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“Não somos atletas paralímpicos, somos super atletas”

Simone Fragoso

Aos 36 anos, Simone Fragoso é uma das atletas paralímpicas mais conhecidas entre os portugueses. Ninguém consegue ficar indiferente ao seu 1,01 metro e muito menos à sua boa disposição contagiante.

A nadadora já conta com três participações nos Jogos Paralímpicos e revelou ao Delas.pt que esta será a sua última vez. Não sonha com uma medalha. Diz ter noção da capacidade das adversárias e considera que a sua idade é um obstáculo.

Deixar a vida de atleta de alta competição não assusta Simone. Tem quatro cursos superiores – licenciatura em Animação e Teatro e em Educação Musical e mestrado em Música e em Sociologia do Desporto – e afirma que a sua profissão é como professora de música e natação e não como atleta.

Como começou a aventura na natação?

Sou de Palmela e aprendi a nadar no rio Sado, quando tinha seis anos. Ainda não havia piscinas. Representei já um clube de Setúbal, o Clube Naval Setubalense e iniciei a parte da competição em 2006. Depois representei um clube encarnado e agora, nos últimos dois anos, tenho estado no clube de coração, o Sporting.

Quais foram as suas maiores conquistas como nadadora?

Mostrar ao povo que nós, atletas paralímpicos, não somos atletas paralímpicos, somos super atletas. Conseguimos superar-nos e dar chapadas a muito boa gente. Quando comecei a conquistar títulos e medalhas as pessoas começaram a perceber o nosso valor, a superação.

Os Jogos Paralímpicos fazem com que pessoas vos olhem com maior respeito?

Sim, o desporto veio dar-nos visibilidade. Noto, a cada ciclo olímpico, que as pessoas estão mais interessadas em nós.

Está ansiosa por ir ao Rio…

Estou. Já fui ao Rio de Janeiro várias vezes, tanto como atleta como turista. Já sei o que visitar, vou fazer de guia à Joana [Joana Calado, nadadora paralímpica] e ao Rui [Rui Gama, treinador de natação do Sporting], sei onde levá-los, o que vão gostar de ver.

De que participação nos Jogos Paralímpicos mais gostou?

Gostei muito de Londres 2012. A minha mãe esteve lá e consegui, depois de tudo acabar, aproveitar para conhecer a cidade.

Como reagiu quando soube que ia ao Rio2016?

Só tinha vontade de chorar. Ultimamente há uma grande concorrência, cada vez aparecem mais atletas e é difícil obter mínimos para ir. Mesmo com os mínimos estava muito em baixo quando olhei para a tabela classificativa. Nesta última prova do Europeu, na Madeira, consegui subir algumas posições e a vaga foi minha.

Onde estava quando recebeu a boa notícia?

Estava a caminho de Fátima quando soube, a 12 de maio. Foi uma coinciência gira. Cada um acredita no que quiser, mas eu sou uma pessoa cheia de fé. Se não fosse, se calhar não estava aqui.

O que disseram os familiares e amigos?

Isto para eles é ganho, para eles já é a medalha. Tenho sido muito homenageada pela minha autarquia. Isto para eles é uma conquista, as pessoas já reconhecem o meu valor e sabem aquilo que consigo fazer.

O que garantiu a sua presença nestes Jogos Paralímpicos?

Os 50 metros mariposa, um estilo que comecei a nadar só há três anos. Se não fosse a mariposa tinha ficado pelo caminho.

E tem alguma superstição?

Gosto de falar sozinha. Chego ao bloco e começo a falar.

As tuas adversárias não ficam a olhar para ti?

Elas desmancham-se a rir. É só para aliviar um bocado a tensão e o stress.

Tem feito algo de diferente na preparação para estes Jogos?

Sim, acho já tive mais estágios esta época do que na minha vida toda e em sítios com condições. Temos uma equipa boa no Sporting, um gabinete adaptado, tudo como é suposto. Depois de nos termos incorporado também na Federação Portuguesa de Natação [faziam apenas parte da Federação Portuguesa de Desporto para pessoas com Deficiência] temos tido mais apoio.

Estar ligada a um clube como o Sporting ajuda?

Ajuda muito. Eu já estive no Belenenses e no outro clube, que também são clubes grandes à sua maneira, mas sinto que temos sido apoiados mais do que nunca.

Que tipo de apoios o clube vos dá?

Dão-nos condições de treino, equipamentos, apoiam as provas nacionais e internacionais.

Há alguma adversária que tema especialmente?

Não tenho adversárias nenhumas. Eu é que sou a minha adveresária, tenho de superar a minha marca e só tenho de me preocupar com ela.

Trazer uma medalha é um objetivo?

