Marisa Monte e Carminho: “Fazemos uns saraus de música, estamos juntas, cantamos, rimos”

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O que une o fado e o samba? Carminho e Marisa Monte garantem que já descobriram. Conheceram-se em 2013 mas na próxima quarta-feira, dia 27, é a primeira vez que sobem juntas a um palco. O EDP Cool Jazz Fest, em Oeiras, vai recebe-las e depois, hão de rumar ao Porto para um novo concerto, dia 30. Falámos com as cantoras sobre o que esperar destes espetáculos, mas também o que querem elas da vida, da carreira e da música.

Falta pouco para cantarem juntas ao vivo. O que esperam deste concerto?

Marisa Monte: Vai ser lindo e emocionante para nós e para o público. Porque a gente andou se encontrando, cantando juntas, a gente se adora. Vai ser um grande prazer estar com a Carminho no palco.

Carminho: É uma alegria fazer parte deste concerto. E a junção será uma surpresa a quem já gosta do repertório da Marisa Monte. Vai haver qualquer coisa de diferente. Vai ser um momento de muita alegria, muita emoção, muito amor partilhado e de boa música – eles são músicos inacreditáveis. E espero fortalecer ainda mais as relações que tenho com a Marisa.

Conheceram-se em 2013. Como é que isso aconteceu?

Marisa: A Carminho foi no meu show no Rio de Janeiro, depois encontrámo-nos várias vezes em minha casa para cantar, para ouvir música.

Carminho: Fui ter com a Marisa num concerto no Vivo Rio e disse-lhe que era superfã e que gostava de a conhecer melhor. Convidou-me para almoçar em casa dela. Quando cheguei estava lá um músico, o César Mendes, que fez parte dos Tribalistas, e começámos a cantar músicas. Começámos a ver coisas que ela tinha no “baú”. Algumas inéditas que não tinham saído e outras por acabar. Foi de uma generosidade como artista que me comoveu e me fez adorá-la. Foi um sentimento recíproco e desde aí não parámos de nos ver. Quando estou no Brasil costumo ir a casa dela, até já conheço os filhos, que também cantam. Fazemos uns saraus de música, estamos juntas, cantamos, rimos.

Marisa: Sempre que a Carminho vem ao Brasil ou eu vou a Portugal a gente tenta se encontrar. Já tem dois anos que nos temos encontrado constantemente.

Quantas músicas vão cantar?

Marisa: Temos várias músicas que gostamos de cantar juntas, que naturalmente vão estar no palco. Uma das preferidas é a que a gente cantou junto no disco da Carminho, Chuva no Mar.

Carminho: A Marisa pediu para eu escolher e apareci com uma lista de duas ou três músicas de que eu gostava. Mas depois começámos a dizer: “E se cantássemos esta e mais esta…”

Agora que vão cantar juntas, que existe esta fusão, que diferenças e que semelhanças há entre a música portuguesa e a brasileira?

Marisa: Têm muita coisa em comum. Muita da música brasileira tem uma influência grande da música portuguesa, através da própria presença do violão como instrumento central. E depois há toda a influência moura, uma certa melancolia que existe na música brasileira e que eu identifico também na música portuguesa, uma coisa sentimental.

Carminho: O fado e o samba de raiz, o samba mais antigo, são dois estilos musicais que se podem ligar por terem temáticas e acordes em comum. Além disso, o mar condiciona muito estas músicas. E há instrumentos acústicos, como o bandolim, que, apesar de não ser igual à guitarra portuguesa, tem uma coisa mais aguda, mais melancólica, mais chorada, como a guitarra portuguesa. Eles usam o violão, nós usamos a viola com cordas de aço, mas é o mesmo instrumento. A sonoridade tem alguma coisa que ver. Depois, a forma como as letras são cantadas: há a língua que nos junta e há qualquer coisa em termos geracionais, dos anos 30, 40 e 50, que fez que a escrita tivesse uma temática parecida. Até porque os dois géneros nasceram em bairros pobres.

E qual é a principal diferença?

Carminho: São dois estilos diferentes. Aliás, não estão a ligar-se, a fundir dois tipos de música. Não é misturar fado. Trata-se de interpretar vários estilos musicais diferentes. Mas, como nasci no fado, de alguma maneira, intuitivamente e inconscientemente interpreto outras canções com algo que nasceu comigo. A forma como eu canto é que dá a entender que haverá algum fado por trás, mas não estou a cantar fado, estou a cantar outros estilos musicais e outras canções. Não tenho pretensão de mudar o fado. O tempo é que diz o que é que muda o fado.

