Frankenstein, a obra-prima de uma escritora atormentada

Há dois séculos uma mulher dava início àquela que foi primeira obra literária de ficção científica e a um dos maiores clássicos do género do terror, a par de “Drácula “, de Bram Stoker. Frankenstein, o criador do monstro do livro com o mesmo nome, lançado originalmente em 1818, foi criado por Mary Shelley a de 16 de junho de 1816.

A história da personagem inventada pela escritora londrina, nascida em 1797 com o apelido Godwin, é tão original quanto a que lhe deu origem. O romance gótico, que em 1818 saiu com o nome “Frankenstein: ou O Moderno Prometeu”, partiu de um conto surgido durante serão nesse verão de 1816, que a escritora passou no Lago Lemano, em Genebra, junto com o poeta e filósofo Percy Shelley, seu amante na altura, e outros intelectuais, como o poeta Lord Byron.

Condicionado por um verão anormalmente chuvoso, fruto de várias erupções vulcânicas na Indonésia, o grupo passava as noites dentro de casa a conversar sobre os mais diversos temas, como as experiências do filósofo natural e poeta Erasmus Darwin, ou a ler histórias sobre fantasmas. Estas levariam a que Lord Byron sugerisse, num desses serões, que cada um escrevesse o seu próprio conto de terror.

Byron escreveu um conto que mais tarde usaria, parcialmente, no seu poema ‘Mazzepa’, enquanto o médico e escritor John Polidor, inspirado de por um fragmento de uma história inacabada de Byron mais tarde escreveria a base do seu conto ‘O Vampiro’, a primeira história ocidental a apresentar o vampiro na imagem que conhecemos hoje e que precedeu o famoso romance de Bram Stoker, ‘Drácula’.

Já Mary Shelley demorou alguns dias até ter uma visão que a ajudou a criar a sua história em torno de uma figura monstruosa, que ganharia forma no seu famoso Frankenstein. Foi preciso chegar a madrugada de 16 de junho para que isso acontecesse.

Um “pálido estudante de artes profanas ajoelhado ao lado da coisa que tinha reunido” e um fantasma “de um homem estendido”, dando sinais de vida depois e a mexer-se num espasmo, “através do funcionamento de alguma força”, foi a visão descrita por Mary Shelley e o momento que a inspirou a escrever o seu conto.

A escritora acabou por desenvolvê-lo e fazer um romance, graças ao encorajamento do marido Percy Shelley, como a própria admitiu anos mais tarde no prólogo da terceira edição do livro, publicada em 1831 e considerada a versão definitiva.

O monstro de Frankenstein, no filme de Boris Karloff
O monstro de Frankenstein, no filme de Boris Karloff

O sucesso de Frankenstein e uma vida atribulada

A história de Victor Frankenstein, um estudante de ciências que constrói um monstro no seu laboratório, foi então desenvolvida por Mary Shelley, entre 1816 e 1817. Quando o romance saiu, em 1818, rapidamente conquistou os leitores, mas a escritora não foi creditada como autora. No círculo literário a criação do livro era frequentemente atribuída a Percy Shelley, com quem entretanto Mary tinha casado.

Apesar do romance se ter tornado depois na sua obra mais conhecida, Mary Shelley publicou também contos, textos dramatúrgicos, ensaios, biografias e literatura de viagens, além de se ter dedicado à edição e promoção de trabalhos do marido.

A escritora, filha do filósofo William Godwin e da pedagoga e escritora Mary Wollstonecraft, teve uma educação formal mediana, mas pouco comum para uma jovem mulher daquela época. A mãe morreu poucos dias após o seu nascimento, e seria o seu pai, entretanto afogado em dívidas, o responsável pela sua educação e da irmã. Além de levar as crianças a viajar, deu-lhes acesso à sua biblioteca e permitiu que privassem com muitos intelectuais que o visitavam. Mary cresceu rodeada de livros e beneficiando dos conhecimentos do pai, de uma educadora e de um tutor.

Em 1812, passou, a mando do pai, uma temporada com o dissidente radical William Baxterher, na Escócia, e seria num intervalo entre as temporadas passadas nas terras altas que conheceria Percy Shelley, na altura casado com Harriet.

Os dois tornaram-se amantes e em julho de 1814 viajaram secretamente para a França. Quando Mary regressou a Inglaterra estava grávida, mas nem ela nem Percy tinham dinheiro e o pai recusou-se a ajudá-la financeiramente. Em Fevereiro de 1815, deu à luz uma menina prematura, que morreu semanas depois. A morte da criança levou-a a uma depressão profunda, mas pouco tempo depois voltou a engravidar de Percy. A 24 de janeiro de 1816 deu à luz um segundo filho de que chamou de William.

Meses depois do Mary e Percy regressarem de Genebra, a mulher do poeta Harriet foi encontrado morta e os casal pode então casar-se. A partir daí Mary Godwin passou a chamar-se oficialmente Mary Shelley, nome com o qual assinou o seu “Frankenstein”.

Percy Shelley morreu quatro anos depois do lançamento da primeira edição, em 1818, morreu numa tempestade na costa de Itália, país onde o casal tinha passado os últimos anos. Esse período foi de produção literária intensa para Mary Shelley, mas também de profundos desgostos pessoais, com a morte dos seus filhos, Clara, em setembro de 1818 em Veneza, e William, em junho de 1819, em Roma. Estas perdas causaram-lhe uma depressão profunda, parcialmente atenuada com nascimento de seu quarto filho, Percy Florença, em 12 de novembro de 1819. Em 1922, Mary voltou a engravidar, mas perdeu o bebé.

Já viúva e regressada a Inglaterra, a escritora viu-se a braços com as dificuldades económicas, que a privavam do convívio em certos circuitos sociais. De 1827 a 1840, dedicou-se às atividades de editora e escritora, tendo escrito os romances “Perkin Warbeck”(1830), “Lodore” (1835) e “Falkner” (1837).

Nos seus últimos anos, viveu com filho Percy Florence e a nora. Morreu en 1851, em Chester Square, com 53 anos, alegadamente devido a um tumor cerebral.

 

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