Maxamba: O filme de Sofia Borges para um bairro em demolição

Entrevista a Sofia Borges, no Festival Olhares do Mediterrâneo, no Cinema São Jorge, 1 de outubro, 2016.
(Fotografia: Sara Matos / Global Imagens)

A rotina de um casal indiano e idoso, na última fase da demolição do bairro Quinta da Vitória, em Loures, é a história do documentário ‘Maxamba’, de Sofia Borges e Suzanne Barnard. O filme passou na última edição do festival ‘Olhares do Mediterrâneo – Cinema no Feminino’ e foi selecionado para a secção Travessias, dedicada ao tema dos refugiados e migrações forçadas. Apesar desse casal de idosos – Nani e Omar – ter saído de Moçambique na sequência de descolonização, Sofia Borges dificilmente conseguiria antecipar que o seu documentário e o âmbito do projeto que lhe deu origem fosse inserido naquele contexto temático.

“A preocupação era criar um documento que retratasse o bairro, em particular pela Nani e o senhor Omar, pelo quotidiano deles. Quando o filme é selecionado para o ‘Olhares do Mediterrâneo’ e depois para a secção ‘Travessias’ foi uma satisfação e ao mesmo tempo também me levou a refletir sobre o próprio filme. No facto de que este poderia ser lido de uma forma diferente daquela com que foi concebido”, explicou a realizadora em entrevista ao Delas, no festival.

‘Maxamba’ surge na sequência de um trabalho social e artístico, que começou a ser desenvolvido no bairro da Quinta da Vitória, em 2006, com os moradores e uma equipa de artistas plásticos e antropólogos. O documentário acaba por ser um pormenor num plano mais vasto.

“Um dos primeiros projetos foi a criação de um mapa do bairro, porque o bairro ia ser demolido. Foi crescendo a partir desta ideia e com a participação e envolvimento dos moradores. Fizeram-se duas exposições, uma intervenção pública e o projeto final foi a construção de um jardim público, chamado ‘Jardins da Vitória’, muito perto do antigo bairro, freguesia da Portela, e com árvores que vieram dele”, conta a realizadora de 45 anos.

O filme teve início em 2013 e só ficou concluído em 2015, porque o trabalho não foi seguido e desenvolveu-se entre Portugal e os Estados Unidos da América. ‘Maxamba’ é correalizado e coproduzido com a americana Suzanne Barnard, que Sofia Borges conheceu em São Pedro do Sul, numa mostra de cinema. As afinidades, estéticas e outras, foram o ponto de partida para a união de duas vontades: “Eu tinha interesse em filmar no bairro, ela tinha interesse em realizar um filme e juntámo-nos para fazer este documentário”. Entre períodos de dois meses de trabalho em Portugal e, posteriormente, através da internet, o documentário foi ganhando forma.

Uma família indiana num bairro de barracas
A decisão de usar a história de apenas uma das famílias para representar o bairro em filme deveu-se, à “grande proximidade” que Sofia Borges tinha com o casal de idosos indianos. “Já tinham colaborado noutros projetos e era um dos sítios, naquele bairro, onde eu ‘repousava’. Ia lá a casa visitá-los e desenvolveu-se uma relação para lá da relação de trabalho”, lembra.

A família de Maxamba e as realizadoras ao centro, Sofia Borges e Suzanne Barnard (Fotografia: DR)
A família de ‘Maxamba’ e as realizadoras, ao centro, Sofia Borges e Suzanne Barnard. (Fotografia: Site do filme/DR)

 

Ao retratar essa família, em particular, o documentário acaba por abordar uma realidade pouco falada, a da presença da comunidade indiana hindu em bairros sociais ou, no caso da Quinta da Vitória, de barracas e habitações precárias.

Sofia Borges considera que isso se deve ao facto de essa comunidade ser “muito mais reservada e de viver mais associada aos seus templos religiosos. “Têm mecanismos coletivos de sobrevivência e acabam por ‘resolver as coisas’ dentro da própria comunidade ou entre a família. Mas foi muito comum a vinda dessas famílias para esses bairros. Havia essa rota da Índia para Moçambique, e depois da independência de Moçambique a comunidade hindu veio para Lisboa. Como após a crise foi para Londres. E esta é uma rota que é comum a muitas pessoas da comunidade hindu”, explica a realizadora.

