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Instalação do terrorismo: novo paradigma para o Ocidente

Na ética contemporânea do horror, há uma assinalável mudança de paradigma: tanto de autores e como de alvos a abater. Há um novo terrorismo global, focado, sobretudo, em alvos quotidianos.

O relatório ‘Euro 2016: Terrorist Threat Assessmen’ dos serviços secretos franceses veio tornar claro que o campeonato europeu de futebol tem todas as características para ser uma alvo do Estado Islâmico. Mais: no mesmo relatório lê-se que um computador apreendido na sequência dos ataques de Bruxelas continha planos detalhados para fazer explodir bombas durante os jogos de futebol.

No terrorismo do final do século XIX e do XX as organizações fundamentalmente anarquistas ou nacionalistas, tinham alvos políticos bem definidos; o novo terrorismo global, normalmente, não tem um objetivo político claro e as organizações que o praticam, só assumem a autoria dos seus atos, depois de garantida a respetiva divulgação internacional. Se, no tipo de terrorismo que conhecíamos anteriormente, os terroristas procuravam eliminar figuras estratégicas do poder, evitando atingir inocentes, no novo terrorismo global, não há inocentes; todos devem sofrer as consequências.

Simbolismo dos alvos

Uma das características desta nova forma de terrorismo internacional, é a mudança de paradigma no simbolismo dos alvos. Ian Lesser, investigador da Rand Corporation, publicou, um pouco antes do 11 de setembro, um livro que rapidamente se transformou num best-seller, o ‘Countering the New Terrorism’. Segundo Rand (2001), “o número de vítimas inocentes, obriga-nos a redefinir conceitos. Antes do 11 de setembro, o terrorismo de massas significava destruir uma embaixada ou fazer explodir um avião, provocando centenas de vítimas, no máximo. Agora estamos a falar de milhares de vítimas e, nesse sentido, há também uma diferença.”
A verdade é que a frequência dos atentados na Europa, tem aumentado e o número de vítimas também. Os atentados de Bruxelas aconteceram quatro meses depois dos de Paris. 2015 é o ano com o maior número de vítimas mortais – 148 – em ataques terroristas na Europa Ocidental, na última década. Só se recuarmos até 2004, o ano dos atentados de Madrid, é que encontramos um número superior de vítimas – 196. O ataque terrorista que atingiu Madrid, a 11 de março desse ano, foi o maior em número de vítimas, desde o final da II Guerra Mundial.

Novo terrorismo na Europa, nada de novo no resto do mundo
Há também um outro aspeto dos ataques terroristas a Ocidente, neste século, que devemos ter em conta, a sua própria forma. Na sua expressão, trata-se de concretizar uma perturbação momentânea, e brutal, na vida quotidiana do Ocidente. É de notar que os alvos eleitos, não são de establishment militar ou político, mas locais comuns – restaurantes, bares, teatros, transportes públicos, etc. Estamos perante uma nova forma de terrorismo, cujo objetivo é o de perturbar, momentaneamente, o ritmo de vida dos chamados países desenvolvidos.

Se compararmos com o que se passa que em muitos países do mundo (Congo, Afeganistão, Síria, entre outros), concluímos que, ao contrário do Ocidente, nestes países o terror é diário, implícita e explicitamente. A Ocidente, no que concerne ao terrorismo, continuamos a viver numa espécie de “redoma” que apesar de estalar pontualmente, vai-nos mantendo sob um efeito de estufa, comparativamente com os países onde se vive diariamente em clima de terror. Por quanto tempo se aguentará a redoma?

Os novos terroristas
Hoje, o terrorista, já não é o estrangeiro. Sem querer apelar à paranoia, o terrorista é alguém que está na nossa comunidade e, que em algum momento, decide manifestar-se de uma forma radical. Vivemos, como bem notou Gilles Lipovetsky, “numa sociedade onde o apelo constante à satisfação individual pode agudizar a frustração das expectativas das pessoas. O hedonismo perdeu o seu estilo triunfal e há uma grande insatisfação em cada um de nós. A resposta a este sentimento parece passar, para alguns, pela adesão a contextos extremos, nos quais procuram afirmar a sua esperança e sua personalidade. Algumas destas escolhas conduzem, infelizmente, às novas experiências extremistas oferecidas por vários grupos radicais.” Transformar um hedonista num ser radical, ou somar ambas as características numa só criatura, tornando-o num ser de “virtudes” cumulativas, cheira a nova experiência de Mary Shelley; um novo Frankenstein.

Cláudia Lucas Chéu