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Morreu Clare Hollingworth: a mulher que noticiou o começo da II Guerra Mundial

A repórter ainda não estava a trabalhar no jornal britânico Daily Telegraph há uma semana quando testemunhou, em agosto de 1939 e em primeira mão, a maior das histórias do século XX: o início da Segunda Guerra Mundial.

Clare Hollingworth morreu na terça-feira, 10 de janeiro, com 105 anos, em Hong Kong, onde vivia desde o início dos anos 80 do século passado. A morte foi confirmada pelo sobrinho-neto e também seu biógrafo, Patrick Garrett, bem como através da página de Facebook Celebrate Clare Hollingworth.

“Mil tanques investem sobre a fronteira polaca. Dez divisões dizem-se prontas para atacar”.

Imagem da notícia publicada no 'Daily Ttelegraph'

Imagem da notícia publicada no ‘Daily Ttelegraph’

Foi com esta manchete que a repórter de guerra revelou ao mundo a intenção de Hitler em invadir a Polónia e, com isso, dar início a um dos maiores e mais destrutivos conflitos do século passado. Tudo começou porque a jornalista decidiu conduzir de Gliwice, então na Alemanha, até Katowice, na Polónia, um percurso de cerca de 32 quilómetros. Foi nesse caminho em que a repórter se deparou com o alinhamento das tropas nacional-socialistas e ficou a saber da operação que teria lugar a 1 de setembro de 1939.

“Era um grande número de tropas, literalmente centenas de tanques, carros blindados e arma” escondido no vale, descreveu, mais tarde a correspondente.

Mas a sua importância não se circunscreveu ao facto de noticiar o advento da guerra, ela reportou também o arranque do conflito, tendo sido acordada por bombardeamentos no amanhecer do primeiro dia de setembro daquele ano.

Nascida em 1911, em Leicester, Reino Unido, a repórter nunca virou a cara a uma grande história, nem a um grande imprevisto. Talvez por isso ainda hoje dormia sempre com o passaporte à mão e um par de sapatos por perto, não fosse hora de partir.

[Fotografia: Celebrate Clare Hollingworth_Facebook]

[Fotografia: Celebrate Clare Hollingworth_Facebook]

O risco fez, aliás, parte da vida da correspondente durante os 40 anos que se seguiram ao início da Segunda Guerra Mundial. E não faltam histórias a testemunhá-lo. Hollingworth chegou a ser enterrada durante a noite nas areias dos deserto quando viajava com as tropas britânicas no Norte de África, aquando de um reconhecimento germânico. “Um espirro teria bastado para nos denunciar e morrermos”, descreveu mais tarde. E escapariam todos com vida. Clare cobriu este conflito a partir da Europa de Leste, dos Balcãs e do Norte de África.

A jornalista cobriu também as guerras civis na Grécia e na Argélia, as hostilidades entre árabes e judeus a partir da palestina e, entre outros, a Guerra do Vietname. Aqui quase ia perdendo a vida, mas o snipper que a tinha na mira falhou o tiro. Em Jerusalém, escapou de um bombardeamento que vitimou mortalmente 100 pessoas.

Criticada e elogiada, Hollingworth nem sempre foi uma figura consensual, tendo enfrentado acusações de ser espia, quer por governos locais, quer pelos britânicos.

“Clare foi literalmente uma das maiores jornalistas do século XXI. Ela era corajosa, espirituosa e sábia”, declarou Lord Patten, que a conheceu enquanto governador britânico – o último – em Hong Kong.

Na longa carreira, a jornalista passou por títulos como The Telegraph, The Guardian, The International Herald Tribune e também o The Wall Street Journal. Em 1982, Clare foi reconhecida como Oficial da Ordem do Império Britânico, título atribuído pela Rainha Isabel II, e passou a ser membro permanente do Clube de Correspondentes Estrangeiros de Hong Kong. Em 1994, a jornalista recebeu o prémio de jornalismo James Cameron e, em 1999, foi reconhecia com um prémio carreira pela instituição jornalística britânica, What the Papers Say.

[Fotografia: Celebrate Clare Hollingworth_Facebook]

[Fotografia: Celebrate Clare Hollingworth_Facebook]

Para lá das notícias, escreveu livros como “As Três Semanas de Guerra na Polónia” (1940), “Existe um Alemão Mesmo Atrás de Mim”, dois anos depois. “Os Arábes e o Ocidente”, em 1952, e, em 85, “Mao e os Homens Contra Ele”.

Casada por duas vezes, o primeiro marido dela, Vandeleur Robinson, separou-se por deserção, 15 anos depois de terem dado o nó (1936). “Quando estou numa história, estou numa história – quero lá saber de marido, família ou de quem quer que seja”, afirmou Clare Hollingworth, em 2004, ao jornal britânico The Guardian. Voltaria a casar-se no início dos anos 50, com o jornalista Geoffrey Hoare, que morreria em 1965.


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Carla Bernardino