Não, nem pensar nisso. Com 36 anos tenho dois dedos de testa. Sei muito bem aquilo que consigo e o que não consigo fazer. Quero só superar a minha marca e dar o meu melhor, fazer boa figurinha. É para isso que lá estou. Senão ficava no sofá a comer tremoços ou a criticar os olímpicos, como os outros.

O que achou da prestação portuguesa no Jogos Olímpicos?

Gostei muito e estou orgulhosa dos nossos atletas. O povo não sabe as condições em que se treina em Portugal, mas eu não me queixo disso. Estou aqui porque gosto de nadar. Isto não é a minha profissão. Para muitos dos atletas dos outros países esta é a profissão deles. Sou professora de música e natação. Só treino nos intervalos das aulas que dou e das aulas do mestrado em Sociologia do Desporto que estou a tirar na Lusófona. Esta última época tem dado cabo de mim. Quando acabarem os Jogos estou pronta para começar tudo outra vez.

Como consegue conciliar tudo?

Consigo tudo porque consigo gerir, há tempo para tudo.

Dás aulas a crianças, adultos e idosos. Alguma vez se sentiu descriminada?

Não, nada. São muito curiosos ao início, mas isso é normal. Toda a gente é curiosa. Sou professora desde 2006 e nunca ninguém me faltou ao respeito. Não tenho razões de queixa. Colaboro com um grupo de idosos da Santa Casa da Misericórdia de Palmela onde dou aulas de motricidade e é fantástico. Hoje fui despedir-me deles. Desejaram-me boa sorte, choraram e deram-me grandes abracinhos.

Que apoios monetários tem enquanto atleta?

Sou uma felizarda. Gosto muito de bater às portas e que as pessoas me digam que não, mas é difícil dizer que não à Simone cara-a-cara. É muito raro dizerem-me que não, não têm coragem. Tenho muitos patrocínios monetários, de material, logísticos e outro tipo de apoios. Tenho muita gente a apoiar-me, não cheguei aqui sozinha. A quantidade de pessoas que me apoiam dava para encher um navio de cruzeiro e mesmo assim não chegava.

Qual o valor da bolsa paralímpica que recebe? É suficiente?

É um valor que me cobra a despesa de vir de Palmela para Lisboa.

Para um atleta paralímpico é possível viver só do desporto em Portugal?

Não, é completamente impossível. Já evoluímos bastante desde 2008, mas sei que a bolsa dos meus colegas brasileiros, noruegueses e até dos vizinhos espanhóis é superior, tal como as condições. Estamos a anos-luz desses países.

Para angariar dinheiro para esta participação paralímpica criou a marca ‘Sigura-te Simone’, que estampou em toucas e mochilas para vender. Como correu essa iniciativa?

Correu fantasticamente. Fiquei com quatro dos tubarões [do Shark Tank] e ainda me estão a apoiar.

Esta sua característica de empreendedora tem ajudado muito…

Tenho esta característica porque a minha mãe é uma super mãe. É uma das diretoras da marca tupperware em Portugal e está sempre em contacto com as pessoas, com as vendas. É uma característica um bocadinho dela. Ela só não me vende a mim porque depois tem de ir à retoma.

Em abril do ano passado viu-se envolvida num escândalo de doping, mas ninguém conseguiu provar as acusações que surgiram contra si.

Só conversa fiada, não se provou nada. Ainda bem que quatro tubarões e o resto do mundo acreditaram na minha palavra. As pessoas que me conhecem sabem que essa notícia foi zero. Tenho um metro e 25 quilos, para tomar um Benuron tem de ser aos quadradinhos de um quarto e mesmo assim tem de ser com indicação médica porque eu tenho o metabolismo de uma criança. Estou como o José Castelo Branco, até a publicidade má é importante.

Sentiu-se injustiçada?

Claro, deitou-me um bocadinho a baixo, mas no mês seguinte fiz mínimos para os Jogos, calei-os logo.

Como seria a sua vida sem a natação?

Muita coisa. Tenho quatro cursos superiores. Em 10 anos fiz três e ainda vou tirar mais qualquer coisa, gosto é de aprender.

O que de melhor lhe trouxe o desporto?

Conheci muita gente, muitos povos, muitas culturas, muitas tradições. Viajei pelo mundo fora, tenho três passaportes, sou uma pessoa muito rica e 120% feliz.

Que mensagem gostaria de deixar aos atletas que estão agora a começar a competir?

Façam o que gostam. É importante sair de casa, conhecer e falar com as pessoas. Sou um pouco assim. Quando vou a um café, um restaurante ou um bar não descanso enquanto não conhecer toda a gente que lá está. Quero é viver.

Cátia Carmo