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Militante da Frente Nacional diz que Le Pen não ganha

Frente Nacional

Eric Barbosa é um dos jovens militantes que tem intensificado ações de campanha, em Paris, para conquistar votos em favor de Marine Le Pen perante um eleitorado que se mostra “cansado” da política francesa.


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“Bonjour madame! Aqui está o programa de Marine Le Pen!”, apregoa o lusodescendente de 20 anos à entrada da feira Auguste Blanqui, no décimo terceiro bairro de Paris, distribuindo panfletos, lançando um “merci” a quem não estende a mão aos papéis e falando com várias pessoas, como Nicole Marchand, de 73 anos, que ainda não sabe em quem vai votar.

“Estou cansada. Pior, estou devastada com a política em França. Há 40 anos que os políticos afundam o país e tenho medo pelos meus netos! Ainda não sei se vou votar em branco ou se vou votar em Marine Le Pen. O Macron vai-nos afundar ainda mais”, considerou a reformada parisiense que votou em Nicolas Sarkozy em 2012 e “quando era jovem” votava em Arlette Laguiller, “a candidata trotskista”.

Eric Barbosa é atualmente secretário distrital de Paris da Juventude da Frente Nacional e só entrou na FN há dois anos depois de se ter “interessado pela extrema-esquerda” do Novo Partido Anticapitalista, mas as ações dos militantes “burgueses boémios, a fumar erva e a tocar tambor” deixaram-no “muito desiludido porque não era a ideia que tinha de um militante político”.


Lusodescendente defende redução de imigração em França


O pasteleiro conhece bem as receitas dos pastéis de nata e do arroz doce que o avô lhe ensinou, mas diz que “uma parte de sangue português” não faz dele um português, defendendo uma política de redução de imigração em França “porque a situação económica e social não permite acolher mais imigração” e considerando que os portugueses em França deveriam pedir a nacionalidade francesa se quiserem usufruir da “prioridade nacional” no caso de Marine Le Pen ser eleita.

“Os portugueses podem pedir a naturalização. Vocês têm esse direito. Podem ser franceses e usufruir de todas as vantagens deste belo país. Convido-os a fazê-lo. A lei permite que vivam em França sem serem franceses mas com Marine Le Pen eleita haveria uma política mais nacional e seria implementada a prioridade nacional segundo a qual os franceses têm vantagens no seu país”, explicou o jovem.

Eric Barbosa disse acreditar que se “vai conquistar o melhor resultado de sempre da FN” mas não o suficiente para vencer a segunda volta das presidenciais de 07 de maio.

“A vitória vai ser difícil porque o sistema está a coligar-se, mas se a Marine não for eleita, os próximos cinco anos vão ser um horror com o ultraliberalismo. Vai haver manifestações e vai ser a guerra civil. Há mais possibilidades de um clima de medo e de perigo com Macron do que com Marine porque ela não defende uma política de austeridade e de neoliberalismo”, considerou o jovem.

A passar discretamente com o cesto de compras, Kadougha Belkassem, de 68 anos, declinou o convite para ler o programa de Marine Le Pen e, em voz baixa, afirmou à Lusa que “Marine é contra os imigrantes”.

“Não seria bom para mim, mas não tenho medo que ela seja eleita porque a França e a Argélia têm uma história comum. O meu avô lutou pela França na primeira guerra mundial, o meu pai lutou na segunda guerra e foi feito prisioneiro pelos alemães”, lembrou a argelina que vive há 17 anos em França e não tem dupla nacionalidade.

Josiane Goarnisson, de 67 anos, mostrou-se decidida a votar na FN, defendendo logo que não é “racista” e apresentando como justificação o facto de ser casada com um bósnio muçulmano e de ter sempre trabalhado com estrangeiros, sendo católica e votando tradicionalmente à direita.

“Ganho 980 euros de reforma ao fim de 51 anos de trabalho. Comecei a trabalhar aos 16 anos, parei aos 57. Tudo para ganhar uma miséria, enquanto um estrangeiro chega aqui e sem trabalhar tem logo 780 euros, mais subsídio para o alojamento e segurança social. Eu não tenho nada”, criticou a antiga costureira sublinhando que a sua pensão nem atinge o salário mínimo francês (cerca de 1200 euros líquidos).

Manon Bouquin também distribui o programa da candidata FN e acredita que a sua vitória é possível, à imagem do que se passou nos Estados Unidos em que as sondagens apontavam Hillary Clinton como vencedora mas foi Donald Trump quem chegou à Casa Branca.

“São países diferentes mas há semelhanças. Hillary também era a candidata dos bancos, dos media, do showbizz, de Hollywood. Trump era um movimento mais popular, era uma aspiração ao protecionismo económico, era o regresso à nação e ao orgulho nacional”, comparou a estudante de História que logo após a eleição norte-americana felicitou o “monsieur Trump” na sua página Twitter colocando um chapéu com o slogan “Make America Great Again”.

A filmar os jovens militantes para uma reportagem no canal norte-americano PBS, a jornalista norte-americana Deborah Gouffran disse à Lusa que “eles estão muito motivados pela vitória de Trump, do Brexit, por esta vaga nacionalista e identificam-se neste movimento de povos que tende a fechar-se”.

“Marine Le Pen reivindica claramente a herança de Trump, mas a diferença é que ele era realmente um outsider, nunca tinha feito política. Ela é uma herdeira política e está lá dentro há muito tempo”, analisou a jornalista, considerando que a segunda volta “vai ser mais apertada do que parece”.

Lusa