Apesar disso, no casal Nani e Omar, há um grau de integração diferente na vida do bairro. O alfaiate fala português, mas a esposa pouco ou quase nada. “Não sei se tem a ver com o papel da mulher e do homem dentro da comunidade hindu. A mulher estava muito mais em casa, no interior da casa, e costurava essencialmente para mulheres e dentro da comunidade hindu”, explica Sofia Borges. Segunda a realizadora, o facto de Omar costurar para as pessoas do bairro, tornou-o numa “figura muito querida”, na zona, sobretudo “entre os jovens”. “Era ele que recebia as calças à quinta e à sexta-feira porque eles iam sair à noite e queriam arranjar as calças. Portanto, acabava por ter esta relação extra-comunidade hindu, com os jovens portugueses e os jovens portugueses de ascendência africana. Aliás eles chamavam-lhe professor e tinham uma relação de respeito para com ele”.

O casal trabalhava na casa que construiu, na Quinta da Vitória, com ajuda de familiares e “muitas vezes com restos” que o senhor Omar recolhia entre aquilo que os outros já não precisavam e deitavam fora. Apesar de modesta e autoconstruída, e mesmo com a perspetiva de realojamento ou indemnização, o casal não queria sair da sua casa. A razão é simples: “Tinham a sua vida completamente organizada, o seu trabalho e a sua independência”, explica a realizadora.
Quando se deu a demolição, optaram pela indemnização em vez do realojamento e atualmente vivem em casa de uma filha, na Amadora, e já não costuram.

O processo de realojamento contemplou uma nova habitação, mas não acautelou os meios de sobrevivência, como as hortas, trabalhos e pequenos ofícios como os de Nani e Omar.

“Na comunidade hindu houve uma ou duas famílias que foram realojadas, de resto foram todas indemnizadas. E também é nessa altura que muitas vão para fora. Algumas, os mais velhos sobretudo, voltam à Índia e muitos vão trabalhar para Londres.”

Das Belas-Artes ao trabalho com a comunidade
Apesar da sua formação em Pintura, pela Faculdade de Belas-Artes, e em escultura, pelo Ar.Co., a determinada altura Sofia Borges sentiu a necessidade de trabalhar com pessoas. Quando foi convidada para fazer uma exposição no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, achou que seria mais produtivo “trabalhar com alguém, não ir para a biblioteca pesquisar, porque era uma coisa de contexto”.

Aprofundou a experiência em termos académicos, especializando-se no estudo sobre a relação artística com as comunidades. É aí que entra o cinema e onde tem vindo a desenvolver trabalho e se encaixa o projeto que deu origem a ‘Maxamba’.

Antes disso realizou o documentário, ‘Aldeia do Lado’ (2010), e pretende fazer mais, se tiver condições para isso. Para já, fazer ficção não está nos seus planos. “Ainda não esgotei a minha experiência dentro do campo em que estou a trabalhar. Tinha interesse, em termos temáticos, continuar a trabalhar as relações entre África e Portugal.”

A ligação emocional à história luso-africana
Sofia passou dois anos em Angola, quando era criança. O pai foi contratado para ir trabalhar para Luanda, mas a família materna viveu sempre em países africanos. “Havia sempre este imaginário da África, porque não tenho muitas memórias. Lembro-me dos objetos que apareciam em casa, dos almoços familiares e das conversas.”

Mas não são apenas essas recordações que movem a realizadora. Por detrás daquele interesse, há a vontade de abordar o colonialismo de forma indireta, “não do ponto de vista histórico, do passado, mas para perceber como é que essa questão se manifesta no presente”. Uma abordagem que se prende com os encontros que teve na Quinta da Vitória, com portugueses e angolanos, e portugueses de origem africana. “Percebi que, pela vida dura que tiveram, esta lhes tinha sido limitada por uma série de condicionantes históricas, por serem negros, por terem vivido na guerra, em determinados regimes políticos”, explicou.

É tudo isso que a faz definir o seu interesse pela temática como “pessoal e emocional”, e a intenção de a trabalhar como uma forma também de homenagear essas pessoas que conheceu.

Imagem de destaque: Sara Matos / Global Imagens

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