“Queria surpreender para continuar a existir interesse sobre o meu trabalho. “

Lisboa, 14/04/2016 - Nuno Gama, estilista, fotografado esta tarde na sua loja depois duma entrevista ao Delas.pt
( Gustavo Bom / Global Imagens )

2016 é o ano de festejar 50 anos de vida e 30 de carreira de Nuno Gama. Nasceu em Azeitão, o mar é a sua grande paixão e tem o sonho de deixar um marco na história da moda nacional, porque tem noção que o seu trabalho faz parte da História da criatividade portuguesa. Começou a desenhar e a vender para lojas como Mister Wonderful ou Desfile, em 1984, antes de iniciar os seus estudos no CITEX, no Porto, em 1986, ano em que começou a fazer desfiles em nome próprio.

Em 2012 foi para Lisboa para abrir uma loja na zona do Príncipe Real. Desfila há 25 anos na Moda Lisboa, marcou presença no Portugal Fashion também durante algumas edições. Admirador incondicional de Portugal, faz questão de ajudar a promover o País, recorrendo a imagens da cultura popular como o Pastel de nata, a Sardinha, o Santo António ou os lenços de Viana. Na última edição da Moda Lisboa apresentou um documentário, na sala do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, deixando para o mês de setembro o desfile da coleção outono-inverno 2016-17, que vai recuperar a tradição da alfaiataria, do conceito por medida.

A apresentação da coleção de outono-inverno vai ser fora do habitual contexto da Moda Lisboa. Porquê?
Primeiro, porque nesta primeira parte de 2016, conjugam-se vários fatores de relevo na minha vida que merecem ser celebrados convenientemente. Segundo, sinto a necessidade de registar o meu trabalho para um dia, se quiserem saber sobre o que fazia, existir informação fidedigna. Na verdade, preocupo-me em deixar um legado para as futuras gerações poderem conhecer o meu trabalho. Quero deixar um legado… acho que todos o deveríamos fazer.

Não tem um arquivo com o material feito ao longo dos anos?
Não. Caí no erro de achar não ser necessário ou de não dar a devida importância à história do meu trabalho. Mas quando começamos a envelhecer, a chegar a uma idade em que percebemos muitas coisas e ficamos, por princípio, mais sábios, então a visão da vida muda. E ainda bem. Estou a tentar recuperar alguma coisa…

Para fazer este documentário que apresentou na última edição da Moda Lisboa, sentiu dificuldade em encontrar material sobre o seu passado profissional?
Sim, muita. Atualmente, é difícil recuperar determinada informação que aconteceu há mais de 25 anos, quer associada à moda quer a outras áreas. A qualidade dos materiais de então era diferente e muitas coisas foram mal acondicionadas, facilitando a sua degradação.

O público que o segue fielmente na Moda Lisboa gostou da surpresa?
Queria surpreender para continuar a existir interesse sobre o meu trabalho. Fazer sempre a mesma coisa acaba por cansar mesmo que nos seja difícil de admitir. Confesso que é mais difícil ter ideias e inovar, do que fazer sempre o mesmo registo. Pode também acontecer não ser possível fazer de outra forma. Mas tem de se tentar. E foi o que fiz: comemorar 30 anos de carreira e 50 anos de vida. Não sabemos o dia de amanhã.

Mas gostaram ou não?
Uns sim outros mais ou menos. Acho que a surpresa os deixou sem reação. Mas depois de absorvido, acho que gostaram.

Está a preparar mais novidades para continuar esta celebração?
Estou a fazer o livro e a preparar uma exposição.

Este ano?
Sim.

Está a ser organizado um desfile para apresentar a coleção FW 2016-17. Onde e quando será?
Esta coleção vai ser apresentada inserida num espetáculo e não na ideia de um desfile.

Como assim?
Decidi fazer desta ocasião um ‘Momento’. No fundo este espetáculo vai ser composto por diferentes partes: primeiro, o cenário vai ser um hangar com aviões, motos e carros de época, criar um ambiente cinematográfico ao estilo do 007; segundo, um cocktail/wellcome drink servido pela seleção de râguebi; terceiro um jantar servido por importantes ‘chefs’ de cozinha como João Rodrigues, Henrique Sá Pessoa e Alexandre Silva e as sobremesas vão estar a cargo do chef João Oliveira. Após o jantar segue-se a apresentação da coleção que se chama ‘Heterónimos’, os meus heterónimos, onde a inspiração é o regresso à elegância, aos fatos por medida. Para terminar temos um baile com a Orquestra do Teatro Nacional de São Carlos e um dj.