Marisa: O tamanho dos países. A diversidade da música brasileira pelo tamanho geográfico. É difícil falar da música brasileira sem falar da diversidade, da variedade. É um país grande, com muitas influências internas, desde os africanos, os indígenas e os povos locais até aos estrangeiros todos que chegaram ao Brasil. Além disso, é um país muito aberto a influências externas e sabe processá-las e criar géneros originais. É diferente, até porque é um país mais jovem, mais novo, Mas a tradição de Portugal é admirável, o facto de ser mais tradicional. São coisas diferentes mas igualmente belas.

É a diversidade do Brasil e o lado tradicional de Portugal que tornam o samba alegre e o fado triste?

Marisa: Mas vocês também têm músicas portuguesas felizes, têm alguns ritmos bem animados, também.

Carminho: Há o samba canção, e a Marisa tem essa cultura do samba de raiz, que trata de coisas mais melancólicas. O fado nos tons maiores é mais nostálgico, mas não deixa de ter uma carga emocional. Eu costumo dizer que os portugueses cantam a alegria em tom menor e os brasileiros a tristeza em tom maior.

Marisa, tem alguma música portuguesa preferida?

Marisa: O fado. Acho lindo. Acho interessante porque é um género sempre em evolução, em que as pessoas vão fazendo novas letras, a maneira como o próprio intérprete se relaciona com os temas tradicionais, podendo interferir, criando novas letras. Acho isso fantástico.

E a Carminho, qual a música brasileira de que mais gosta?

Carminho: Essa é uma questão muito difícil. Mas gosto muito, por exemplo, de Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho, que é maravilhoso. Ou As Rosas não Falam, do Cartola. Há também uma música ótima, que eu e a Marisa vamos cantar, que se chama Carinhoso, do disco Coleção.

Há algum fado da Carminho de que a Marisa goste especialmente?

Marisa: Eu fui no show dela e gostei de tudo, achei-a maravilhosa.

E que canção da Marisa mais aprecia, Carminho?

Carminho: Há uma, ‘Verdade, Uma Ilusão’… E o ‘Infinito Particular’. E o ‘Primeira Pedra’, que vou cantar também com ela. Gosto de muitas.

Com quem é que gostariam de fazer um dueto?

Marisa: Com o António Zambujo. Gosto de uma coisa que ele e a Carminho têm, que é uma clareza, o canto deles é confortável.

Carminho: Eu já cantei com Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Nana Caymmi. E agora estou a fazer um disco só do Tom Jobim. Foi um convite da família Jobim para fazer um disco com o repertório dele. E terá a participação de elementos que eram da banda dele antes de morrer, incluindo o Jaques Morelenbaum, o Daniel Jobim (neto) e o Paulo Jobim (filho). Além disso, o disco tem três convidados que são dos maiores artistas do Brasil, mas ainda não posso revelar. O disco sai cá no Natal e em janeiro no Brasil. Mas neste momento ainda estou a gozar o que me está a acontecer e a aproveitar.

Qual é o palco em que mais gostam de cantar?

Marisa: Em teatros, onde as pessoas veem o show de frente. No Brasil tem uma tradição muito grande de casas de show com mesas, mas eu prefiro muito mais teatros. Também gosto de lugares em que as pessoas estão em pé, mas não tenho muito uma preferência por um palco específico. Já cantei em tantos lugares tão lindos. É claro que quando a acústica é boa e quando o lugar tem uma atmosfera boa para escutar música, melhor, mas a gente aprende a fazer em qualquer lugar.

Carminho: Lisboa e Portugal são sempre lugares especiais. Lá fora não esqueço três salas: Vienna Concert House, que dizem ser uma das mais espetaculares da Europa em termos acústicos, a Filarmónica de Colónia, onde foi gravado o The Köln Concert, um dos meus discos favoritos, do Keith Jarret, um pianista de jazz, e agora mais recentemente uma das salas mais espetaculares onde cantei foi no CCK na Argentina.

Lembram-se da primeira vez que cantaram ao vivo?

