizada na minha estratégia de vida, tinha tudo bem definido e então o meu plano era viver em Nova Iorque e começar aí a tocar a minha música. Vivi lá sete meses e era tudo tão difícil, mas eu estava numa de continuar o planeado. A verdade é que enquanto lá estive não compus uma única canção, porque nem sequer havia espaço mental… Quando recebi a proposta de voltar para Portugal questionei: ‘eu estou aqui para provar o quê a quem?’ E regressei para gravar a minha música. Eu vou voltar a tocar em Nova Iorque, mas mais tarde. Um dia. A minha música. Como eu quero!

Este disco não só foi gravado por um produtor vencedor de três Grammy Awards, como conta com o talento de vários músicos de execção. Como foi reunir este leque de artistas?

Foi o Joe Henry que o fez. Escolhemos este produtor porque ele tem um som diferente do meu e era mesmo isso que procurávamos, alguém que reinventasse o meu som. Ele tem um som mais cru, agressivo talvez, e pensei: é mesmo isto que eu preciso. Acordámos sobre as canções que iriam integrar o disco e ele escolheu os músicos que achou fazerem sentido para este trabalho e deixou que eles se expressassem. O Alone e o On My Own foram temas que eu tinha excluído e que o Joe incluiu. E hoje são temas que eu adoro. A perspetiva de fora é muito importante. Ele teve um papel muito importante na escolha das canções, nas escolha dos músicos e depois foi um bocadinho como um espectador. E a música ia surgindo, eu e os músicos fomos ‘pintando’ o disco todos juntos.

Para viver: EUA ou Portugal?

Portugal, sem dúvida.

E para trabalhar?

Para mim foi difícil, no início, trabalhar em Portugal. Porque o grau de exigência não é o mesmo. Demorei algum tempo a chegar lá, mas hoje em dia tenho a equipa que adoro e que trabalha como eu. Estou a falar da equipa de estrada, somos 9. Por outro lado, há cá em Portugal um calor humano em ambiente de trabalho que não há nos Estados Unidos.

Porque é que ninguém pode deixar de ouvir este álbum?

Porque foi um álbum que me deu um enorme prazer fazer. Porque as canções são bonitas. Tem uma certa nostalgia. Está muito bem tocado.

De todas as músicas, qual a menina dos seus olhos?

Vão mudando. Mas talvez seja uma cancão, o I’ll be home with you tonight, que eu escrevi quando estava em tournée, na Alemanha. É sobre estar a tocar lá fora e ter saudades do que está cá. Depois do concerto há uma energia enorme, sobretudo quando corre bem, e de repente chego a um quarto de hotel, que não me diz nada, e estou sozinha. E chegam as saudades de casa, de estar com o meu namorado e nessa altura escrevi sobre ele. É a hora da solidão. Acho que é por causa dela que muitos artistas estão sempre em festa, para manter sempre a adrenalina que se sente depois do concerto. Assim não têm de voltar para eles, ser humano normal, que não é músico. Porque é isso que acontece. Quando chego a um quarto de hotel eu já não sou a Luísa, a cantora. Sou a Luísa, outra vez!

O que é que a move?

Soa a cliché, mas é a verdade: move-me o amor, a minha família, a minha paixão.

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