Lisboa, 14/04/2016 - Nuno Gama, estilista, fotografado esta tarde na sua loja depois duma entrevista ao Delas.pt ( Gustavo Bom / Global Imagens )
( Gustavo Bom / Global Imagens )

Só para convidados?
Isto é um evento da Cruz Vermelha by Nuno Gama, existe um valor associado por pessoa que reverte a favor da Cruz Vermelha.

Em outubro vai haver desfile Nuno Gama na Moda Lisboa?
Ainda nada está definido.

A marca Nuno Gama está, desde há vários anos, associada à iconografia e cultura popular nacional. Faz parte de um processo criativo?
São várias coisas. Existe a relação da construção e sedimentação da marca Nuno Gama, que parte para a necessidade de ajudar a promover o país onde nasci e cresci, que é Portugal. O intuito é nunca perder a autenticidade. Se todos contribuíssemos, no nosso dia-a-dia, escolhendo produtos nacionais, Portugal ganharia com isso, e essa contribuição passa por pequenos gestos e decisões de consumo.

Em junho de 2015 foi condecorado Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Quando soube que ia receber esta condecoração, como reagiu?
Reagi com felicidade. Principalmente pensei na felicidade que os meus pais iriam sentir se fossem vivos, em particular o meu pai que dava grande importância a estes momentos. Por outro lado, senti que o meu trabalho, muito focado na imagem e na cultura portuguesa, estava a ser reconhecido. Foi gratificante.

Natural de Azeitão, foi no Porto que escolheu viver durante 26 anos. O que motivou esta escolha?
No Porto grande parte dos habitantes são dali, vive-se nas origens, enquanto em Lisboa as pessoas têm origens noutras partes do País e vivem de uma forma diferente. Nem melhor nem pior, diferente. Fui atraído por essa diferença.

E o que o trouxe para Lisboa?
A necessidade de mudar, de ganhar novos voos. Ao fim de tantos anos sentia-me condicionado. Do Porto consegui sair para o mundo, mas precisava de mais. Também influenciou o facto de o meu pai estar muito doente e de querer estar com ele e após a sua morte queria estar junto da mulher da minha vida, que era a minha mãe.

O que o encantou na moda para fazer dela uma profissão?
A verdade é que nunca senti um fascínio pela moda. Nunca senti que tinha de ser designer. O que sinto é que fui criando um trabalho gradual numa área, que por acaso é a moda, e que já se passaram 30 anos.

Se não fosse designer …
Facilmente seria cozinheiro. Adoro cozinhar, porque acho que é um ato de amor e carinho e um anti-stress. Mas também gosto de fazer jardinagem, ou trabalhar com crianças, outra coisa que me encanta e me dá paz.

Qual é a semana de moda internacional em que gostaria de desfilar?
Neste momento estou a trabalhar na internacionalização e gostaria muito de estar na semana de moda de homem em Paris, pela oferta informativa, pelas amizades que lá tenho e proximidade. Gostaria também de poder estar na Semana de Moda de Nova Iorque que sinto que anda a chamar por mim, mas se conseguir quero entrar pela porta da frente. Tenho 50 anos e pouca paciência e disposição para perder tempo.

A sua marca está à venda onde?
Atualmente, na loja Nuno Gama, em Lisboa.

Trabalhou para e com a indústria têxtil, vantagens e desvantagens?
Mostramos inteligência quando estamos recetivos a aprender diferentes formas de trabalhar, de gerir, de produzir. Todos lucramos com essa oportunidade de poder contactar com setores que têm uma dinâmica muito diferente do trabalho do designer de autor ou do costureiro. A moda é um meio para atingir um fim. A minha marca existe para ser consumida e não para decorar montras.

O que falta à moda portuguesa para se tornar internacional?
Acho fulcral estarmos nos grandes centros internacionais, estruturar bons projetos, criar boas coleções e depois investir nas plataformas certas: Paris, Londres, Nova Iorque, Milão. Implementar estratégias de assiduidade nos grandes centros de distribuição internacional, porque se o público não tiver conhecimento, não consome. As marcas portuguesas precisam de estar mais bem representadas nos lugares adequados.

Projetos a realizar?
Já aqui falei do livro e da exposição, que são projetos pontuais. Gostava de ter um perfume e uma linha de decoração.

E o reconhecimento internacionalmente?
Era a cereja no topo do bolo… Pelo simples motivo de ser reconhecido como português. Sou um apaixonado pelo meu país e incomoda-me ser frequentemente confundido como italiano ou espanhol e nunca como português.

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