Carminho: Fado do Embuçado, no Coliseu dos Recreios, quando tinha 12 anos, numa festa de angariação de fundos para o Jardim Zoológico. Pedi aos meus pais para ir, mas antes tive de passar por uma audição com o músico Paquito, guitarrista da casa de fados dos meus pais. Ele deu o aval, disse que eu era afinada, e lá me deixaram cantar.

Marisa: Foi Águas de Março, nos anos noventa, com o projeto Red Hot Project, que existe até hoje, de prevenção e pesquisa da sida. Esse foi o primeiro projeto, o último foi o da Carminho. Há cerca de um ano e meio saiu no disco dela uma música minha e do Arnaldo [Antunes], Chuva no Mar. Por isso, tem um espaço de tempo de 25 anos, entre a primeira e a última música.

Na infância, o que gostavam de ouvir?

Marisa: Os Novos Baianos, Roberto Carlos, Secos e Molhados, que era uma banda de que Ney Matogrosso fazia parte, que tinha muito sucesso no Brasil nos anos setenta. Ouvia também Caetano e Gil, muito samba, muito jazz e muita música clássica, o que os meus pais ouviam.

Carminho: Lembro-me que ouvia imenso, com os meus irmãos, o disco A Kind of Magic, dos Queen, e também o Sultans of Swing, dos Dire Straits. E depois ouvia fados da minha mãe [a fadista Teresa Siqueira], como O Vento Agitou o Trigo. Na época, eu ouvia essas músicas sem perceber que eram diferentes, eu não percebia que Queen era diferente de fado, achava que tudo era música. Depois comecei a ouvir músicas brasileiras por causa das novelas.

E já em crianças atuavam em casa para os vossos pais?

Marisa: Os meus pais não são músicos, mas gostam muito de música. Nós sempre estudámos música em casa, eu e as minhas irmãs fazíamos umas brincadeiras de teatro ou de música, mas era mais uma coisa lúdica, que toda a criança faz.

Carminho: Fazia saraus. Era uma coisa normal na minha família. No Natal e na Páscoa havia sempre números musicais e artísticos com irmãos e primos. Era superdivertido. A primeira música que cantei na vida foi um fado. Tinha 6 anos. Os meus pais dizem que fui à cama deles e cantei um fado tradicional que ouvia na rádio…

Marisa: Eu não lembro a primeira música que cantei.

Sempre souberam que queriam ser cantoras?

Marisa: Não… mais ou menos. Dos 14 até aos 19 anos estudei música. Com 16 eu tive uma confeção de bijutaria, coisas em couro. Sempre fui muito trabalhadora, muito produtiva. Mas a música me escolheu muito cedo. Comecei a trabalhar muito jovem: desde que aos 15, 16 anos, subi no palco pela primeira vez, as pessoas começaram a pedir para eu cantar. E estão pedindo até hoje. Então não tive muita opção na vida, porque a música se impôs para mim de forma muito decisiva e definitiva desde cedo. Eu tenho a sensação de que poderia trabalhar com outras coisas, numa área criativa. Eu gosto muito de costura, trabalhos manuais. Talvez artes plásticas, talvez moda, não sei.

Carminho: Não pensei ser cantora. Pensei ser marketeer ou jornalista. Mas depois dei a volta ao mundo durante um ano [em 2007], fiz voluntariado, andei sozinha, o que serviu para descobrir que ser cantora podia ser a minha profissão. Quando era criança sabia que ia cantar toda a vida, mas não como profissão.

Então também acha, como a Marisa, que foi a música que a escolheu a si?
Carminho: Sim, também acho que foi a música que me escolheu. Eu cantava de forma natural e as pessoas começaram a dizer que eu tinha alguma coisa. No fado, quando surgem novos cantores, os fadistas mais velhos começam logo a definir se aquela pessoa vai cantar bem ou não, se vai ter estilo próprio ou apenas imitar outros e eu tive um bom feedback.

Qual foi a sua música que acha que mais tocou as pessoas?

Carminho: Talvez o Escrevi Teu Nome no Vento seja a que mais me representa, porque é tradicional e houve uma forma de a interpretar à minha maneira. Já era cantada pela minha mãe e eu tentei que fosse minha. Há coisas mais expansivas, como o ‘Perdóname’, fenómeno de popularidade e chegou a toda a gente por causa do Pablo Alborán.

Além de cantarem, compõem.

Marisa: Eu comecei a cantar e depois diversifiquei a minha atividade. Comecei a compor, a produzir os discos, a produzir discos de outros, fazendo diálogos com artes plásticas, cinema. Fui ampliando a minha própria maneira de fazer a música.

Carminho: Eu tento compor…

E do que é que gostam mais hoje em dia? Cantar? Compor?

Carminho: São áreas muito diferentes. E que são muito gratificantes. Agora estou a descobrir essa área da composição.

Marisa: Gosto de tudo. De fazer coisas diferentes. Gosto de cantar, de produzir, de compor, de estar no palco, das parcerias, eu faço isso tudo com muita felicidade.

É diferente compor para nós próprios e para outros músicos?

Marisa: Quando eu estou a produzir para outro músico tenho que procurar entender, ouvir, interpretar os desejos e ser uma referência estética. É um trabalho diferente porque você tem que ouvir um artista e colocar-se em segundo plano, você é a produtora do disco, você está ao serviço de um outro artista.

Carminho: Eu ainda só compus para mim, mas entretanto ofereci um tema meu a um artista português.

Que canção é essa?

Carminho: Não posso dizer. Ainda não.

O que é que as inspira a escrever?

Marisa: A vida. As coisas mais simples da vida e às vezes as coisas mais sofisticadas. Tudo, nada especificamente. Às vezes uma coisa que a gente vê no meio da rua, às vezes uma coisa que a gente está sentindo, às vezes um momento do coletivo, às vezes um momento pessoal.

Carminho: Acontece estar a caminho de um sítio, na rua, e componho a andar. Uso muito o gravador do telemóvel: quando sinto, gravo logo.

Qual é o vosso som preferido?

Marisa: O silêncio. O silêncio é o começo de tudo, no silêncio você tem vontade de preencher com música, com verbo, o que quer que seja, o silêncio é muito bom para o pensamento. O pensamento nunca fica em silêncio.

Carminho: O violoncelo e o acordeão. São parecidos com a voz.

O silêncio é um som muito importante para as cantoras?

Marisa: É uma página em branco. O silêncio dá vontade de ouvir músicas, de cantar, de tocar. No barulho, no ruído, não dá, não dá para pensar numa música ouvindo outra. O silêncio é muito generoso, no sentido de permitir que a gente possa ter as possibilidades todas.

Carminho: Eu preciso do silêncio. Tenho até intolerância a certos ruídos, como o bater de um pauzinho no saquinho, por exemplo. A falta de silêncio incomoda- me imenso.

A Marisa compõe há imensos anos. Houve algum momento em que não fosse capaz de escrever?

Marisa: Claro, tem fases mais férteis, fases menos férteis. Mas acho que é cíclico, depois passa. Geralmente, são fases em que eu estou com muito trabalho, estou preparando uma tournée e aí não tem nem tempo para fazer música nova, porque o cansaço e o esforço te tira tempo para fazer outras coisas. Por isso é que o vazio, o silêncio, é bom e é ótimo para compor.

E quando está barulho? Que barulho é que aprecia para compor?
Marisa: Barulho de chuva, barulho do mar, barulho do vento, de uma folha de coqueiro.

Além da voz, que instrumentos tocam?

Marisa: Toco violão, ukulele, um pouquinho de piano, um pouquinho de bateria, pouco desses dois. Mas o instrumento mais forte mesmo é a voz.

Carminho: Cheguei a tocar piano e às vezes toco guitarra, tento tocar para compor.

Porque escolheram ambas cantar em português?

Marisa : Porque é a minha língua natal, a língua que eu falo bem, o sotaque de brasileira é bom e é uma música linda, uma letra linda. Eu acho que tive sorte de nascer num país que tem uma língua bonita e com uma música poderosa.

Carminho: Eu o que fiz foi não ter medo de cantar um género de que ninguém da minha geração gostava. Quando comecei, aos 12 anos, o fado era associado a uma coisa antiga e ultrapassada. Foi um crescimento, quando assumi o que gostava. Tive de decidir que não ia esconder mais dos meus amigos que gostava de fado. Porque nenhum deles gostava. Eu era a única.

UM CONCERTO EM OEIRAS E OUTRO NO PORTO
No dia 27 de julho, no EDP Cool Jazz Fest, nos Jardins Marquês de Pombal, em Oeiras – com o apoio Delas.pt.

O outro no dia 30, no Museu Serralves, no Porto.

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